Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010

Nas mãos do Senhor, aliás, de Terry Jones

Há vários dias que pretendo escrever um texto sobre este tema. Contudo, o pastor evangélico Terry Jones deixou-me sem palavras. E a minha estupefacção não se deve à sua argumentação, à forma ou ao conteúdo do que disse. Não. Tudo se resume, neste meu enrodilhar de escrita, ao espanto e à posterior incapacidade de recuperar desta visão dantesca de ver o mundo suspenso pela boca e pela vontade de um pastor de umas 50 ovelhas.

            

Muito se poderia discorrer sobre a dimensão de "cristianismo" encerrada nas ameaças e no plano ridículo de queimar o Alcorão. Apenas na mentalidade inquisitorial de um catolicismo que os evangélicos tanto acusam eu poderia ver paralelos com a mesma dimensão de arrogância e de incapacidade de pensamento. Portanto, não vou por ai, desejava que fossem os evangélicos a fazer algum distanciamento.... não o fizeram. Não terá sido por concordarem com este nefasto plano, mas sim por falta de estratégia de comunicação.

            

Mas o que mais me corrói neste vil acontecimento, encontra-se, sem dúvida, no que ele demonstrou da nossa fragilidade. De repente, com uma visibilidade louca, uma atitude irracional de um único ser, seguido por muito poucos, pode por em risco toda uma política global de procura de paz e, mesmo, ameaçar as vidas de milhares de pessoas em represálias inevitáveis.

              

Na sua narrativa, a justificação estava muito além das razões terrenas dos seus oponentes. Era Deus, o Senhor, que lhe mostrava esse caminho como o mais correcto. "Queima 200 Alcorões!", deverá ter-lhe dito Javé em hierofania pessoal, elegendo-o como Profeta de uma nova Guerra Santa contra o Islão.

             

Sempre que esta expressão foi usada, muita gente morreu. Enquanto civilização, temos esse péssimo hábito de matar em nome de Deus.

         

Se queremos ser, civilizacional e culturalmente, uma imagem a ser seguida. Sim, se queremos ser aqueles que podem fazer pressão para que uma mulher, por exemplo, não morra por lapidação, então não desçamos ao mesmo nível de reacção primária, sob o risco de "lhes" darmos razão.

            

O preço poderá ser pesadíssimo, e o sangue ficará nas nossas mãos.

            

Paulo Mendes Pinto

(dir. da Lic. e do Mestrado em Ciência das Religiões)

 

 

 

Publicado por Re-ligare às 02:45
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