Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2010

Fantasmas, violência e aves de rapina

 

O que é feito da Res Publica?

10 milhões de euros por cem anos da República Portuguesa. O tema estuda-se nas escolas e, por isso, talvez os mais novos alunos deste país tivessem achado oportuna a recente encenação da sua primeira implantação, no Porto. Como o proferiram perante as câmaras de televisão, a teatralização levá-los-ia a conhecer melhor os factos e a ter, possivelmente, melhor nota num próximo teste sobre a História Nacional.

Mas será de facto necessário comemorar os cem anos da Republica com um orçamento de 10 milhões de euros? E o que é que comemoramos? O que tem a Republica Portuguesa para recordar e ensinar, se nada do seu programa estiver implicado, desde a sua implantação, em Portugal, na defesa de direitos e obrigações, anteriores e posteriores a qualquer ideologia ou sistema político? E o que dizer dos “Fantasmas da República”, daqueles em relação aos quais a República se pensou, se criou e se opôs num combate feroz? O que haverá a celebrar, num país cada vez mais empobrecido, com uma taxa de desemprego de 10.3% e um défice de 9.3%? Para que servirão 10 milhões de euros senão para pagar as deslocações da máquina do Estado, as intervenções escritas ou orais, e os extras de um conjunto de entendidos numa determinada versão da história, mas sem que esta tenha qualquer tipo de interesse público e do público? Quem dos 10 milhões de portugueses se identifica com apelos claros à República? E quem estará interessado em abordá-la, mobilizando-se numa resposta às recentes palavras do Chefe de Estado, se esta não fizer justiça sobre a Res Publica, ou o Bem Comum, num trabalho ininterrupto, que não se renda aos impossíveis, tornando a RES direito e obrigação de todos, sem distinção?

Neste sentido, e dada a conjuntura actual, não deixa de ser chocante que se esbanjem as contribuições dos portugueses nos cem anos da República e se dedique tão pouco ou nada ao Ano Europeu do Combate à Pobreza e Exclusão Social (2010) apenas uns míseros 700 mil euros, que nem sequer servirão para sensibilizar os que, como público e decisores políticos, apostam, como estratégia, num maior policiamento e no vergar violento da liberdade dos cidadãos, todas as vezes que se discute o crime, a imigração e a situação de mais de 2 milhões de pobres.

 

A estátua de Afonso Augusto da Costa (1871-1937) - político republicano e estadista português, um dos principais obreiros da implantação da República em Portugal - está agora sossegada à entrada de Seia, cidade de onde era. Mas dias após a sua inauguração, os contentores camarários do lixo, que os jovens da terra lhe colocavam, todas as noites, pela cabeça abaixo, tornaram-se um protesto constante, como constantes eram as detenções operadas pela GNR, em nome de uma determinada ordem social. Até que também ele caiu no esquecimento e os jovens se tornaram adultos, desprovidos de um tempo, o da Res Publica, feitos reféns de uma vida a que se viram gradualmente obrigados, e que nada mais permite senão zelar pela própria sobrevivência.

 

Violência doméstica: um grave e complexo resíduo do modernismo

No Hospital Distrital da Figueira da Foz conheci uma mulher baleada por um homem. À saída de sua casa, bem cedo de manhã, aquele que dias antes lhe tinha batido surpreende-a com uma arma para lhe dizer que a sua rejeição não era a opção mais correcta. Sem se deixar intimidar, a senhora ignora a ameaça e prossegue o seu caminho. Ouve um primeiro disparo, seco, e depois um segundo, mas este, ao contrário do primeiro, parecia-lhe ter entrado e serpenteado no corpo.

A bala permanece hoje alojada a 3 milímetros do seu coração, e é provável que assim tenha que ficar. Retirá-la revela-se neste momento um risco bem maior do que deixar que o corpo a torne, com o tempo, menos alheia ao seu funcionamento.

Este dramático e perturbador episódio fez-me lembrar um idioma africano, do qual já não recordo o nome, e no qual não encontramos o verbo “ter”. Ter, para aqueles que o utilizam, diz-se “ser com”, e este, ao contrário do que se entende por “ter” em infinitas linguagens e idiomas, não significa, na prática, possessão, perda de individualidade e liberdade, mas reconhecimento da singularidade do outro, relação e inter-dependência. O que se passou na Figueira da Foz e vai sendo, infelizmente, cada vez mais notícia nos meios de comunicação social, é que ao contrario do “ser com”, o “ter” que nos dão a beber em casa e dentro do qual crescemos, doentiamente inseguros e carentes, torna-nos birrentos possuidores, com sérias dificuldades em sabermos devidamente lidar com os nãos que se recebem ou a rejeição. A violência doméstica não é simplesmente um mero e desconcertante drama na vida de quem resiste à sua espancada escravatura, mas um grave, profundo e transversal resíduo do modernismo, do qual a educação e a vida actual, no seu todo, ainda não conseguiu libertar-se, por continuar a ser totalitária e uniformizante, ainda que defenda lucidamente o contrário.

 

Aves de rapina: no rescaldo do terramoto no Haiti

Devassado pelo terramoto, os textos sobre o Haiti tornaram-se imparáveis e incontáveis, mas não há dúvida que será sempre maior o silêncio de quem acreditou vencer a morte, debaixo dos escombros, e de quem lhe escapou ileso, sem um único arranhão no corpo, ainda que esta os tenha deixado sem família, amigos, haveres, casa. Diante de um “porquê” com poucas respostas, o planeta mobilizou-se, uma vez mais, à imagem daquelas que foram as operações que responderam à desolação causada pelo tsunami de 26 de Dezembro de 2006. Neste palco, feito uma vez mais de ruína, caos e morte, são sempre diversos os actores e as representações. A generosidade chega genuinamente à exaustão, mas nem sempre o que se recolhe e oferece chega ao destino. Muito se perde entre tantos mediadores, havendo mesmo quem no terreno (conforme o revelaram imagens que nos chegaram através das redes sociais) faça pose para a fotografia, empunhando como troféus, de sorriso aberto e feliz, não a cabeça de uma qualquer anaconda, mas a desgraça dos haitianos. Os 150 médicos de Porto Rico, como outros, enviados para ao Haiti, poderão ser grandes profissionais, mas as garrafas de whisky, o amputar de pernas e o desrespeito generalizado por quem morreu ou ficou sem nada, são o resultado que geralmente obtemos quando as escolas do mundo se rendem às tecnologias como fim em si mesmas, sem ética ou códigos deontológicos. Por isso, não tenho a menor dúvida que a desgraça dos haitianos será, uma vez mais, fonte de riqueza e de prestígio hipócrita para milhares de aves de rapina, e para tantas hienas e abutres do nosso tempo.


Henrique Pinto

Presidente da CAIS

Professor em Ciência das Religiões

Publicado por Re-ligare às 23:59
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