Sábado, 6 de Novembro de 2010

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Todas as sociedades são compostas por elementos em equilíbrio. Mais ou menos estáveis, esses equilíbrios funcionam como ecossistemas em que cada parte tem um lugar e uma função mais ou menos determinada. Com um lastro de identidades e com uma parcela regrada de liberdade, esses ecossistemas em que os humanos se gerem conseguem criar algum espaço para a evolução.

De facto, esse espaço de liberdade e de criatividade é, normalmente, definido em torno de objectivos. No caso das migrações, esses objectivos podem ser do foro profissional ou criados por motivos de sentimento de culpa e de espoliação. Escassa é a parte de uma colectividade humana que deseja, em si mesma, a miscigenação. Essa mistura, a multiculturalidade, aceita-se, regra geral, por moda, porque tal é politicamente correcto, ou porque ela é imposta por uma norma superior.

Apenas o passar dos anos consolida a relação e destrói a estranheza do confronto com o outro. Apenas políticas sólidas de integração conseguem ir contra essa reacção quase doentia que é a repulsa ao que é diferente.

Em Portugal, graças a dinâmicas de diversa ordem, em muito, devido a correctas políticas de integração, os imigrantes são geralmente bem aceites e não encontramos em território nacional focos de discriminação negativa. Antes pelo contrário, há hoje a noção exacta da parcela do PIB que é criado devido a essa gente que buscou em terras lusas melhores oportunidades.

A restante Europa, se bem que com orçamentos bem mais consolidados, não pode apresentar os resultados positivos de que nos devemos orgulhar. Quer a França, quer a Alemanha, seguindo a Suíça da famosa banca, parecem não ter conseguido fazer o seu “trabalho de casa” no que respeita à integração dos imigrantes.

Os caminhos que se parecem começar a trilhar são, não de complexidade alguma, mas da mais simples linearidade: onde iremos com as políticas que materializem as afirmações como as de Merkel, no passado dia 16?

Sim, a multiculturalidade alemã parece estar de muito má saúde. Mas, todo o discurso da Chanceler incendeia e dá foro de legitimidade às mais racistas posturas.  A Europa, começando pelas suas duas cabeças, parece não ter compreendido o quão necessita de imigrantes. Num quadro de quebra populacional, ou nos conformamos com o facto de muitas tarefas ficarem por realizar, de muitas empresas fecharem por falta de mão-de-obra, ou pegamos no problema e fazemos (mais vale tarde, que nunca) políticas que os integrem.

Talvez fosse interessante olhar para este endividado país e, por uma vez, imitar o que por cá se fez. Quem sabe se podemos trocar esse know how por umas décimas nos juros da dívida…

             

Paulo Mendes Pinto

Director da Lic. em Ciência das Religiões na Un. Lusófona.

(Público, Out. 2010)

Publicado por Re-ligare às 21:35
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