Sábado, 12 de Fevereiro de 2011

Com que sonha o mundo árabe?

  

But one dreams [songe] also of another movement, which is the inverse and the converse of the first. This is one that would allow the introduction of a spiritual dimension into political life, in order that it would not be, as always, the obstacle to spirituality, but rather its receptacle, its opportunity, and its ferment” (What are the Iranians dreaming about? by Michel Foucault)

 

 

Depois de 29 anos no poder, Hosni Mubarak não desiste. Diante do megaprotesto do dia 1 de Fevereiro, Mubarak promete não se recandidatar, mas insiste em manter-se no cargo de Presidente do Egipto até Setembro deste ano, com o propósito de introduzir as reformas democráticas exigidas pelos seus adversários políticos e o povo em geral. A atitude secular do seu governo manteve-o sempre ligado ao ocidente, num serviço que sempre interessou aos desígnios americanos no Médio Oriente, económicos e políticos. Mas o que ontem era útil ao ocidente, num país que viu nascer, dentro de si, em 1928, a Irmandade Muçulmana e outros movimentos extremistas que dela emanaram posteriormente, e que ainda hoje se batem, contra Israel, pela construção do Estado Palestiniano, hoje dispensa-se, simplesmente, porque se tornou um embaraço, uma vergonha. Num comunicado dirigido ao poder político e ao povo egípcio, Barak Obama não podia ter sido mais claro: as reformas começam hoje e a primeira, sem a qual não poderá haver outras, é a total retirada de Hosni Mubarak da cena política.

 

Presidente do Egipto, desde o assassinato de Anwar El Sadat, em 1981, Hosni Mubarak sobreviveu a seis atentados. Nunca lhe foi fácil, durante anos, circunscrever a ira islâmica contra Israel e até apaziguar as relações entre uma maioria Muçulmana e uma minoria Cristã, que se tem visto cada vez mais discriminada e perseguida – como o revela o último atentado ocorrido em Alexandria, com 23 cristãos coptas mortos. As detenções sucederam-se aos milhares, e nessas incursões, com o objectivo de repor a ordem, as organizações revolucionárias islâmicas viram sempre a sua causa traída. Hoje não são apenas os movimentos que gritam a morte de Israel e a libertação da Palestina ou Irmandade Islâmica, rendida há anos a uma intervenção mais pacífica e política, que não se revêem no seu presidente, mas uma população generalizada, jovem, que deixou de ter medo de sair à rua e de denunciar publicamente a ditadura, corrupção, a censura, a manipulação politica e económica, a violação generalizada de direitos e deveres fundamentais, e exigir eleições livres e reformas democráticas.      

 

Pergunto-me, se fosse vivo, o que teria Michel Foucault para dizer sobre a revolução no Egipto, já que não foi por nada indiferente, em 1979, à revolução iraniana. Os tempos e os cenários não são certamente os mesmos, mas não deixam de existir e de ser claramente evidentes, importantes pontos de contacto – ainda que no Irão, num movimento surpreendente constituído por intelectuais, jovens estudantes, guerrilheiros que haviam deposto as armas, grupos religiosos, de esquerda e por outros mais liberais, se exigisse a morte de uma monarquia autocrática, e pró ocidental, liderada pelo Xá Mohammad Reza Pahlevi e se gritasse pelo Islão e pelo regresso de Paris do Ayatollah Ruhollah Khomeini. Aliás, se a necessidade de salvaguardar o acesso ao pão, como metáfora do que se tem por fundamental à vida, foi o que moveu a revolução tunisina, em oposição à incapacidade, em quem governa, de garantir aos jovens trabalho, liberdade e um futuro melhor, a relação não se fará apenas entre o Irão, a Tunísia e o Egipto, mas entre outros países árabes, como a Jordânia, Marrocos, a Argélia e o Iémen, onde a revolução há muito se anuncia.

 

Ao questionar, num artigo publicado pela primeira vez no Nouvel Observateur (Outubro 16-22, 1978), se no desejo por um “Governo Islâmico”, alternativo à monarquia do Xá Pahlevi, “se devia ver uma reconciliação, uma contradição ou o limiar de algo novo” e ao recuperar o que chamou de “espiritualidade política”, implícita no esforço de “politizar estruturas que são inseparavelmente sociais e religiosas na resposta a problemas correntes”, Foucault leva-me novamente a colocar a questão se a vontade politica da actual revolta no mundo árabe, traz consigo algo de novo, onde o Islão não é a religião que a construção de um sistema democrático patrocina e privilegia, recomendado ou até imposto pelo poder politico ocidental ou outro, mas uma força, uma realidade muito próxima, que continua a permitir ao povo árabe infinitas formas de resistir ao poder do Estado.

 

Talvez ainda alguém ria do texto de Foucault, mas para quem vive num ocidente desencantado, refém de uma economia desumana, fracassada, e vazio de qualquer projecto politico, não deixa de fazer sentido, e de ser oportuna, a pergunta sobre com que sonha o mundo árabe.

             

Henrique Pinto

CAIS / Ciência das Religiões

 

 

Publicado por Re-ligare às 14:34
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