Sábado, 24 de Abril de 2010

50 anos de Brasília: o sangue vermelho como alcatrão do branco pensado

Há histórias que não começam pela tradicional abertura: “Era uma vez, há muito, muito tempo…”. Não, e essas histórias não são de príncipes e de princesas, é claro. São de gente como nós que decide fazer histórias ou História. O Brasil tem uma dessas estranhas histórias.
Daqui a alguns séculos, alguns dirão: “Era uma vez, há muito, muito tempo quando um Presidente decidiu fazer uma capital nova”. Hoje fazemos aldeias olímpicas, fazemos bairros novos. Há exactamente 50 anos, o Brasil fez Brasília, bem no centro do país.
Muito me falaram do planalto, alto e seco, com a terra vermelha que tudo marcava, que em tudo se entranhava. Brasília é isso e muito mais. Estranhamente, muito mais.
Brasília é o Brasil a tentar fugir de si mesmo, lançando-se numa ilha que nada tem de si. Apenas a terra vermelha, qual imagem do homem que vai circulando pela cidade, qual estranho em casa. Dizem-me que agora a cidade está a ganhar uma identidade.
A cidade capital é exactamente a negação de tudo o que se pode apontar para o restante pais. Um pensador, Agostinho da Silva, parece ter dito que “o Brasil era Portugal à solta”. Brasília é o Brasil domesticado, regrado, ordenado através de uma arquitectura espantosa, mas também espantosamente semeada no terreno. Basta sair uns escassos quilómetros do Plano PIloto e tudo se foi. O Brasil mais comum regressou sem a arquitectura lisa e branca.
Para quem conhece o Brasil, a capital não é a reunião de toda nação, como o próprio nome tenta mostrar com um artificial genitivo de gosto latino. Em Brasília não há Brasil, há uma fuga a ele. Toda a informalidade do país é esquecida. Toda a capacidade de improvisação tenta ser negada. Toda a arquitectura procura ser fria e não quente. Todos os espaços são impessoais e não pessoais, naquele gosto latino tão típico de quem se fala sem nunca se ter visto.
Em Brasília não há acasos, há planeamento. Não há desordem, há ordem. Até talvez se tenha, por detrás de tanto planeamento, tentado esquecer o famoso “jeitinho Brasileiro”… mas isso ficou. Do Brasil, ficou em Brasília essa forma informal de resolver tudo.
A geometria dos espaços e a cor branca não fazem as almas. Podem iludir uma aparente limpeza. Mas as almas lá estão… quentes como a terra vermelha que sabemos estar debaixo do alcatrão das avenidas.

        

Paulo Mendes Pinto

(dir. da área de Ciência das Religiões)

 

Publicado por Re-ligare às 10:32
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