Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

O (des)processo civilizacional: a Suiça e os minaretes

 

A imagem que hoje temos da Praça de Espanha não ficaria completa sem o elegante minarete que a Mesquita Central de Lisboa bem lança na vertical, rematando os seus limites com um tom ocre que, nem é um amarelo garrido, nem um pálido creme sem nome. Antes pelo contrário, a cor está perfeitamente adaptada a um quadro em que o objecto arquitectónico marca a paisagem sem, no entanto, a ferir.
Parece que este quadro que nos remete um pouco para a leveza e a subtileza das Mil e uma noites tem os dias contados em parte da Europa. Depois de semelhante proibição em parte da Áustria, a Suiça acaba de votar favoravelmente num referendo que auscultava os cidadãos sobre a interdição de construir minaretes nas mesquitas.
O mais insólito aconteceu no pais que viu Calvino desenvolver a sua Genebra da tolerância. Há poucos dias, apenas 37% dos inquiridos dizia ir votar a favor da proposta. Neste fim-de-semana, foram bem mais os que o fizeram, quase 60%.
De interessante na análise dos votos, há que dizer que nos cantões de língua alemã se votou mais explicitamente a favor da proibição, enquanto que nos francófonos optaram por ir contra a proposta. Significados? Talvez a dita herança de Calvino, quem sabe?
Um dos lados preocupantes desta situação encontra-se no apelo do governo de Berna à população: não votar a favor da proposta pois levantaria “incompreensão no estrangeiro e prejudicaria a imagem da Suíça”. Tudo se pode resumir a imagem. Quando a ética chega a este ponto, mais vale recolhê-la e esquecer os três últimos séculos de criação daquilo a que efectivamente chamamos Europa: igualdade, liberdade e fraternidade, muito bem alimentados pelo ensino, a massa de união que fortalece estes valores únicos que trazemos do Iluminismo.
E é aqui que o meu espanto vai ainda mais longe. Como podemos olhar para a Democracia quando a vemos ser usada pela extrema-direita como forma de a subverter? Sim, esta proibição, que corta direitos fundamentais de cidadania, foi aprovada democraticamente! E o governo apela através da imagem para o exterior…
No fim disto tudo, regressando ao ensino, o garante esclarecedor da cidadania, esse sai brutalmente mal desta situação surreal. O pais de Pestalozzi, entre tentos outros pedagogos ainda hoje enaltecidos, demonstrou que a instrução pode muito bem nada ter a ver com o esclarecimento colectivo. Os medos, o receio pela diferença, são formas muito mais eficazes de controlar as populações.
As portas que se abrem com este referendo são monstruosas. Grandes, bafientas, revelam, na penumbra que nos apresentam, o que de pior a Europa tem sido capaz de fazer.
Onde estão as luzes? A não ser as dos bancos… parece que se apagaram…
 
Paulo Mendes Pinto
(Director das licenciaturas em Ciência das Religiões nas Un. Lusófonas em Lisboa e no Porto)
 
Artigo do Público, de dia 1 de Dezembro de 2009.
Publicado por Re-ligare às 10:18
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4 comentários:
De pvnam a 30 de Novembro de 2009 às 15:08
---> 30-11-2009, após o povo suíço, em referendo, ter rejeitado os minaretes... todos os jornais diários foram unânimes: a Suíça vai ter problemas comerciais/económicos com países islâmicos...
---> Os intelectuais nacionalistas - promotores da teoria de que «o amor ao próximo» é a causa da derrocada europeia... - serão, porventura, os pensadores mais imbecis da História da humanidade.
{nota: só os imbecis é que não vêem isto: a maioria dos europeus são seguidores daquela 'grande tradição europeia': negociatas fáceis tipo -> exploração de escravos, roubo de territórios a povos indígenas, mão-de-obra servil imigrante ao preço da chuva, etc...}


ANEXO
A Civilização do respeito do espaço dos outros... versus... a Civilização das corridas demográficas...
Todos Diferentes! Todos Iguais!
{TODOS os povos - quer os de maior, quer os de menor, rendimento demográfico - devem possuir o Direito de ter o SEU espaço no planeta}


---> Os Anti-racistas são intolerantes para com que é diferente: eles não aceitam que os povos nativos que, pacatamente, apenas procuram sobreviver no planeta, possuam o Direito de ter o SEU espaço no planeta.
—> Os 'paladinos' do anti-racismo são precisamente aqueles povos (africanos, asiáticos, etc) que estão numa corrida demográfica pelo controlo de novos territórios… eles pretendem possuir 'carta branca' para ocupar e dominar os territórios que muito bem entenderem...

