Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

A dissidência e a heresia

 

Com uma calma, uma serenidade a toda a prova, como que pairando superiormente sobre o caos, Saramago entrou por aqui a dentro, como um furacão imparável, a dizer que a Bíblia é um manual de maus costumes e que Deus não é de fiar. Fez tal tempestade que pôs o país todo em estado de alerta vermelho... 
 
Agitou as águas, fez trovejar, acendeu uns quantos relâmpagos, provocou um sismo de grau elevado na escala do dogma e pôs-se a andar, que se faz tarde. E como diz o Joaquim Franco, Saramago «fez sair da toca um certo "talibanismo" cristão, agressivo, que se pensava do passado».
 
Teve honras de entrevista em simultâneo na SIC e na SIC Notícias e mostrou que não vem cá para perder tempo. Foi-se embora e deixou rasto. 
 
Na entrevista a que me refiro, Saramago pediu que sejam adicionados mais dois direitos aos tão celebrados «Direitos do Homem»: 1. O direito à dissidência e 2. O direito à heresia.
 
Bem sei que estes dois direitos não fazem parte da cartilha seguida pelo Comité Central do PCP de Saramago… aí, a dissidência e a heterodoxia são fortemente, exemplarmente punidos.
 
Mas isso não obsta a que Saramago tenha alguma razão. É preciso ter e conceder a liberdade de dissidência e de heresia.
 
Estava aqui a pensar que as grandes religiões já foram, todas, um dia, consideradas seitas, dissidências. O budismo em relação ao hinduísmo, o cristianismo em relação ao judaísmo, o protestantismo em relação ao catolicismo romano...
 
E já para não dizer que as grandes doutrinas bíblicas, por exemplo, pilares e âncoras da mais rígida ortodoxia religiosa, começaram por ser consideradas, primeiro, como grandes heresias.
 
Nisto, estou com Saramago: viva o direito à dissidência…e à heresia!
 
Luís Melancia

 

Publicado por Re-ligare às 05:56
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1 comentário:
De Fernando Gomes a 1 de Novembro de 2009 às 00:45
O direito à dissidência e à heresia é um facto que não precisa de ser reclamado, pelo Sr. Saramago, e, relativamente à Bíblia e ao Deus da Bíblia.
A dissidência e heresia vive-se todos os dias e grita aos ouvidos dos cristãos (mas aqueles que acreditam mesmo em Cristo!) na praça pública, entra pelos olhos dentro com os exemplos dessa liberdade, portanto chamar "talibanismo" ao direito à indignação é não perceber que todos temos direitos e que os cristãos são aqueles que mais se confrontam com isso, ou seja com o direito à heresia de quem não o é (mesmo que diga que sim) porque “nem todo o que diz: Senhor ,Senhor, entrará no Reino dos Céus!”, porque dissidente e herético é já por si o sistema do mundo em que temos que viver, um livro aberto de maus costumes e com uma falta de Deus que não é de fiar.
Poupo-me a dar exemplos porque confio na inteligência do possível leitor deste comentário, que saberá, concerteza, depreender a que me refiro. Só quero que perceba que este mundo não é apenas um livro de maus exemplos é um livro repleto de histórias, que não são mitos, e que ofendem todos os dias a inteligência e a moral de quem considera a Bíblia, a Verdade. Não uma verdade, mas a Verdade! E isso não nos dá o direito de vir para a rua gritar aos quatro ventos o que nos vai na alma e chamar às coisas o que elas representam para nós, até porque esta democracia que se diz laica é sobretudo laicizante, e pretende acantonar Deus cada vez mais no reduto da vida privada, ao mesmo tempo que proclama por todo o mundo o seu próprio evangelho, repudiando o contraditório, promovendo leis que redundarão inevitavelmente em delitos de opinião , como se quem pensa diferente não tivesse o direito de o fazer, ou ainda pior, estivesse proibido de o fazer! E tudo isto em nome da liberdade.
Sim senhor, é livre esta forma de ditadura, até porque nós a legitimamos, e não apenas com o nosso voto mas também com os nossos silêncios e indiferenças.
Portanto suportar declarações como as que proferiu o sr. Saramago é o mesmo que, já depois de termos que assistir ao vivo e a cores às tais heresias, ainda termos que ouvir o profeta do anti- evangelho (ou o que quiserdes considerar como melhor nome para esse senhor) e ainda por cima calar, correndo o risco de não o fazendo, sermos considerados talibãs do cristianismo.

Fernando Gomes

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