Terça-feira, 16 de Março de 2010

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Sem a gravidade dos séculos XV a XIX, o conturbado século XX enquadra o caso português. Não o justifica, mas dá-lhe o contexto para uma compreensão à luz da crítica histórica. Numa relação de interesse mútuo, o sistema político compreendia-se com a religião que lhe dava uma identidade e a religião reforçava o poder e a influência solidificando os ideais do sistema político, justificando-o.
O que se espera, admitindo que o jogo da liberdade e da democracia não está isento de falhas, é que os homens compreendam que a liberdade religiosa é um valor intrínseco à própria liberdade.

Em cíclicas visitas mediáticas, a Mesquita Central de Lisboa acentua a imagem de uma comunidade islâmica tolerante. Exemplar numa Europa amedrontada com a “islamização”.

Tendo-se tornado inevitável, o fenómeno islâmico europeu pode desencadear dois caminhos. A repulsa violenta, indesejável mas previsível. Ou a compreensão paciente, que levará a cedências de parte a parte. Neste caso, o trabalho inter-cultural, no percurso multicultural, implica riscos. Estarão os europeus disponíveis para os assumir? Há sinais de inegável esperança. Ganha consistência, apesar da resistência fundamentalista, o Islão moderado… europeizado. É um percurso lento, com avanços e recuos. Sujeito ao timbre político de cada estado europeu, onde atitudes menos reflectidas – como a proibição de minaretes – comprometem um trabalho delicado, de longo prazo. Tenha-se em atenção o exemplo português. A actual (con)vivência religiosa em Portugal tem mais do que uma explicação. Vale a pena salientar a sã convivência, o diálogo sem preconceitos – independentemente dos objectivos – entre os protagonistas religiosos. Por isso, foi possível ver o Dalai Lama em Fátima ou na Mesquita de Lisboa. Como foi possível ouvir o presidente da comunidade islâmica de Lisboa citar um texto hindu dos Vedas – “pássaros do mesmo ninho (…) podemos pertencer a diferentes culturas (…) mas partilhamos a mesma casa” – na comemoração oficial dos 25 anos da Mesquita Central de Lisboa, diante de uma plateia com ateus, agnósticos e crentes de várias religiões. O segredo passa pelas pessoas, pela disponibilidade que preenche a atitude. “Encosto não é encontro” e torna-se necessário manter o diálogo “para deixarmos de ser um povo de «uns e outros» e passarmos a ser «todos»”, disse Abdool Karim Vakil. O primeiro-ministro sustentou os pressupostos da liberdade religiosa e do estado laico, que não significa “sociedade laica”, acrescentando que, "se a política é do reino da contingência, a religião é do reino da permanência".

Do pragmatismo às utopias, entre o cepticismo e a esperança, o problema estará nos dogmas e nas fórmulas, nos métodos da hegemonia que fazem permanentes as contingências. De Aquino a Heidegger, Aristóteles a Kant... o Nada ou a Ética? Acima de tudo, a Ética!


Joaquim Franco
(publicado na SIC ONLINE)


Sugestões de leitura: Deus e a Fé, razões do crente e do não crente, J.I. González Faus e Ignacio Sotelo (Casa das Letras); Religião e Ofensa, as religiões e a liberdade de expressão, Revista de Ciência das Religiões (Edições Universitárias Lusófonas).

Publicado por Re-ligare às 16:44
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