Sexta-feira, 5 de Janeiro de 2007

Al Hajj: a peregrinação a Meca

Segundo o quinto (de cinco) Pilares do Islão, a peregrinação a Meca é obrigatória para todo o muçulmano que tenha meios e saúde para a realizar. Esta peregrinação deve ocorrer, pelo menos, uma vez na vida de cada indivíduo.

Historicamente, as tradições em torno da Caaba devem remontar à propria família do Profeta. Os coraixitas, a tribo a que pertencia Muhâmade prestava uma reverência especial a al Uzza, a deusa do planeta Vénus. Ela era uma das divindades mais proeminentes associadas com a Caaba, que era já, e desde muito recuadamente, um grande centro de peregrinações.

A Caaba era uma estrutura em forma de cubo, sem ornamentação exterior, onde estava integrada, num dos cantos, uma Pedra Negra, de grande valor sagrado. Nela se encontravam imagens de muitas divindades, embora não houvesse nenhuma do Deus supremo.

Todos os anos se proclamavam tréguas de quatro meses que permitiam a vinda de devotos das tribos circundantes. Os ritos implicavam circular em torno da Caaba e entrar numa corrida sagrada entre dois montes vizinhos à cidade. Estes elementos passaram, posteriormente, para o Islamismo, depois de Muhâmade ter estabelecido o monoteísmo.

Só aos seguidores do Profeta é permitido entrar dentro do recinto de Meca onde se encontra a Caaba e a fonte Zemzem.

Apenas em estado de pureza se podem fazer os ritos necessários para que a peregrinação a Meca seja cumprida. Sem enfeites, sem nada que os distinga socialmente, os peregrinos, muitas vezes em números na ordem das largas centenas de milhar em escassos dias, percorrem os espaços sagrados de Meca onde todos são absolutamente iguais.

O centro do mundo muçulmano é a Caaba, à letra «construção quadrada», tem cerca de 12 por 10 metros, e 15 de altura. Está coberta por um grande brocado preto; a porta está coberta por um pano, uma cortina, com inscrições sagradas. Os quatro cantos desta construção em mármore estão perfeitamente orientados em relação aos pontos cardiais.

A pedra que está incrustada num dos cantos, depois purificada por Maomé em nome de Deus, é o centro da Hajj, a peregrinação obrigatória a Meca, que deve ser contornada sete vezes.

Geologicamente, tudo leva a crer que se deve tratar de um pedaço de um meteorito, o que está de acordo com a tradição que diz que ela veio do céu. Segundo essa tradição árabe, ela teria caído no Jardim do Paraíso, oferecida por Deus a Adão, para absorver todos os pecados da Humanidade. Originalmente branca, tornara-se negra com a vastidão dos pecados absorvidos.

Posteriormente, foi dada pelo anjo S. Gabriel a Abraão. Este, fez a Casa, a Caaba, e criou os primeiros rituais, entre eles a peregrinação (Corão, sura XXII, 27-30):

[Lembra-te] que indicámos a Abraão o local da Casa [Santa] dizendo-lhe: «Na tua adoração conserva pura a Minha Casa para os que dão as voltas, para os que se levantam para orar, para os que se inclinam e para os que adoram.

Anuncia aos homens a Peregrinação. Que venham ao teu encontro, a pé ou em camelos de carreira rápida, vindos de todas as terras afastadas.

[…] Para que acabem as com as negligencias dos seus corpos. Depois, que cumpram os votos feitos e que façam as voltas em redor da Casa Antiga».

Para além destas influências locais, desde o séc. VI a.C. que existiam colónias judias a norte; colónias estas que irão influenciar em muito o nascimento de uma religião monoteísta na região. Mais, a partir do séc. IV a.C. passou a haver também uma grande comunidade judaica no Iémen, a sul.

Os cristãos eram activos em Meca, e quer a Igreja Monofisita quer a Igreja Nestoriana tinham um relativo sucesso na evangelização dos povos no norte da Arábia. Contudo, os cristãos árabes monofisitas eram muitas vezes perseguidos em nome da ortodoxia cristã. Quer pelas perseguições de que eram alvo, quer pela proximidade teológica, os monofisitas abraçaram posteriormente o Islamismo.

Neste contexto cultural, económico e religioso, terá nascido o Profeta por volta de 570 d.C. - a tradição islâmica aponta a data de 20 de Abril de 571 como a efectiva data de nascimento.

A centralidade de Meca para o Islão é incomparável e pode sistematizar-se em vários tópicos: foi aí que nasceu o Profeta; foi ai que começaram as revelações; foi daí que teve de fugir para Medina, iniciando a hégira; foi a ai que regressou e estabeleceu os ritos principais do Islão. Esta centralidade reflecte-se no facto de por um curto espaço de tempo a orientação da oração não foi Meca, mas sim Jerusalém. De resto, todo o actual Islão se vira cinco vezes ao dia na sua direcção para dirigir a sua voz a Deus.

De Meca o Profeta teve de fugir, iniciando assim a chamada era muçulmana, por onde se inicia a contagem do calendário islâmico. De facto, os meios mais abastados de Meca não gostaram da mensagem que Maomé transmitia, uma mensagem que obrigava à dádiva, à compreensão pelo mais fraco, à prática da justiça.

Actualmente, mais de um milhão e duzentos mil peregrinos rumam todos os anos a Meca. Em meados dos anos sessenta, este valor ascendia apenas a noventa mil peregrinos, o que mostra o grande e rápido incremento desta viagem espiritual no mundo muçulmano.

Meca é uma cidade totalmente orientada para a peregrinação que, no seu auge, no mês do Ramadão, atinge valores nunca vistos em qualquer outro local sagrado do mundo.

As várias levas de obras, de ampliações, na Mesquita Al-Haram são imagem desse aumento de peregrinos, perfeitamente interpretado pelas autoridades da Arábia Saudita, na pessoa do «Guardião das Duas Mesquitas Sagradas», actualmente o Rei Fahd ibn Abdulaziz.

De facto, quer a Mesquita Al-Haram de Meca, quer a Mesquita do Profeta em Medina sofreram gigantescas obras de ampliação nas últimas décadas.

Em Meca, as obras tiveram início logo nas primeiras décadas do século XX. Em 1989 (era cristã, ou era vulgar) arrancaram as últimas construções. Actualmente, a mesquita tem três pisos, num total de área utilizável de 356.000 metros quadrados. A mesquita abriga um milhão de pessoas.

A mesquita ficou com nove minaretes, o maior número no Islão, e com uma área adjacente capaz de acolher mais de duzentos mil peregrinos ao mesmo tempo. Os espaços para abluções apresentam 1091 unidades para as lavagens rituais, e 162 bebedouros.

Paulo Mendes Pinto

Publicado por Re-ligare às 00:53
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