Quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

Os jogos na «Liga» da TV

 

 
Não sendo especialista na matéria, nem pretendendo reduzir este espaço à liberdade de emitir a minha opinião, o atrevimento em pronunciar-me de novo sobre os media tem apenas um propósito: o exercício da cidadania. Assumindo conscientemente o papel de «treinador de bancada», proponho quatro comentários sobre algumas imagens televisivas referentes às jornadas da vida social, religiosa e cultural. Por outras palavras, jogos de um campeonato que apelidamos aqui por: «Liga» da TV.
 
Informação Desportiva 1 - Informação Religiosa 0
 
O primeiro dos comentários deve-se à análise dos resultados do jogo informativo na televisão. A informação desportiva vence a religiosa por uma goleada confortável. Na medida em que os registros da concorrência são idênticos, reconhecemos que não se trata de uma arquitectura programática exclusiva a uma operadora mas de disposição comum nestes meios de comunicação. Uma cultura que remete o desporto e a religião para esferas de interesse muito distantes entre si. Porém, verificamos que nem mesmo a informação politica ou económica consegue superar a desportiva. Não há à entrevista ou debate politico que vença a mais banal informação alusiva ao futebol. Para a história ficará a célebre entrevista do carismático político e ex-primeiro ministro Santana Lopes, interrompida para transmitir em directo a chegada de José Mourinho ao aeroporto de Lisboa. 
 
Todavia, o nosso olhar sobre este jogo (informação desportiva versus informação religiosa) não incide nem no resultado nem no vencedor mas sobre o derrotado: a religião. Para além de analisar a presença residual de informações sobre o fenómeno religioso nos serviços de informação, verificamos ainda outros dois factores. 1) Têm habitualmente o mesmo denominador comum: abriram telejornais ou tiveram direito a uma extensa reportagem. Em contrapartida, no que respeita à natureza do seu conteúdo observamos outras semelhanças. Maioritariamente as notícias centram-se nas considerações polémicas dos líderes religiosos, nas posições demagógicas das respectivas instituições ou nos crimes de alguns sacerdotes.
 
O comentário que nos apraz fazer sobre as imagens deste jogo não é a justiça do seu resultado mas a parcialidade de quem o ajuíza mediante critérios de arbitragem pouco transparentes.
 
Morangos com Açúcar 1 - Religião 0
 
O segundo comentário diz respeito aos géneros mais emitidos na TV. A análise dos números permite verificar que a ficção é o género mais exibido (cf. Anuários da Obercom). Não pretendo tecer aqui qualquer crítica a uma das séries de ficção portuguesa de maior longevidade e sucesso de audiências, nomeadamente junto do público infantil e juvenil. Todavia, por este e outros factos, não posso deixar de observar alguns aspectos sobre uma obra que tem a pretensão de fazer do entretenimento um espaço de debate sócio-cultural. Embora se tenha responsabilizado por trazer a público uma reflexão sobre o aborto e a sexualidade, todavia observamos nas narrativas e personagens que estes temas foram abordados unilateralmente e de modo a estereotipar e a estigmatizar a posição da maioria das religiões sobre os mesmos. Por que razão a personagem principal de uma telenovela nunca assume um papel que promova os valores ou benefícios associados à prática religiosa? Por que razão a virgindade não é promovida como um valor ou como uma orientação sexual pré-matrimonial entre as demais opções? Finalmente, por que razão esta orientação sexual é sempre ridicularizada?
 
De novo, o que está em causa não são os resultados da tematização deste jogo onde os valores da religião são contestados e perdem a favor de novas propostas de felicidade mais baratas e instantâneas. O que urge denunciar é uma outra manipulação no desfecho: o religioso não sai apenas a perder mas humilhado.
 
Professor Alexandrino 1 - Bíblia 0
 
É em nome da liberdade e da democracia que nos desafiamos a fazer este terceiro comentário. Se por um lado os símbolos, a mensagem e os agentes religiosos estão sob apertada vigilância do poder político, por outro a democracia confere aos meios de comunicação a liberdade de contribuir para a construção de uma imagem decadente do texto religioso. Pelo que, o professor Alexandrino pode dizer que a Bíblia serve apenas para “limpar o … porque tem papel fininho”. Dispensamos comentários sobre estas imagens. Remetemos e sujeitamo-las à verificação dos nossos leitores (http://www.youtube.com/watch?v=UFdMY4uLbmo). Rematamos o assunto considerando que a vitória do professor Alexandrino sobre a Bíblia traduz uma vez mais a mesma filosofia.
 
Independentemente do valor dos intérpretes ou da qualidade desta equipa não será legitimo equacionar aqui a influência do famigerado sistema? Nesta «Liga» da TV os jogos onde participa a Religião têm sempre o mesmo desfecho (Qualquer coisa 1 – Religião 0)
 
Selecção Nacional 1 - Jovem Degolada 0
 
“Agora a sério”, o último dos comentários tem como propósito denunciar e combater a desumanização. Depois de tudo quando atrás foi referido, não podemos deixar de reflectir sobre a relação deste acontecimento como consequência dos antecessores. Eles não ilustram apenas a derrota da religião mas a sua desclassificação para a «Liga» dos mais fracos. Ao remetê-la para a mais baixa competição das nossas vivências, a sociedade e os media remeteram também os seus valores à insignificância, sobretudo o valor da vida humana.
 
