Terça-feira, 15 de Junho de 2010

Poética da Economia

 

…neste complexo ajuste de contas, surge como extremamente necessário evitar que, no arrastar da lixeira, se perca a humanidade que ainda nos vais distinguindo dos demais seres.

 

 

Num tempo extremamente difícil, não deixa de ser desconcertante que em nome das aparências, como revelou a DECO, milhares de portugueses prefiram poupar na comida e nos medicamentos do que nos telemóveis, na TV Cabo, na Internet e nos carros. Por vezes, diante da tão grande irresponsabilidade e insensatez, vai-se a vontade de fazer alguma coisa por quem tem falta de pão em casa, mas não abdica das mais luxuosas extravagâncias. Na verdade, não é fácil introduzir, neste contexto, aquela a que chamaria de poética da economia, quando justamente uma ala mais neoliberal se insurge contra a distribuição de riqueza por quem não a produz e não se adapta, nos seus modos de vida, a novas circunstâncias socioeconómicas, de forma mais consciente e ponderada. Se a exigência de uma mais justa distribuição da riqueza se coloca ao momento actual e futuro, como um caminho obrigatório, ela não conseguirá justificar-se e até vingar no tempo, se o remar de milhares de nós for na direcção da evasão, do parasitismo, do esbanjamento ou de uma vida acima das nossas possibilidades.

 

 

 

Dádiva

Ouso, mesmo assim, e ainda que saiba que a economia não se rege pela mais rigorosa justiça, honestidade e transparência, contrariar a convicção ou mesmo a prática de que ninguém dá nada a ninguém. O que tenho em mente reflectir e sugerir não é a veracidade do que podia ter aqui como exemplo, leve dois pague um ou o corte radical no preço dos produtos, em tempo de promoções ou de saldos –  até porque bem sabemos que tudo isto não é mais que uma mera estratégia de marketing, escoadora de bens, e muito pouco transparente. Tenciono, isso sim, referir que, ao contrário do que alguém poderia pensar, são infinitas as vezes em que a dádiva é alicerce da vida humana.

Sei que o acesso a bens e serviços se faz habitualmente pelo trabalho. Sem o valor que nos atribuem, por um serviço prestado, dificilmente conseguiríamos viver com alguma dignidade. O dinheiro tornou-se imprescindível, ao ponto da vida humana se sentir ameaçada sem ele.

Mas o que seria de cada vida que nasce se apenas se tornasse possível através do cálculo matemático, insensível e frio da economia de mercado? O que seria de nós, humanos, se a economia perdesse de vista a dimensão da dádiva? Não é pela dádiva que a economia se humaniza? Não é pela dádiva que o ser humano é princípio e fim do seu agir? E não será a dádiva o que hoje carece grandemente nos mercados económicos, ainda que fora deles, em economias familiares ou de grupo, as pessoas se ofereçam dádivas, sem nada cobrar, sem condições, que não seja continuar a viver na interdependência, ou seja, na reciprocidade?

 

 

Perdão

Sei que será pura loucura, propor o perdão como forma de resolver a crise económico-financeira mundial. A ideia não é nova. Na verdade, ela já foi diversas vezes sugerida por manifestantes, nas cimeiras dos países mais ricos do mundo, com o objectivo de ajudar a resolver a situação de países extremamente pobres. Mas as regras que presidem ao neoliberalismo acabam sempre por se impor também na economia, talvez por não se conseguirem fazer devidamente as contas ou por haver, entre os credores, demasiados perdedores, ou porque, simplesmente, o perdão não seria por nada pedagógico. Assim, aqui, quem deve, tem de pagar. Por isso, diante do incumprimento, fogem os investidores, sobe o preço do dinheiro; a uns é negado qualquer tipo de crédito, a outros os bens são penhorados ou simplesmente confiscados. Sobre o país, tratando-se de uma pesada dívida pública, cai o dever de um esforço fiscal maior. O défice, como já foi dito repetidamente, terá de ser pago por todos, e de acordo com as possibilidades de cada um.

Mas, e se pela loucura do perdão, os países, com todas a suas agências e instituições financeiras, decidissem perdoar-se o défice público? Não sou um economista, muito menos matemático, por isso, não coloco esta hipótese sentado sobre cálculos matemáticos precisos e seguros, que me permitissem também defendê-la. Mas representaria este perdão global um desastre económico-financeiro irremediável? E ainda que o fosse, o que diria de nós, humanos, o risco do perdão, como evento mundial? E ainda que não seja possível ou até não queiramos este perdão à escala planetária, o que seria de uma economia mais nacional, regional, a do nosso dia-a-dia, se lhe faltasse a dimensão do perdão? O que seria de nós, se não nos fosse dada diariamente a possibilidade de começarmos sem dívidas, sem ofensas?

Sempre tivemos consciência que aos avanços científico-tecnológicos nunca correspondeu o avanço humano. Na verdade, às mais altas tecnologias de hoje não corresponde um ser eticamente mais avançado ou evoluído. Haverá até quem defenda que o ser humano está em regressão. Por isso, quem sabe, por estas e outras razões, se uma experiência planetária do perdão, não constituísse, no desenrolar da história humana, esse momento de humanidade que os seres humanos ainda não conseguiram viver entre si.        

        

Sei que as dificuldades por que passamos nos levam frequentemente a trancar portas e janelas, e a vivermos barricados. Há muito que a guerra do salve-se quem puder começou. Creio até que nunca lhe conheceremos a origem. Lá fora, as leis apertam o cerco, numa caça impiedosa ao imigrante, pobre, desempregado, devedor, incumpridor.

Numa altura em que continuam a apurar-se responsabilidades e a fazer-se justiça, a dádiva e o perdão, como chaves importantes na resolução dos problemas, parecem ser economicamente impossíveis. Mas neste complexo ajuste de contas, surge como extremamente necessário evitar que, no arrastar da lixeira, se perca a humanidade que ainda nos vais distinguindo dos demais seres. 

               

Henrique Pinto

Presidente da CAIS

 

Publicado por Re-ligare às 12:40
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