Segunda-feira, 26 de Março de 2007

... mais uma vez, Jesus

Depois do alarido em torno do Evangelho de Judas, publicado em Portugal no início do verão passado (em duas edições, uma pela Ésquilo com tradução do original por Antonio Piñero e Sofía Torallas-Tovar), os media retomam a temática do Jesus histórico, lançando para os noticiários e as primeiras páginas dos jornais uma situação que surge como totalmente nova e provida do dramatismo típico dos assuntos que tudo colocam em causa. Contudo, a questão é bem mais complexa e merece alguns cuidados no seu equacionamento.

Em primeiro lugar, há que perceber que o Ocidente cristão desde há muito se habituou à idea de que Jesus morrera e, porque ressuscitara e subira ao céu era, de facto, o salvador. Esta ideia é tão profundamente enraizada que, muitas vezes, se refere Cristo, o epíteto, e não Jesus, o nome.

Em consequência deste aspecto quase civilizacional, foi muito tarde que se escreveram os primeiros arremedos de biografias de Jesus, textos que tentavam lançar luz sobre o homem de nome Jesus que, por razões várias, uma parte da humanidade tomara por Deus, fosse-o ou não. A estranheza neste novo olhar sobre Jesus, com este novos olhos não confessionais, era tanta que Renan, autor de La Vie de Jésus (Paris: Michel Levy Freres, 1863), perderia por esse motivo o seu lugar no Collège de France. De facto, o assunto muito coloca aparentemente em causa.

Mas nem sempre foi assim: nem sempre esta religião teve como central a ideia de um salvador que ressuscita e, consequentemente, não existe enquanto defunto.

Ou seja, interessa verificar que esta religão não nasceu como agora se nos apresenta. O nome «cristãos», os que seguem Cristo, nasceu em Antioquia já na ápoca de Paulo - o principal divulgador do Cristianismo que, contudo, não conheceu Jesus. Como grupo autónomo do judaismo, esta nova religião teve origem no espaço grego ou, pelo menos, judaico em diáspora, falante de grego e já não de hebraico. A ideia messianica que está na base do nome da religião, kristos, a palavra que servirá como epíteto a Jesus, grafando-se «Jesus Cristo», é grega e não hebraica. Não é por acaso que a religião passou para o futuro com a designação de «Cristianismo» e não de «Jesuismo» ou «Messianismo».

E isto não quer dizer que ao hebraismo fosse estranha a ideia de ressurreição como evidência da ideia de salvação. Ela era comum, quer a judeus, quer a gregos. Mas o camiho da ideia de salvação não se fazia apenas na dependência da ressurreição. Outras vias surgem significativamente claras em alguns textos não canónicos: os Evangelhos de Tomé e de Judas.

Nesses dois textos, verificamos que, em torno da ideia de Jesus, não existe a necessidade da morte e ressurreição. Aqui constatamos que, para algumas das comunidades primitivas de seguidores de Jesus, a ressurreição não era tida como necessária para se constituir um corpo de crença com os seus seguidores. A morte e ressurreição, para alguns crentes, não era central.

Naturalmente, nunca poderemos saber qual a representabilidade relativa desta postura teológica. Supomos que, tendo em conta que a norma que vingou veio a ser a visão fundamentada no Cristo, aquele que ressuscitou, estes grupos fossem minoritários. Mas a verdade é que existiam e, em especial, não era por não acreditarem na ressurreição que deixavam de ver em Jesus o filho de Deus.

Enfim, neste modelo, é totalmente natural imaginar para a figura de Jesus um quadro familiar como, aliás, algumas tradições nos legaram. A ideia de que teria irmãos, assim como a de que teria vivido com Madalena, não é apenas criada por Dan Brown....

