Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Ensaio sobre o silêncio

 

Entre o Ensaio Sobre a Cegueira e o Ensaio Sobre a Lucidez, impõe-se um terceiro que ocupe o hiato deixado entre ambos: o ensaio sobre o silêncio. Da confiança no outro como proposta de (re) humanização à lucidez branca como uso da razão, importa construir uma ponte que ligue estas duas margens da existência humana. Entre histórias e poesias, a experiência do silêncio na literatura bíblica ajuda-nos a observar um outro horizonte de esperança. Tomando o homem como um todo, esse olhar pode renovar-lhe a mente e o coração ajudando-o a superar as epidemias que assolam a sociedade e comprometem a sustentabilidade do desenvolvimento civilizacional.
 
A antiga sabedoria popular diz que “o silêncio é de ouro”. No decorrer dos tempos, poetas, filósofos, teólogos e iminentes políticos têm-lhe atribuído «significados» distintos. Enquanto Aldous Huxley destacou a natureza inefável do silêncio ao afirmar que ele “é o que mais se aproxima de expressar o inexprimível”, Mário Quintana descreveu-o como “um espião”. Numa intermediação entre ambas, Xanana Gusmão examinando o poder do silêncio escreveu: “Nosso grito é o silêncio na passagem do tempo e o tempo é o sangue no silêncio do mundo! (...) Nosso tempo é o silêncio nas mudanças do mundo e o sangue é o preço nos mundos do silêncio! (...) A nossa luta... é a história do poder do silêncio.”
 
No relato da vida de Jesus, o seu biógrafo Marcos revela-nos a tensão dialéctica entre estes dois poderosos lados do silêncio: “Tudo quanto ele faz é extraordinário. Até põe os surdos a ouvir e os mudos a falar.” Ao curar surdos e mudos Jesus não superou apenas a fragilidade de dois corpos humanos prisioneiros dos seus silêncios. A cura coloca-nos também perante a responsabilidade de nos assumirmos como resposta às necessidades do nosso tempo. Embora a regeneração da surdez nos exorte à prática da escuta, mediante a cura da mudez somos desafiados ao uso da nossa voz. Precisamos de reflectir sobre a natureza dos nossos silêncios. Importa reflectir sem deixar de agir. Com efeito, à necessidade de fazer silêncio – ou como disse Madre Teresa de Calcutá, “aprender a escutar porque Deus fala no silêncio do coração” – a interpõe-se o tempo para romper o silêncio que, nas palavras de Florbela Espanca, significa “condensar o mundo num só grito!”
 
(continua…)
 Simão Daniel Fonseca
(investigador da área de Ciência das Religiões)
Publicado por Re-ligare às 16:45
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