Domingo, 7 de Novembro de 2010

Ordens Religiosas em Portugal: para um pós-ressentimento

 

Se há temática que ao longo dos últimos três séculos inflamou discursos e, especialmente, incendiou cisões entre portugueses, foi a das Ordens Religiosas. Alvo de grande retórica, umas vezes, campo de profundas revoluções sociais, outras, o mundo das Ordens Religiosas não deixou indiferente o mundo da política que, desde o Século das Luzes, procurou alicerçar uma nova postura perante o progresso.

No século XVIII, com Pombal, elas sofrem, na pessoa dos Jesuítas, a expulsão. Mais tarde, na década de trinta do século XIX, elas são extintas e os seus bens confiscados. Regressadas, se bem que com grandes polémicas, com a República volta a proibição e a perseguição anti-clerical.

Entre episódios de tensão social e de lutas entre supostas ideias de progresso e de pretendida defesa de tradições, o catolicismo vai evoluindo e adaptando-se aos tempos que correm, assim como os meios políticos se vão metamorfoseando, percebendo que nem religião é apenas sinónimo de obscurantismo, nem o progresso é oposição a religião.

Felizmente, esta é a nossa fase, a nossa “Idade”. Hoje, no mundo pós-25 de Abril, conseguimos a primeira revolução com profunda mudança de regime em que não se criou uma “questão religiosa”. Ao contrário do que aconteceu com a Revolução Liberal e com a Revolução Republicana, de facto, desde 1974 que o mundo político tem sabido conviver com o da religião, criando-se espaços de diálogo e de encontro.

Cada vez mais, numa época em que os ressentimentos a que a História costuma dar pasto estão claramente ultrapassados, se percebe que, afinal, há um espaço social a que as Congregações Religiosas podem corresponder com funções importantes para a “coisa-pública”.

Nesta semana, decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian um importante Colóquio Internacional sobre as Ordens Religiosas em Portugal. Nem lauda, nem acusação. Simplesmente, conhecimento. Foi esse o tópico da organização, o repto que a ideia lançava, o alvo que os oradores atingiram.

Este encontro, organizado por várias instituições universitárias (CLEPUL, Centro de Literaturas e culturas lusófonas europeias da Universidade de Lisboa, em parceria com o Centro de História da Universidade de Lisboa, a Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal, o Centro de Estudos em Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, o Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes e a CompaRes, Associação Internacional de Estudos Ibero-Eslavos), reuniu historiadores, teólogos, membros de Ordens, e simples interessados pela temática, e foi a prova de que a nossa sociedade passou o limiar de uma porta a que não devemos querer voltar: a porta do ressentimento que resulta, sempre, na intolerância e na destruição de um dos contendentes.

Maduros no olhar sobre o que de bem e de mal ocorreu nos últimos anos, interessa, hoje, descortinar aquilo em que todos podem dar um contributo positivo para a sociedade. A organização deste congresso, especialmente o seu mentor, José Eduardo Franco, está de parabéns por nos mostrar que somos um pouco mais adultos.

                         

Paulo Mendes Pinto

Director da Licenciatura e do Mestrado em Ciência das Religiões da Un. Lusófona

Publicado por Re-ligare às 15:58
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