Sexta-feira, 5 de Março de 2010

Bate Papo sobre Religião

Na verdade, esse negócio de dicionarizar religião não combina muito com transcendência, imanência, espiritualidade, humanidade e culturas afins. 
Já está explicito historicamente que definir conceitos de religião não constitui-se tarefa fácil, mas tentarei bater um papo sobre nossa visão de religião.
Vale lembrar que os conceitos de religião que nós temos são extremamente limitados e, por sua vez, eurocêntricos e ocidentalizados.
 É sabido que não existe um determinado conceito de religião na ótica oriental, até porque a diversidade cultural e religiosa dos orientais ultrapassa os conceitos prontos e sistemáticos da visão restrita do Ocidente.
Sempre encarei simpaticamente as criticas de Freud, Marx, Feuerbach, Nietzshe, Tillich, Sartre, Comte e, meio que cismado, a definição de James acerca da religião. Já Alves e Boff, fizeram-me rir com bastante sabedoria.
Tornar-se-ia cansativo abordar a visão de religião desses pensadores, até porque cada contexto remete-se ao universo monoteísta e unicamente Ocidental.
Sempre tive curiosidade de conhecer o panteão hinduísta; as palavras de sabedoria de Buda e Confúcio; a natureza espiritual e religiosa dos monges tibetanos; as chamadas pelo mundo Ocidental, de seitas orientais; enfim, poder escapar por alguns momentos dos ares monoteístas e ocidentalizado.
Acredito que as religiões trazem em seu arcabouço ideológico, inúmeros contrastes, os quais nos fazem lembrar a célebre frase antialcoolismo: “beba com moderação”.
De fato, as religiões tanto podem libertar quanto alienar; oprimir ou quebrar as amarras; educar ou manipular; curar ou fazer adoecer; legitimar ou abrir horizontes; matar ou trazer vida; avançar ou retroceder culturalmente; ser um local de ludicidade ou moral extremista.
As religiões ainda podem ser tanto prisioneiras dos deuses e deusas quanto lugar de novos horizontes de adoração; fundamentalista ou pluralista; segregacionista ou lugar da diversidade; excludente ou acolhedora; local de alegrias ou tristezas; subterfúgio ou obsessão compulsiva; lugar do oprimido ou do opressor; retrógada ou moderna.
Ainda encontro contrastes sem precedentes, tais como, ideologia imposta ou aceita de bom grado; única fonte de verdade ou uma das fontes; religiões milenares, domésticas, primitivas ou institucionalizadas, dogmáticas, mantenedoras dos status quo.
Acredito que todas as religiões são multifacetadas, fragmentadas internamente; é isto que faz com que as religiões ainda sobrevivem ao tempo.
Todos que ousaram profetizar sobre o fim da religião, diga-se de passagem, Ocidental e monoteísta, não obtiveram êxito, pois esqueceram que a religião tanto liberta quanto oprime o individuo.
É dentro dessa realidade paradoxal que as religiões encontram espaço na historiografia dos humanos.
Compreendo que as religiões tentam enclausurar a espiritualidade humana. Vale ressaltar que espiritualidade é uma coisa completamente diferente da religiosidade, mas isso é assunto para outra reflexão.
Ainda voltando aos contrastes existentes nas religiões. Continuo batendo esse papo dizendo que a religião tanto pode narcotizar quanto energizar; ser terrena ou celestial, paradisíaca; violenta ou promotora da paz; pode ser também homofóbica, machista ou lugar da diversidade; cultura ou estagnação.
Pode ser realidade de amor ou ódio; salvação ou condenação; céu ou inferno, desculpe-me a ocidentalização; fanática ou inteligente; espiritual ou religiosa; incutida ou abraçada livremente; esclarecedora ou ofuscante; maquiavélica ou inocente; Oriental ou Ocidental; quem sairá ganhando?
O intuito desse bate papo nessa roda de amigos não é definir, conceitualizar, sistematizar, plastificar e, nem tampouco, ocidentalizar, europeizar ou americanizar nossos horizontes acerca das religiões, mas tentar enxergar um pouco além dos guetos teológicos impostos. Lembre-se, “beba a religião com moderação”.
A minha pequena massa cefálica idealiza a religião como sendo um imenso mar azul a minha frente, às vezes tempestuoso, às vezes sereno; às vezes frio, às vezes quente; às vezes explorado, às vezes solitário. Em suma, um mar cheio de mistério, riquezas e profundezas nunca exploradas.
A cada dia descubro que nada sei de religião. A cada instante tento caminhar na sua praia da heterogeneidade e complexidades.
Até o presente momento, as águas apenas molharam os meus achatados pés espirituais; quem sabe um dia as águas desse mar hão de banhar-me por completo.

              
Adriano Trajano
Pastor da Igreja Batista em Chã Preta/AL

Aluno da Pós-Graduação, com acesso ao Mestrado em Ciência das Religiões

Publicado por Re-ligare às 10:06
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