Ora, a questão hoje continua a ser complexa e, acima de tudo, incómoda. A evental descoberta de um túmulo com sarcófagos e ossadas de um suposto Jesus e seus familiares aparece (e assim é apresentada) como a prova de uma grande mentira. Procuram-se testemunhos, leituras, opiniões ... tudo é conduzido no sentido de procurar uma ideia de farsa por detrás da actual maior religião do mundo.

Os cristãos da Idade Média, que acreditavam nas lendas da vinda de Maria Madalena para o Sul de França, não deixaram de acreditar em Jesus pelo facto dele lhes ser apresentado como um homem que, como quase todos os outros, procriou. Os gnósticos das comunidades de finais do século I, que fizeram o Evangelho de Judas, não eram menos crentes em Jesus que os que seguiam os textos de Lucas, Marcos, Mateus e João que no século seguinte foram declarados canónicos.

Será que os cristianismos actuais, quer o católico, quer o evangélico (este, muitas vezes profundamente fundamentalista e quase nada crítico em relação à literalidade dos textos), conseguirão não se sentir abalados com estas descobertas, sejam elas verdadeiras ou não?

Paulo Mendes Pinto

Artigo publicado no Público

Publicado por Re-ligare às 18:35
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2 comentários:
De Luís Alves de Fraga a 18 de Abril de 2007 às 21:30
Tenho, de quando em vez, passado pelo seu blog. Agrada-me ler alguns dos textos aqui deixados, contudo, acho este particularmente feliz pela simplicidade da exposição e pela clareza do raciocínio. Dou-lhe os meus parabéns.

Ainda não vai ser tão cedo que terei oportunidade de assistir a alguma das actividades académicas para que tem feito o favor de me convidar. Ando muito atarefado com a docência e com o doutoramento e, acima de tudo, já me pesam os 66 anos vividos.
Fico à espera de mais textos com as características deste.
Um abraço
De Miris lourenço Tavares a 29 de Abril de 2010 às 01:55
O homem desde os primórdios da civilização tem buscado deuses e deus. Nossos ancestrais não tinham uma interpretação filosófica da natureza, daí o nascimento dos mitos e religiões primitivas animistas e fetichistas. Sempre o homem procurou deus numa tentativa de reduzir e aplacar o destino da finitude, a morte. Já as religiões superiores – no sentido do uso da razão e organização ritualísticas mais elaboradas – passam a considerar mais os fenômenos de causa e efeito.
A percepção humana neste sentido não mudou no processo de civilização, por este motivo tentamos, com todas as veras, justificar a fé pela razão. Isso não é diferente com as questões reflexivas relacionadas ao Cristianismo – Católico, Protestante ou Ortodoxo. A razão nunca desistirá dos postulados filosóficos e descobertas arqueológicas para justificar a fé ou reduzi-la em nível de crença em mitos ou fábulas. Faz parte da competência relativista humana em produzir dúvidas nos factos que marcaram a história e estabelecimento não só cristianismo, mas na própria história do fenômeno sagrado, do homem tentando dialogar com Deus ou deuses.
Assim, para citar apenas protagonistas atuais que tem gerado reflexões e dúvidas na ordem do cristianismo, Dan Brown – como escritor – e Richard Dawkins – biólogo evolucionista e radical ateu, não tem conseguido fazer recuar a fé dos ditos autênticos cristãos, isso sem falar no polêmico Evangelho de Judas. Sempre haverá seguidores de um Jesus somente humano e histórico – ou mesmo ilusório ou lendário – para saciar reflexões e julgamentos à luz da identidade humana secularizada – e outros seguidores fiéis de um Jesus humano ressuscitado e Divino. Acredito que os sustentáculos da fé estão para além das convicções da razão. ...mais uma vez, Jesus se interpõe na história humana como sujeito histórico não ressuscitado ou Senhor da história e Salvador do homem. Por este motivo sempre teremos uma escolha. Tal escolha não implica abandonar a razão ou a crítica, Fé e razão, acredito, podem dialogar.
Um abraço, Miris.

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