Domingo, 20 de Junho de 2010

José Saramago

 

 

 

O dia de hoje vai ficar na História da Literatura Portuguesa e Lusófona. Faleceu aquele que é um dos maiores vultos da cultura da segunda metade do século XX. O autor de Memorial do Convento, ateu confesso, revolucionou o olhar critico sobre a religião e, na tradição de Garrett, Herculano e Eça, violentou fortemente todos os que gostariam que a religião passasse ao lado do olhar e da pena acutilante de quem se inquieta e quer respostas.

                                     

E foi pelo campo das respostas que com Saramago tudo se realizou. Simplesmente, Saramago fez o essencial e tão simples: se há respostas a serem procuradas, então deve-se começar com questões. E no questionar é que a religião se fere de morte.

                

Os questionamentos de Saramago foram ao âmago do sentir religioso. E nesse âmago encontra-se o que, para quem tem um olhar mais agudo, é o mais esquecido da religião: o Homem, os indivíduos na sua plena liberdade de opção e nos seus dramas pessoas, tantas vezes muito mais prementes que as formulações teológicas e os ditames organizadores das estruturas sociais.

                

Foi assim que lemos o seu In Nomine Dei, com uma profunda crítica ao tempo de guerra religiosa que invadiu a Europa Central depois da eclosão do Protestantiismo. Foi muito mais, ainda, o que lemos no seu consagrado Memorial do Convento. Nesse magnífico texto, encontramos, numa envolvência de crítica constante, de inquietação dolorosa, a parceria entre a estrutura religiosa e a pessoa no que de mais individual ela tem. Parceria essa reveladora de feridas insanáveis no Portugal de setecentos, de cortes profundos em que a Inquisição e a vida de corte são espelhos de uma sociedade desencontrada.

             

No Evangelho segundo Jesus Cristo, temos a máxima humanização possivel, que começa com a ideia de fuga da família de Jesus. Ao fugir, deixam para trás, sem aviso que possibilite semelhante sorte, todas as crianças que, assim, são sacrificadas moralmente por José. Que peso é este?

 

Há pouco tempo, com Caim, Saramago lançava-se na complexa arquitectura de lançar o Homem na busca do copnfronto comDeus. O seu percurso estava preenchido e definido. A sua "teologia" estava montada e explicada.

         

Como normalemnet se diz, morreu em paz. Na sua Paz. Uma paz que é inquieta. Inquietude.

        

A nós, fica a leitura, para que aprendamos a conhecer o que é ser inquieto.

           

Paulo Mendes Pinto

 

 

Publicado por Re-ligare às 15:01
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