Terça-feira, 9 de Novembro de 2010

Que lugar para a Religião numa revisão curricular?

 

Sempre que se fala numa revisão curricular, inúmeras ansiedades saltam para o palco da reflexão. É natural colocar nesse acto recriador uma dor imensa de um parto que se julga sempre vir a resultar em milagre. Contudo, revisão após revisão, vamos desejando mais uma revisão, como se a espiral de revisitar e rever apenas nos criasse a vontade de nunca achar o processo digno desse nome.

Áreas de Projecto, Formação Cívica, para não falar na mais que célebre Educação Sexual, são campos de conteúdos de um mapa de sabes e de sabores que temos construído no nosso passado recente como o campo de conhecimentos e de preocupações que queremos deixar às nossas gerações mais novas.

Hoje em dia, e seguindo o que muitos paises europeus têm feito, o campo do chamado «Fenómeno Religioso» não pode ficar ao largo de uma reforma ou revisão curricular. Ultrapassada que está a época neo-positivista em que se achava que a Religião apenas importava aos religiosos, urge comprender melhor os movimentos e os fenómenos que, seja-se crente, ou não, afectam toda a sociedade.

Um dos desafios da actualidade é a participação política e a consciência cívica. Como podemos desejar que os futuros cidadãos sejam capazes da tomada de decisão se hoje apenas lhes facultamos, no campo das religiões, uma disciplina ainda muito próxima de uma catequese, num quadro puramente confessional?

Depois do grande crescimento dos grupos cristãos evangélicos nas décadas de oitenta e de noventa, depois da abertura da União Europeia ao mundo de leste ortodoxo, depois da chegada de largos grupos de praticantes de religiões afro-brasileiras, depois de se ter passado por uma fobia em torno do Islão, que esperamos para dar aos nossos jovens um mínimo conhecimento objectivo sobre o universo das religiões que participam da nossa sociedade?

Um conhecimento baseado na História e na Sociologia das Religiões, um conhecimento que respeite as religiões mas que, acima de tudo, respeite a cidadania. No ano em que se comemoram os 100 anos da República, este seria um passo de consolidação da Liberdade Religiosa, da laicidade do Estado e do respeito para com a nossa cultura, herança de pluralidades religiosas.

              

Paulo Mendes Pinto

Director da Licenciatura em Ciência das Religiões na Un. Lusófona

 

 

 

Publicado por Re-ligare às 09:59
Link do post | Comentar | Favorito
1 comentário:
De Inês Meneses a 11 de Novembro de 2010 às 11:49
Partilho muito destas preocupações. Tive oportunidade de pensar nisto agora, que tenho uma filha no 1º ano do ensino básico. Quando se discutiu o assunto, fez-me impressão a insistência de toda a gente em garantir-me que a disciplina não falava nada de religião, era só sobre valores e comportamento cívico. Além de isto me parecer vagamente ofensivo para as famílias, pareceu-me também falho perante os alunos. Há algo de muito errado na recusa da religião em ocupar-se de religião, na obsessão exclusiva com o controlo da pequena moral e dos comportamentos. Acabei por perceber que, se queremos que a criança oiça falar de religiões, nos seus temas e lógicas, teremos de ser nós a fazê-lo.

Comentar post

.Mais sobre Ciência das Religiões

.Pesquisar

.Posts recentes

. Ψυχή, Psychē e Fado

. A PRESENÇA AUSENTE (três)...

. A CULTURA QUE NOS REDEFIN...

. Música e Emoções - Romant...

. Biomusicologia – Definiçã...

. Natal, naTAO

. Encontro com Manuel Frias...

.Arquivos

.tags

. todas as tags

.Links

.Links

blogs SAPO

.subscrever feeds