Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

ADIAR PORTUGAL: Um erro que não podemos continuar a cometer

 
Narrar 2010

2010! Um ano ainda por escrever, qualquer que sejam os desejos, os prognósticos, as profecias, os horóscopos ou as expectativas de cada um. Um ano que será, no final, o que letras como estas ousarem contar, sobre um fictício fundo branco de papel. 2010 será a bio-história que uma agonística e interminável relação de forças destilar em qualquer tempo e lugar. No fundo, ele poderá ser a coragem de quem vê nesta dádiva do existir, não uma repetição segundo uma pré-ordenação, mas a possibilidade de uma total reinvenção. Por conseguinte, 2010 pode ser o ano em que somos finalmente a forma que nunca tínhamos pensado ser. Apesar de tantos constrangimentos, creio estar sempre ao alcance de cada um, a encarnação da diferença que nunca se corporizou, tornando, desta forma, possível a transformação de um repetitivo e indesejado estado de coisas. 
 
Fado e desresponsabilização
Perante cada nova possibilidade, patente em cada dia que nos vem como um dom, não fará sentido chorar a vida, como se esta não fosse mais que um fado inevitável e necessário, como se torna desadequada e inaceitável a desresponsabilização de quem ainda aguarda um messias, de cabeça enfiada na areia ou de braços cruzados, sem nada fazer. Sendo um ano ainda por escrever, 2010 não pode estar condenado à escrita que deu corpo ao ano de 2009. Se indigna e escandaliza a corrupção, a pobreza, a violência, o crime, a qualidade da justiça, do ensino, o desemprego, o acesso à saúde, o endividamento público e privado, a distribuição da riqueza, a subserviência do poder político ao poder económico, então, o ano de 2010 não tem que ser forçosamente uma repetição agravada do que há muito não desejamos para nós mesmos. 
 
Educar para o outro: o caminho da transformação pessoal e social
Esta é a hora, e é já, de percebermos que a resolução destes e de outros problemas sociais, de que tanto nos lamentamos, com os dedos apontados na direcção de infinitos outros, passa, obrigatoriamente, pela nossa transformação pessoal. A quem vivia revoltado com a realidade do seu tempo, Mahatma Gandhi costumava dizer, que ao exigirem uma nova ordem social, eles mesmos deviam ser a transformação por que tanto ansiavam. 2010 surge assim, neste sentido, como uma verdadeira possibilidade, na medida em que esta estiver ligada a um processo de transformação que tenha sido iniciado no ventre de uma mãe, no interior de uma família e de uma escola. Flagelos sociais como a fome, o desemprego, a iliteracia, o tráfico de influências, o fosso entre ricos e pobres, e tantos outros, nunca serão erradicáveis no mundo adulto, se não tiverem sido antes indesejados, neutralizados e aniquilados no interior do mundo de cada um, e desde o seu mais tenro florescer. 2010 não poderá tecer-se como a diferença do que fomos e do que não desejamos voltar a ser, sem que seja precedido de uma escrita pessoal e familiar que reflicta uma séria e honesta educação para o outro. Só assim a anarquia dará lugar ao consenso, a competição à colaboração, o partido político à pátria que é bem de todos, a economia a uma politica ética e reguladora, o dogma à solidariedade e fraternidade, o eu, egocêntrico, ao tu, próximo ou longínquo. 
 
Adiar Portugal
São muitos os dias pela frente, os meses e os anos que hão-de suceder-se na vida dos que hão-de viver mais do que outros, mas a inércia, o adiamento, a indiferença ou a falta de vontade política diante de um chamamento que torna hoje intolerável a repetição da pobreza, do desemprego, da exclusão, da indigência, da fome, da violência, não podem alicerçar-se na sucessão de bondade intrínseca à noite que se abre ao dia, ininterruptamente. 2010, como possibilidade de superarmos o sofrimento e as assimetrias resultantes da construção de Portugal, em anos precedentes, exige que não se deixe para depois o que é de hoje. Adiar Portugal é um erro que não podemos continuar a cometer. O país vive sedento de reformas profundas, nas mais diversas áreas. A reinvenção da sociedade, porém, não pode abandonar-se nas mãos de quem o povo elege como seu representante. 
 
Portugal incoerente
Portugal não pode continuar a assistir, na praça pública, a um murmúrio de descontentamento sobre si, permanecendo fiel aos mais funestos comportamentos sociais. Portugal não pode combater e amar ao mesmo tempo a corrupção, a violência e o crime. Não pode encrespar-se diante de uma crise financeira internacional e continuar refém dos que a provocaram. Não pode concordar com o facto da pobreza ser uma violação de direitos fundamentais e fazer parte do grupo dos que se banham e banqueteiam diariamente em lucros milionários, incapazes de perceber, nas negociações sobre o salário mínimo nacional, por exemplo, que o lucro não é só pertença das entidades patronais, mas dos trabalhadores que o produzem, todos os dias. Portugal não pode acreditar na solidariedade e reduzi-la, depois, na prática, aos cabazes de alimentos, à roupa que não lhe serve, ou ao donativo que cumpre apenas o objectivo de trazer algum alivio a um eventual sentimento de culpa. 
 
Intolerância como vontade
A mediocridade, o deixar andar, a total ausência de espírito crítico, a tolerância como razão justificativa da nossa própria mediania, não são a atitude que o ano de 2010 exige como resposta à dádiva de si mesmo, como nova oportunidade. A intolerância nunca foi tão urgente e necessária, nas lides connosco e com os outros. Uma vontade maior, que nos liberte da incoerência dos comportamentos, gerando diferença, é a intolerância que 2010 reclama. E é quando ela se substitui à vida que pouco ou nada exige de si, que o caminho se faz e a diferença de 2010 acontece, porque tal como dizem os ingleses, where’s the will there’s the way.

                

Henrique Pinto

Presidente da CAIS

Professor em Ciência das Religiões

 

Publicado por Re-ligare às 16:32
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