Apoiantes da ideologia Anti-racista:
1- os 'paladinos' [são aqueles que estão numa corrida demográfica pelo controlo de novos territórios];
2- capitalistas selvagens (venham mais consumidores);
3- os negociatas-fáceis (são os seguidores daquela GRANDE TRADIÇÃO EUROPEIA: negociatas fáceis tipo -> exploração de escravos, roubo de territórios a povos indígenas, mão-de-obra servil imigrante ao preço da chuva);
4-Os seguidores da lavagem cerebral (propaganda) levada a efeito pelos 3 anteriores.
{Uma observação:Os anti-racistas são iguais àquelas personalidades históricas - de má memória - que também adoravam inventar teorias com um objectivo muito preciso: negar a outros... o Direito de evocar a legitimidade da sobrevivência da sua Identidade}


---> Para além da GRANDE TRADIÇÃO EUROPEIA (vulgo negociatas-fáceis), existe uma UMA GRANDE TRADIÇÃO UNIVERSAL: a existência de povos autóctones no SEU espaço.
--->>> Concluindo: antes que seja tarde demais, há que mobilizar, para o SEPARATISMO-50-50, aquela minoria de europeus que possui disponibilidade emocional para abraçar um projecto de Luta pela Sobrevivência...


De Viagens Suíça a 2 de Julho de 2010 às 17:04
Eu acho que os suíços fizeram muito bem. Pelo menos os politicos tem a coragem de fazer um referendo que pode dar um resultado que não é de esquerda.
De Luís Melancia a 1 de Dezembro de 2009 às 13:46
Este tema dá pano para mangas...e mangas compridas! Mas das mil e uma coisas a dizer sobre o tema e sobre o texto, deixo aqui duas ou três provocações.

O «elegante minarete que a Mesquita Central de Lisboa bem lança na vertical», frase com que abre o texto, ajuda a explicar esta súbita e inesperada decisão do povo suíço. E o problema é exactamente este: o minarete é visto como uma «lança na vertical» foi (foi de propósito: mudei o verbo para substantivo porque é disso que se trata). Mircea Eliade explicou-nos a função sociológica destas estruturas que, sendo erigidas, rasgam os céus: desde o ritual védico da erecção de um altar consagrado a Agni, à erecção da cruz por parte dos conquistadores portugueses e espanhóis, o que está em causa é o que ele chama de «cosmização» do espaço geográfico. Marcar o local.

«Os minaretes não são construções inocentes. São levantados para marcar o território e a progressão do islão em países estrangeiros», afirmou o deputado suíço Oskar Freysinger. E se há 180 locais de culto islâmico na pequena Suíça de 7,7 milhões de habitantes – seguramente mais do que o número de locais de culto cristão nos países muçulmanos – por que razão o minarete se torna o problema? Exactamente pela mensagem de «ocupação do espaço» (vertical e horizontal) que carrega. Espero é que a erradicação do cristianismo da Europa (vulgo laicização da Europa) não prepare o terreno para uma islamização da Europa... assim como Nietzsche, que admirava os pré-socrátricos, acusava Platão de ter preparado o caminho para o cristianismo...

Os bispos católicos na Suíça pediram a todos os católicos que votassem contra a proibição. Para ser franco, não acho que a liberdade de erecção, isto é, de construção, fosse algo que os preocupasse... o que a Igreja teme é que os poucos locais de culto, ainda autorizados no Médio Oriente, sejam alvo de retaliações. Apesar de admitir que não há «reciprocidade» nos países islâmicos, o Vaticano alertou para retaliações contra cristãos nos países muçulmanos. No fundo, no fundo, o que temos é MEDO: medo da violência, do terrorismo, da agressividade, da resposta bruta a que um certo islão (esse islão radical) já nos habituou. Façamos a justiça de dizer que não é tudo «igual ao litro». Há islão que não é assim, mas há islão que é assim, e muito mais.

E, depois, há por aí uns cidadãos europeus que não devem – literalmente – nada a ninguém e dizem: Construção de Mesquitas na Suíça? Sim. Liberdade de culto para os 400.000 muçulmanos na Suíça? Sim. Integração social dos muçulmanos na Suíça? Sim (metade da equipe de futebol de sub-17, campeões mundiais, é composta por muçulmanos emigrantes da Bósnia e da Turquia). Aplicação universal da lei e da justiça – inclusive aos emigrantes muçulmanos que se «portam mal»? Sim (54% dos presos na prisão de Genebra são emigrantes muçulmanos). Sim aos valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Aliás, não se esperava outra coisa do país de Calvino.

Sim a uma estratégia de ocupação muçulmana do espaço físico e ideológica de que os minaretes são símbolo? Os suíços acham que não.

Luís Melancia
De Felipe a 15 de Janeiro de 2014 às 15:01
Quem se põe contra a interdição dos minaretes é porque nunca foi acordado por um chato gritando no alto da torre um proselitismo religioso infernal.

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