Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

A profundidade dos sexos

 

1.Fabrice Hadjadj, de nacionalidade francesa, foi apresentado por Alain Finkielkraut como “árabe de nome, judeu de nascimento, católico de baptismo…”  Nasceu em 1971, converteu-se ao catolicismo aos 23 anos e foi baptizado na Abadia beneditina de Solesmes, aos vinte e seis. É casado, pai de cinco filhas, dramaturgo, ensaísta, professor de literatura e de filosofia, autor de uma obra com vários títulos premiados.

As Ordens Religiosas tornaram-se o seu clima espiritual. Assim se apresentou numa conferência aos franciscanos: “considero-me da família beneditina – sou oblato de Solesmes – assumi a tradição teológica tomista e, nesse sentido, situo-me do lado dos dominicanos. No entanto, nem a figura de S. Bento nem a de S. Domingos me marcaram tanto como a de S. Francisco de Assis que tem sempre uma irradiação para além da sua Ordem”.

Ao falar, aqui, da conversão de Fabrice Hadjadj, no passado mês de Junho, na crónica “O demónio não é ateu”, lamentei que este autor continuasse ignorado das nossas livrarias e editoras religiosas. Não sabia, de facto, que a Paulinas Editora estava a preparar a publicação de uma das suas obras mais significativas: A profundidade dos sexos. Para uma mística da carne.

Na sua cuidada apresentação, no Centro Nacional de Cultura, o Dr. Guilherme d’Oliveira Martins insistiu: “leiam este livro, mas leiam-no do começo até ao fim, não folheando e lendo, aqui ou ali, algumas passagens”.

Dada a natureza da sua escrita, das suas referências e alusões, uma leitura fragmentada só pode levar a repetidos contra-sensos ou a não perceber a sua grande e provocadora originalidade perante uma aberração comum: “qualifica-se sempre de tabu aquilo de que se tagarela sem restrições, remete-se para o inconsciente o que se divulga nos quiosques”.

 

2. As confusões e lugares comuns não criticados, em torno da chamada moral sexual da Igreja, não levam o autor a tentar corrigi-la ou substituí-la. Procurou, antes, as raízes das distorções históricas e actuais que impedem urgentes destrinças: “Ter-nos-emos, porventura, enganado relativamente às intenções da Igreja? Seria espantoso, mas, no fim de contas, plausível. Desde há muito grassa o mexerico de que o pecado original coincidiria com a união sexual de Adão e Eva; na realidade, porém, a Igreja sempre ensinou que ele provém do orgulho puro e simples: se tal falta não tivesse ocorrido, diz Tomás de Aquino, o acto carnal teria sido uma oração insondável e o esperma adâmico tão puro como a água do baptismo... Que receamos nós para, com tanta obstinação, distorcermos o catecismo (falo também dos «bons católicos»)? Aí reside, porventura, a verdadeira moral que escarnece da moral, que não consiste em regras de ferro, mas em «concupiscência e graça» (Pascal). Aí habita a mística da carne que denuncia o pecado, só para melhor a exaltar em glória”.

Distingue a “mística da carne” da moral sexual, pois tudo o que se escreveu, até agora, nesse capítulo, parece-lhe insuficiente. A sua mística da carne será, apesar de tudo, uma moral, mas uma moral trocista, zombadora, numa palavra, dramática. Começa por evocar Nietzsche em Além do Bem e do Mal: “A forma e o grau de sexualidade de um homem impregnam-no até aos cumes do espírito”, acrescentando a sentença de Gustave Thibon: “A forma e o grau de espiritualidade de um homem impregnam-no até às profundezas do sexo”. Explica: o meu objectivo situar-se-á entre estas duas máximas. Os sexos hão-de surgir mais espirituais e mais carnais do que as muitas palavras que os discutem. Os sexos são uma realidade carnal: há masculino e feminino. Logo que se diz sexo, fica-se preso no domínio do conceito. É uma generalização abusiva de práticas mais cerebrais do que sexuais, colocando à distância o corpo, uma desincarnação típica da modernidade.

 

3. O combate de Fabrice Hadjadj é contra o chamado neo-gnosticismo. Os antigos gnósticos, sob máscaras diversas, apoiavam-se num mesmo princípio: o mundo material é obra de um demiurgo mau. Por ódio ao Deus verdadeiro, o demiurgo enclausurou, traiçoeiramente, a centelha dos nossos espíritos na lama sepulcral do corpo. É necessário, pois, votar este último ou à mais relaxada libertinagem ou à mais dura mortificação. O deboche e a castração promanam da mesma fonte: a carne não pode ser o templo do espírito, mas uma massa amorfa ou insalubre. A geração era o pecado mais mortal, de egoísmo sádico, pior do que um assassínio, porque este, ao menos, corta as amarras que nos prendem à lama.

Nada parece ser mais contrário à fé na Criação, na Incarnação e na Ressurreição da carne. No entanto, nos primeiros séculos da nossa era, a doutrina dos gnósticos teve um espantoso desenvolvimento. Para eles, Cristo não podia nascer das entranhas de uma mulher, não podia conhecer o sofrimento e enganou o demiurgo ao simular a sua morte na cruz.

A salvação das almas tornava-se, assim, a perdição dos corpos. Razão tinha Tomás de Aquino para, diante desta pseudo-salvação, exclamar: “A minha alma não sou eu!”

Os sexos, relativos entre si, na sua profundidade, podem viver, na carne cheia de espírito e no espírito incarnado, a resistência a todas as tentativas técnicas ou pseudo-espirituais do pós-humano.

          

Frei Bento Domingues, o.p.

Público, 19. Setembro. 2010

Publicado por Re-ligare às 12:09
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