Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010

À procura da confiança

O papa Ratzinger tem um programa pessoal que apresentou logo no arranque do pontificado e definiu metodicamente uma agenda para a visita ao Reino Unido. Na chegada à Escócia introduziu a "secularização agressiva" e o "ateísmo extremista". Palavras corajosas, há que reconhecer, quando proferidas num baluarte multicultural, onde estavam anunciadas manifestações contra a visita e a Igreja Católica.

           

Na agenda estava também o ecumenismo e o diálogo inter-religioso. Há matéria disciplinar e histórica que distingue e separa as duas igrejas – a Anglicana, da Católica romana.

A tradição religiosa no Reino Unido, embora cristã, é organicamente diferente e a secularização desencadeou na Igreja Anglicana processos de reforma que estão ainda a ser digeridos – a descentralização democrática, a ordenação de mulheres e de homossexuais.

Mas o papa e o primaz da comunhão anglicana quiseram mostrar que, na demanda pela manutenção da religião no quotidiano da sociedade, particularmente a tradição cristã, há dimensões comuns e essenciais que são mais importantes.

No encontro com representantes de outras religiões, o papa referiu a urgência da liberdade religiosa, inexistente em vários ponto do globo – sobretudo países de cultura islâmica, entenda-se –, e defendeu que as religiões não sustentam a violência, apelando à sã convivência, com conhecimento e compreensão: “A busca do sagrado não exclui outros campos do conhecimento”.

Várias vezes nesta visita, Bento XVI referiu-se ao debate inacabado entre a fé e a razão inteligente, a culminar com a beatificação do cardeal Newman, pensador e padre anglicano que se converteu em catolicismo no século XIX.

Na visita a um lar de terceira idade, o papa reafirmou a posição da Igreja sobre a eutanásia e a defesa da vida. Aos jovens pediu que procurassem tempo para o silêncio. Num encontro com milhares de alunos de escolas católicas disse que a educação não pode ter apenas propósitos “utilitários”, mas também de ética e moral, sem excluir a dimensão religiosa do ser humano.

O que Bento XVI não calcularia no início do pontificado era que teria de acrescentar mais um ponto na agenda pessoal: o escândalo de pedofilia.
O tema esteve presente em toda a vista. Quando respondeu aos jornalistas, em homilias e discursos.

Enquanto houver um caso, uma suspeita apenas, o drama dos abusos sexuais de menores por membros do clero terá a consequente ampliação mediática com nefastos efeitos na opinião pública.

Dado o contexto do país que visitava, na sequência da avalanche provocada pelos casos tornados públicos na Irlanda, nos EUA, na Alemanha, e recentemente na Bélgica, Bento XVI enfrentou o problema de frente. Começara a fazê-lo em Lisboa depois de uma carta enviada ao episcopado irlandês. Pediu perdão em Junho, no final do Ano Sacerdotal. No Reino Unido conjugou expressões invulgares como “humilhação”, “vergonha”, “castigo”, “penitência”, “crime hediondo”.

Colocou o tom maior das palavras na necessidade de apoiar as vítimas e recuperar a confiança. Em Londres, encontrou-se pela quinta vez com vítimas de padres pedófilos, enquanto nas ruas milhares de pessoas desfilavam contra o papa e a Igreja Católica. Uma marcha inédita, pela dimensão, durante uma visita papal. Tão inédita quanto paradoxal.

As imagens das agências internacionais mostraram manifestações de protesto que ultrapassaram o bom senso, com uma conjugação de motivações que vão da defesa dos direitos da mulher ao escândalo de pedofilia, passando pela ofensa, pura e simples. Nas ruas de Londres, a liberdade de expressão não teve limites para o ridículo.

O multiplicar de palavras e gestos do papa por causa do escândalo de pedofilia revela um pontificado encurralado. A disponibilidade para colaborar com as autoridades civis ou a denúncia à justiça civil de eventuais casos que permaneçam no segredo da confissão e nas gavetas da Doutrina da Fé, podem não ser suficientes. A credibilidade institucional está ferida na voraz exigência mediática.

O pedido público de perdão não satisfez grande parte da opinião pública ouvida pelos media. Mais do que palavras, pedem-se acções e transparência para fazer justiça, rapidez e coragem na resposta a novos casos. Sob risco de, no ad aeternum mediático, vencer a infidelidade e o “pecado”.

        

Joaquim Franco

Texto publicado na SIC Online

Publicado por Re-ligare às 12:06
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