Quarta-feira, 13 de Abril de 2011

Quanto custa ser feliz?

 

Menos coisas, menos televisão, menos internet, menos produção e publicidade, e um maior e continuado investimento em relações humanas.

 

A felicidade também se aprende; não nascemos com ela. Se assim não fosse, não saberíamos falar dela. Mas o que sobre ela se diz, não será mais que um testemunho que se vai passando de geração em geração; no fundo, uma questão infinitamente longe de se tornar um estado de graça em si, ou uma meta definitivamente alcançada.

Mas há mais. Ao contrário do que dizia, por estes dias, o advogado Medina Carreira, a felicidade não tem apenas a ver com cada um, ou com o que alguém individualmente possa gostar e ter como fonte de prazer.

 

Ao assentar sobre um existir vazio de essências, a interdependência humana revela sobretudo que a felicidade não é nem pode reduzir-se a uma mera subjectividade. Se não somos auto-suficientes, a felicidade nunca poderá pensar-se sem os outros. Por isso, ela não poderá resultar de uma relação de alguém com si mesmo, mas de uma relação com um outro. E será este encontro o que arranca a felicidade de uma exclusiva subjectividade e lhe confere maior genuinidade, ou o que podíamos chamar de verdade, ainda que convencional ou relativa.

 

Importante ainda esclarecer que o outro, aqui, é pessoa. Numa economia de mercado, como a nossa, os seres humanos são frequentemente substituídos por coisas, acabando até por ser, entre infinitas ofertas, objectos de consumo. Se a vulnerabilidade e o sofrimento são experiências que a economia de mercado, procura neutralizar e evitar, então, numa procura de felicidade, as coisas, e entre elas os próprios animais de estimação, são a oferta imediata que torna disponível diversos níveis de bem-estar com total imunidade. De facto, a matéria, quer em bruto ou transformada, não nos interroga, nada exige, nunca se aborrece ou alegra connosco. Mas o mesmo já não acontece com o ser humano. E certamente por isso, numa total subjectivização da felicidade, a fraternidade se evite, por ser simultaneamente interrogação e dádiva inestimável. Mas o que estudos recentes trazem uma vez mais de volta às nossas consciências, contra a negação da fragilidade, como condição humana, é que o nível de felicidade provocado pelos consumíveis é efémero e fugaz, como errónea e infeliz é a felicidade que se deseja pela aposta na auto-suficiência ou na menor dependência de uns sobre os outros.   

 

Neste actual estado de colapso financeiro e de gravosa recessão económica insiste-se na importância e urgência do crescimento económico. As perspectivas não são animadoras para Portugal. Na verdade, os analistas prevêem que Portugal, em 2012, seja o único país da União Europeia ainda em crise, com uma taxa de desemprego altíssima e sem crescimento económico.

Serve certamente à felicidade alguma riqueza; não se pode ser feliz na pobreza, entendida esta como privação de bens e serviços de primeira necessidade. Mas a necessidade de produzir maior riqueza e de com ela se proceder a uma mais justa distribuição da mesma, não pode significar viver nos excessos de nós mesmos, pois estes não são necessários à felicidade. Se o caminho para a felicidade está na alegre e tranquila aceitação da nossa própria vulnerabilidade e de com ela nos vivermos em reciprocidade, criando fraternidade, então o crescimento económico deverá significar um menor consumo de coisas e um maior investimento nas relações humanas.

 

Habituámo-nos, quem mais quem menos, a viver com o que frequentemente não nos é necessário. E adquirimos o que não nos é fundamental, como frequentemente o essencial é exclusivamente segundo os nosso olhos e não segundo o olhar também dos outros.

O salário mínimo nacional e o próprio rendimento social de inserção são uma tentativa colectiva de suprir o corpo e a vida com um sistema que lhes permita funcionar, com saúde e dignidade. Mas não posso deixar de denunciar, diante dos seus actuais valores, a sua insuficiência. A felicidade precisa de mínimos maiores, que não empurrem os sorrisos de ninguém para a indigência. As crianças poderão sorrir, cantar e correr de alegria em inúmeros bairros de lata, mas o bidonville não constrói a felicidade de ninguém, ainda que Roberto Benigni agradeça à sua mãe a pobreza. E se mínimos dignos e justos se exigem a todo o crescimento económico, também ao mesmo se exigem máximos dignos e justos. A partir do momento que a felicidade se mede sobretudo pela qualidade das relações humanas, e não pela quantidade de coisas, ou pelo seu excesso, o dinheiro e a sua multiplicação passaram a ser importantes, mas apenas no serviço ao que é de facto fundamental: o ser humano, sem excepção.     

                

Henrique Pinto

Director da CAIS

Prof. em Ciência das Religiões

Publicado por Re-ligare às 16:14
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2 comentários:
De José Nuno Lacerda Fonseca a 25 de Abril de 2011 às 10:11
Caro Professor.
Há muito q me interrogo se a escolha das fontes de felicidade não será a questão fulcral da ética. Pode ser ético alguém que deseja o poder sobe outros seres, um acesso sem restrições ao consumo, uma sexualidade sem afectividade? Baixando a bitola, será possível sermos éticos se desejarmos um padrão de vida inacessível para a maioria dos seres humanos? Não será a ética a corporização de um modo de vida que permita a felicidade de todos os seres? Infelizmente, vejo a Igreja Católica muito confusa sobre o papel da riqueza na vida dos indivíduos. O ensino de uma vida simples deveria ser considerado o ensino essencial da religião, assumindo eu que essa vida simples não será possível sem fé.
José Nuno Lacerda Fonseca
De Daniel Bogas a 14 de Maio de 2011 às 19:54
Show de postagem, copiei para meu blog - blogão do Bogão!Sou Arquiteto Especilista em Arte Sacra e Espaçu Liturgico Celebrativo PUC-SP.Estou decidindo meu Mestrado e Ciência dasReligiões me agrada muito. Irei aproveitar mais do blog religare para me inspirar! Parabéns, texto maravilhoso sobre felicidade!! Abraço

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