Por isso, no mesmo canal e programa, o comentário ao assassínio de uma jovem revela-se uma brutal insensibilidade. Quero acreditar na inocência e boa vontade do criminologista convidado. Mas não consigo ter a mesma condescendência perante a superficialidade e cumplicidade dos entrevistadores. Desta vez não consigo dispensar comentários sobre as imagens deste outro jogo. Remetemo-las aos leitores a fim de verificarem a forma como estes profissionais geriram o escasso tempo disponível para tratar um assunto cuja gravidade merecia mais e melhor atenção (http://www.youtube.com/watch?v=9H9GlP7FKR0). No tempo disponível para reflectir as causas e consequências inerentes à morte de uma jovem brutalmente assassinada pelo namorado, os intervenientes discorreram sobre a importância do jogo da Selecção Nacional contra a Bósnia. Se existia alguma intenção de prestar um serviço público, o mesmo foi transformado num segundo assassínio da vítima: roubaram-lhe a dignidade que lhe restava. Qual o valor de uma jovem anónima, perante a nossa selecção de craques? O que é a degolação de um indivíduo perante a possibilidade de Portugal subir ao maior palco do mundo? Ao desclassificar a religião da «Liga» principal verificamos que a TV desclassifica também aquilo que ela valorizava: a existência humana.
 
Em registo de luto proponho não deixarmos que a morte desta jovem tenha sido em vão. Oportunamente, a sociedade civil deve reflectir e consumir criticamente os serviços que as televisões privadas lhe oferecem. As instituições que regulam as operadoras têm aqui a oportunidade para ponderar a respeito dos valores associados ao jornalismo e entretenimento desumanizante. As empresas de comunicação têm aqui um belo (mau) exemplo para examinarem a sua própria imagem mediante a forma como misturam ficção, entretenimento e realidade.
 
Simão Daniel Cristóvão Fonseca
Publicado por Re-ligare às 10:32
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1 comentário:
De Luís Melancia a 5 de Dezembro de 2009 às 14:38
Caro Simão Daniel,
assino por baixo.
E estava aqui a tentar descobrir razões que justifiquem esta «cabazada» contínua, esta goleado a zeros que a religião sofre neste campeonato. Atrevo-me (e é isso mesmo isso: um exercício de puro atrevimento da minha parte), atrevo-me, dizia, a adiantar algumas razões. E devo advertir, à partida, que misturo propositadamente o conceito de «religião» e «cristianismo» porque é nesse campeonato que eu jogo.

Dito isto,

1. Quando os sólidos e robustos valores cristãos são defendidos por gente tão leviana, tão light, tão volátil como aquela que contradiz o sr. Alexandrino...então que venha «o diabo» e escolha (peço que a minha utilização do termo «diabo» seja vista como uma figura de retórica). Quando a densidade do cristianismo é defendida por gente tão levezinha (para usar a alcunha de um grande futebolista), estamos diante do que eu chamaria um «auto-golo» - um golo na própria baliza.

2. Segunda razão: um certo jogo defensivo, isto é, jogar para manter o resultado. O cristianismo fechou-se à defesa, radicalizou-se, tornou-se fundamentalista e, com isso, inverteu as táticas de jogo: o melhor ataque passou a ser a defesa. E o mais ridículo é tentar defender o indefensável... Cada vez que vejo a defesa alinhada em campo para mais uma conferência que visa defender a criação em seis dias...até me arrepio. Ainda bem que a TV não vai lá...

3. Terceira razão: pensar que o estádio tem de se encher só porque certa religião se julga a melhor equipe em campo. É tudo equipes da segunda divisão...menos a nossa. Na nossa infância, pedíamos - exigíamos - a atenção de todos para as nossas habilidades... «olhem todos agora»... era o que pedíamos. Mas agora não...quem quer aplausos vai ter de correr atrás porque o reconhecimento público não está garantido...conquista-se.

4. Depois há gente que joga sempre com a mesma tática de jogo. Aprendeu a fazer uma finta e repete-a como se aquela finta fosse mágica. Era o Bernard Shaw que dizia que quando só temos um martelo, todos os problemas passam a ser pregos. Ah.....essa incapacidade de saber adequar o discurso às circunstâncias!!! Saber ler por uma só cartilha é uma forma de analfabetismo. Jogar sempre da mesma forma é amadorismo. A maior parte dos líderes religiosos só sabe falar de púlpito ...e quando saiem, desse aquário falta-lhes o ar.

5. E depois há esta mania de culpar o árbitro quando o jogo corre mal...Eu tenho ouvido tanta gente queixar-se da falta de presença do religioso nos meios de comunicação, que dá a impressão que os meios de comunicação são os culpados do desinteresse social pela religião. E não é. Por exemplo, a Rádio Lezíria tem programas religiosos, cristãos, e tempo de antena disponível para mais. Quantas equipes portuguesas (igrejas, entenda-se) vão a jogo? Nem uma. Não correm atrás da bola...querem é que a bola lhes venha parar aos pés. Ou então...presença mas de graça.

E podia falar ainda da crescente descaracterização das equipes portuguesas (leia-se igrejas) e de mais uma ou outra questão importante...mas mais não digo. Ainda me mostram algum algum cartão vermelho directo e me expulsam do jogo...

Luís Melancia

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