Terça-feira, 29 de Março de 2011

quando o chão cheira a sangue

No momento do Seminário Aberto com poesia sobre o Holocausto

Há uns meses, estive em Varsóvia a convite do Instituto Camões. Gostei bastante. Foi uma viagem importante a vários níveis. Mas talvez um dos mais importantes tenha residido na construção da minha própria pessoa.
Numa tarde, previamente combinada, com a Presidente de uma fundação judaica, fui ao guetto da cidade. Sim, o guetto onde os nazis reuniam os judeus da região para os deportar para campos de concentração.
Nessa vasta zona da cidade, terão morrido milhares e milhares de pessoas. Os números é, como diz Saramago, "de todas as coisas que há no mundo a menos excata". Contudo, aqui os números perdem a noção dos zeros que lhes colocamos para dar escala. São muitos os zeros, foram muitas as pessoas.
Fizémos o roteiro habitual. Fomos aos locais de memória. Aos monumentos, aos sítios que se encontram marcados na paisagem para que sempre se saiba o que ali aconteceu.
Mas foi nos espaços sem memória do guetto que me senti verdadeiramente mal. Numa rua qualquer, entre prédios sempre iguais, construídos algures entre os anos 50 e os 70, uma vala normalíssima mostrava que tinha lugar uma mudança de canos de água. Nada de anormal, se não fossem os tijolos que daquela vala se viam. Iguais aos das poucas construções que restam desses sangrentos anos 40, eles eram a memória esquecida do quotidiano de pessoas como nós que, apenas nisso, foram diferentes: foram tratadas de forma sub-humana e morreram como não desejamos ver morrer animal algum.
Nesse momento, deixei de ser turista e muito menos académico. Passei a ser um sofredor num caminho inexplicável: que fazem moradias naquele longo cemitério? Sim, aquele que fora o guetto de Varsóvia é agora um bairro residencial construído nas décadas de domíno soviético.
Como se vive numa dessas habitações? que memórias, que fantasmas? que dores ou que gozos?
Dei por mim a olhar para um idoso que saia de uma dessas portas comuns. Teria idade mais que suficiente para já ser vivo quando naquele mesmo espaço morreram milhares de pessoas. Como consegue ele deitar-se naquela grande vala comum?

         

Paulo Mendes Pinto

            

Publicado por Re-ligare às 16:38
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