Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2007

Banhos sagrados na Índia - II (Varanasi / Benares, onde a morte e a vida se cruzam)

Nas margens do Ganges, Varanasi é um dos locais de maiores peregrinações na História das Religiões da humanidade.

O principal santuário da cidade é o Templo de Vishvanatha, com cerca de mil anos, dedicado ao deus Shiva. A estrutura actual foi construída em 1777 e foi revestida com cerca de 750 kg de ouro.

Os locais sagrados mais importantes são, no entanto, os cais dedicados à cremação. Cidade com inúmeros cais, ghates, em forma de escadaria que acompanham toda a descida do rio.

O Dasashvamedha-Ghat, o ghat central, recebeu este nome das dez imolações de cavalos que Brahma, o Criador, realizou.

Embora existam cerca de 700 templos em Varanasi, nenhum é tão importante como o próprio Ganges.

Local onde se concentram inúmeros mosteiros, a cidade está repleta de saniasines, homens que vivem em comunidade, rejeitando todas as riquezas e procurando a iluminação.

A peregrinação à cidade onde a morte e a vida estão mais próximas faz-se em caminhos concêntricos que levam o viajante a uma ritual aproximação ao centro do culto. São cerca de 90 km de estradas ao longo das quais estão dispostos 108 santuários em que o caminhante tem de orar e cumprir purificações e oblações.

No centro da cidade ergue-se o complexo crematório mais procurado do globo. Ao todo, deverão ser perto de duas dezenas de milhar os corpos cremados junto às margens do rio em cada ano.

O culto ritual destas cremações encontra-se num fogo sagrado mantido aceso há milénios, e entregue a uma família, os Devi, que tem como única obrigação a conservação dessa chama que é usada para atear todas as piras funerárias nas margens do Ganges.

Os corpos cremados em piras incendiadas com esse fogo sobem directamente para o céu, obtém a salvação imediata, cortando com o ciclo de reencarnações, moksha. A procura da morte em Varanasi é, assim, o grande motor da cidade.

Em torno da cidade existem as chamadas casas da entrega onde centenas de moribundos esperam a morte junto da cidade sagrada, ansiando pela cremação com esse fogo guardado de geração em geração.

A monção, fortemente sentida nesta cidade ribeirinha, é tida como o momento de purificação e como o acto de regeneração que transforma a morte com que diariamente se trata na fertilidade e na vida que possibilitam as colheitas anuais. Vida e morte numa funcionalidade cíclica do andamento do mundo.

O confronto com as regras de civilidade ocidentais levou as autoridades ocupantes britânicas de oitocentos a tentar o encerramento dos crematórios existentes no centro da cidade, e a localizá-los no exterior. Durante a segunda metade do século XIX deu-se esse confronto que resultou, em 1925, no abandono dessa intenção, justificada porque era a cidade que existia devido aos crematórios, e não o contrário.

O banho nas águas do Ganges é sagrado, e ganha dezenas de milhar de praticantes durante os eclipses lunares. Pela manhã e ao pôr-do-sol, realizam-se banhos rituais que purificam os indivíduos. As preces diárias, aartis, são entoadas para o próprio rio, oferecendo-se lamparinas a óleo.

 

 

 

Texto feito com base no nosso  volume, em co-autoria com Francisco Moura, Itinerários de Fé.

Paulo Mendes Pinto

Publicado por Re-ligare às 09:16
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