Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

A conversão de Abel

 

A mediatização de conversões ao Islão tornou-se, em certa medida, uma moda. Abel Xavier termina a carreira com uma decisão que, não sendo estranha, é surpreendente. Tendo em conta os argumentos apresentados – razões do “interior” – o gesto é inquestionável. A adesão a uma religião, em contexto ocidental, é um gesto de liberdade. As circunstâncias ditam a opção, mas é em liberdade que um qualquer cidadão decide a fé que entende professar.

Abel Xavier confessa que foi no Islão que encontrou forças e conforto quando jogou na Turquia. Para quem se deu a conhecer ao mundo do futebol pela excentricidade, com engenho para a imagem e arte para estranhos hábitos, é uma opção radical. Podendo ser, como afirma o jogador, uma religião que “professa a paz, a igualdade, a liberdade e a esperança”, o Islão implica também a submissão a um exigente código de conduta social e religiosa, praticado em liberdade e consciência, o que nem sempre acontece.

A conferência de imprensa onde Abel Xavier anunciou a conversão, apadrinhado por um membro da família real dos Emirados Árabes Unidos, teve destaque mediático no “mundo” islâmico. É inevitável a ligação religiosa ao ambiente cultural e convém sublinhar que não há reciprocidade na liberdade religiosa que permitiu a Abel Xavier encontrar o conforto da fé islâmica. Em países de hegemonia cultural islâmica, onde não faltará quem registe este momento como uma vitória contra o Ocidente, crentes de outras religiões são perseguidos até à morte.

A liberdade religiosa não é universal, nem imutável onde já existe. A conversão de uma figura mediática ao Islão devia ser uma oportunidade para valorizar a liberdade religiosa, uma difícil conquista que, não sendo intocável, pode também esvair-se num multiculturalismo mal formado, disfarçado de laicidade. O respeito pelo diferente, pela diferença, arrisca-se a sucumbir na permissividade.

No que à(s) religião(ões) diz respeito, espera-se que a intrínseca dinâmica de proselitismo, a liberdade para cultuar, propor e aderir a várias propostas de fé e consequentes implicações nos hábitos sociais, não viole os Direitos do Homem, regulados em leis fundamentais. Se a religião tem o dever de questionar a sociedade, a sociedade tem o direito de questionar a religião. A intolerância religiosa, tal como o fanatismo agressivo e o recurso à violência sob pretexto religioso, têm origem em cenários de ausência de liberdade religiosa ou… de vazio religioso.

Vale a pena lembrar que, na sequência da polémica das caricaturas de Maomé, protagonistas políticos europeus apressaram-se a deitar água na fervura para acalmar o “mundo” islâmico, mas não se atreveram a exigir a reciprocidade na tolerância e no tratamento das minorias religiosas nos países islâmicos. Esta atitude não ajuda os muitos pensadores e intelectuais do Islão que, com coragem, introduzem a religião na secularidade, questionando práticas, repensando caminhos, redefinindo estruturas, canalizando a “razão” para o difícil domínio do religioso, auxiliando a convivência. A necessária crítica a uma certa modernidade ocidental não pode ser feita à custa do humanismo e a passividade ocidental é inquietante.

Na Europa, os muçulmanos estão entre a espada e a parede, ou seja, entre um indisfarçado preconceito nas ruas e o radicalismo contagioso que persiste em comunidades perigosamente impenetráveis. Por um lado são pressionados a revelar lealdade para com a cultura ocidental, provando que a religião islâmica é pacífica. Por outro, são vítimas da incompreensão e dos estereótipos que alimentam os radicais de uma tradição bélica e hegemónica.

A conversão de Abel Xavier é um feliz sinal da liberdade religiosa. Na fugacidade do tempo mediático, o episódio passa como mais uma excentricidade da figura. Podia ser uma oportunidade para o debate, mas não há Caim para este Abel...

                    

Joaquim Franco

Publicado na SIC on line

Publicado por Re-ligare às 00:28
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