Sexta-feira, 17 de Setembro de 2010

até onde vamos?

Acaba de ser aprovada em França, votada pelo senado com uma maioria esmagadora de votos favoráveis, a lei que proibe o uso do niqab e da burca em público.

Outros paises deverão seguir brevemente esta legislação que em França deve afectar directamente cerca de 1.900 mulheres. Apresentada por uma mulher, a ministra da Justiça, Michèle Alliot-Marie, que apresentou o projecto de lei, afirmando, “O véu integral dissolve a identidade de uma pessoa na de uma comunidade. Põe em causa o modelo de integração francês, fundado nos valores da nossa sociedade”.

Ainda bem no meio da turbulência gerada pelas "deportações" de ciganos, a França dá-nos agora mais uma polémica matéria de reflexão em termos de cidadania, de igualdade e de direitos fundamentais.

"Até onde vamos?" pode ser a questão directora que nos leva a dois lados radicalmente opostos de barricadas que interessa conhecer.

Por um lado, está a Europa a seguir caminhos que nos lembram tempos próximos da II Guerra Mundial, acções de discriminação que podem criar um generalizado ódio que não se consegue imaginar onde nos pode levar?

Mas, por outro lado, a questão pode remeter-nos para o campo da identidade, não propriamente para aquilo que comummente se chama de "valores", mas sim para o que queremos preservar como legado de civilização. Falamos, quer da Liberdade e da Igualdade, quer da segurança. De facto, por exemplo, depois de todas as lutas que conduziram as mulheres a uma situação cada vez mais igual aos homens, permitir que algumas delas, em nome de uma cultura, se remetam para uma total anulação pública da sua identidade, para uma aniquilação da sua exposição, leva-nos a supor que todas essas lutas foram vãs e em muito pouco se terão cimentado como um património de que não queremos abdicar.

E é aqui que reside o centro do problema. Sem negar a tolerância e o respeito devido a cada indivíduo e a cada grupo, mas afirmando o cumprimento do que achamos ser a nossa base civilizacional inquestionável, até onde se pode contemporizar e ceder. No fundo, interessa equacionar qual o "ponto de não retorno" de uma alteração cultural, onde uma sociedade deixa de ser aquilo em que acredita, perante que aspectos e que práticas se pode afirmar a intransigência social?

O debate deve estar aqui. E, nesse debate, construtivamente, verificar o "máximo denominador comum". Aí, entre o que se deve respeitar e aceitar, e o que não destrói uma herança filosófica e cultural de séculos, estará o ponto do que julgo ser um possível diálogo entre muçulmanos e não muçulmanos na Europa.

Uma Europa que já não é Cristã. Uma Europa que não acredito venha a ser Islâmica. Uma Europa que é o espaço dos Cidadãos.

          

Paulo Mendes Pinto

Dir. da Lic. e do Mestrado em Ciência das Religiões

Publicado por Re-ligare às 01:09
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