Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Perigoso precedente?

 
Alguns acontecimentos só ganham relevância com ampliação mediática. Há também quem aproveite a lógica da comunicação global para dar a determinado acontecimento a relevância que, na realidade, não tem.
 
Recentes polémicas com o “mundo” islâmico têm o registo desta perversidade. Foram os casos das “caricaturas” de Maomé ou do discurso do Papa Bento XVI na Universidade de Ratisbona, usados agilmente por extremistas islâmicos e com uma reacção inábil de alguns actores políticos na Europa.
No dia 11 de Setembro, Londres foi palco de preocupantes incidentes que, ao contrário do que seria expectável, quase passaram despercebidos na opinião pública.
A polícia teve de intervir para afastar um grupo de manifestantes “anti-Islão” que se concentrava à porta da Mesquita Central.
Com o slogan “Parem a islamização da Europa”, alguns dos manifestantes foram detidos na posse ilegal de armas, enquanto jovens muçulmanos se juntavam do outro lado da barricada policial.
Este episódio em Londres abre um perigoso precedente na Europa democrática. Os protestos liderados pela extrema-direita racista foram “focalizados”… na religião.
Os muçulmanos na Europa estão “entre a espada e a parede”, ou seja, entre um indisfarçado preconceito nas ruas e o radicalismo contagioso que persiste nas comunidades. Por um lado são pressionados a revelar lealdade para com a cultura ocidental, provando que a religião islâmica é pacífica. Por outro, são vítimas da incompreensão e dos estereótipos que alimentam os radicais de uma tradição bélica e hegemónica. Já este ano, um pequeno grupo de muçulmanos perturbou uma parada de militares britânicos recém-chegados do Afeganistão.
Nos últimos meses têm sido colocados na Internet filmes sobre os “perigos” da islamização da Europa. Agitam o fantasma do desemprego e da baixa taxa de natalidade em alguns países, em contraponto com o crescimento da população imigrante oriunda de países de cultura islâmica. Misturam e baralham, propositadamente. Uma destas “montagens” vídeo prevê, por exemplo, uma França dominada pelo Islão (!) dentro de algumas décadas. Noutros contextos a mistura podia ser explosiva.
O problema da baixa taxa de natalidade na Europa é complexo e exige uma reflexão sobre o conceito de desenvolvimento e sustentabilidade. Ao não o enfrentarem com um debate sério e medidas concretas, os poderes públicos e políticos abrem espaço a medos desnecessários e manipuláveis.
Os incidentes em Londres inquietam. São um alerta. Os actores sociais determinam os actores políticos. E os totalitarismos só existem politicamente se as sociedades os aceitarem.
Nesta plataforma de culturas que é a Europa já foram experimentados vários modelos. Faltará aprofundar o modelo inter-cultural, alicerçado nos Direitos do Homem. O que melhor contribuirá para uma saudável e preventiva convivência entre “diferentes”, na religião ou em qualquer outra dimensão da vida.

Nota: Os incidentes em Londres são pouco prováveis em Portugal. Têm sido exemplares as relações de alguma proximidade entre os líderes religiosos, associadas à circunstância de a maioria da comunidade islâmica em Portugal ter origem nas ex-colónias. Até mais ver, Portugal é um caso para estudo na Europa.

                

Joaquim Franco

Artigo publicado na SIC on-line

 

 

Publicado por Re-ligare às 12:01
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