Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011

Das origens «árabes» de Javé

Das origens «árabes» de Javé

 

 

O livro do Êxodo contém uma dupla narrativa da revelação de Deus a Moisés: uma, sacerdotal, que ocorre no Egipto, onde se encontra o povo de Israel escravizado (e de que há fortes razões para acreditar que seja a mais antiga); a outra, laical, na «montanha de Deus, o Horeb», no país de Madian (e que, provavelmente, depende da primeira). Numa e noutra, Deus revela o seu Nome – «Yhwh» – evocando os «antepassados». Na primeira, é Deus que fala directamente a Moisés, dizendo-lhe: «Eu sou Javé. Apareci a Abraão, a Isaac e a Jacob como “El Shaddai” [isto é, o «Deus supremo»; cf. Gn 17,1; 28,3; 35,11; 48,3], mas eles não me conheceram pelo nome de Javé» (Ex 6,3). Na segunda, a situação é completamente diferente: a revelação acontece no quadro de uma «teofania», na qual é a figura misteriosa do Anjo de Javé que se faz ver a Moisés, «numa chama de fogo, no meio da sarça» (Ex 3,2). E Deus não revela imediatamente o seu Nome, antes se apresenta como «o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob» (Ex 3,6). Só depois da insistência de Moisés é que Ele revela o nome «Yhwh», explicando-o: «Eu sou Aquele que sou»[i] (Ex 3,14).

As duas narrativas veiculam, claramente, uma «teologia» acerca do Deus de Israel, que tem pouco que ver com a origem histórica do seu culto e do seu nome. Na narrativa sacerdotal, o autor sagrado deseja sublinhar que Javé é o Deus dos «filhos de Israel (Jacob)», a quem estes devem prestar culto, e a revelação a Moisés é apenas o prenúncio da revelação a todos os «filhos de Israel» no Sinai[ii]. Porém, este autor, na linha do Dêutero-Isaías, sublinha a unicidade de Deus: não há dúvida, trata-se do mesmo Deus que é venerado pelo conjunto dos abraamitas – e, por isso, a evocação dos «antepassados» – como o «Deus supremo» (El Shaddai), ou mesmo o Deus-Criador dos céus e da terra (Elohim; cf. Gn 1). A narrativa laical, por seu turno, vai mais longe (e por isso é, certamente, posterior): ao Senhor deve-se não só prestar culto, mas também «temer» com reverência, pelo qual até mesmo o Nome se deve evitar de pronunciar – estamos, seguramente, no final da época persa, em que se começa a deixar de pronunciar o nome Javé, substituindo-o por Adonai ou, simplesmente, ha-Elohim (o Deus).

As narrativas do livro do Êxodo, portanto, são de pouca utilidade para conhecer as «raízes» históricas do culto e do nome de Javé. O mais antigo testemunho extrabíblico do tetragrama Yhwh, como Deus nacional de Israel e de Judá, aparece na chamada «Estela de Mecha», rei de Moab, na segunda metade do século IX a.C. E, sensivelmente da mesma época, isto é, do período monárquico, existem alguns textos poéticos da Bíblia Hebraica que insinuam uma origem meridional de Javé.

 

 

A «hipótese quineo-madianita»

Na segunda metade do século XIX, houve alguns estudiosos da religião israelita que, aprofundando nas relações familiares de Moisés com os Madianitas (cf. Ex 2,15-22 passim; Nm 10,29-31) e os Quineus (cf. Jz 1,16; 4,11), postularam uma origem meridional do culto de Javé, no que ficou conhecido como «hipótese quineo-madianita». Segundo esta hipótese, antes de se ter tornado o deus nacional hebreu, Javé teria sido um deus tribal madianita e fora trazido para a Palestina pelo «grupo de Moisés» (os «Bene-Israel», segundo André Lemaire), proveniente do Egipto (cf. Ex 18,12).

Efectivamente, essa origem meridional de Javé é também insinuada em alguns textos poéticos antigos: Javé é dito «de Teman» (Hb 3,3), «do monte Paran» (Dt 33,2; Hb 3,3) e «do Sinai» (Dt 33,2; Jz 5,5; Sl 68,9), ou seja, tudo locais da região de Seir/Edom (cf. Dt 33,2; Jz 5,5). As descobertas de Kuntillet ‘Ajrud (inscrições de c. 800 a.C.), em que se menciona também um «Javé de Teman», juntamente com um «Javé da Samaria», vieram reforçar esta interpretação. E, a estes testemunhos, haveria que juntar dois textos egípcios dos séculos XIV (Amenófis III, em Soleb) e XIII (Ramsés II, em Karnak) a.C., que mencionam um topónimo com o nome yhw3 precisamente na região de Seir/Edom, entre as tribos Shosu; nada impede que este topónimo esteja associado ao culto de uma divindade local chamada Yhw(h)[iii].

Por outro lado, todas as tentativas em situar o culto de Javé no espaço semita ocidental (em Ebla, Ugarite ou Hamat) não foram de todo convincentes. Com toda a evidência, o deus Javé não pertencia ao panteão ordinário das divindades dos Semitas ocidentais.

Apesar disso, existe uma objecção importante à hipótese quineo-madianita: os estudos mais recentes apontam para uma origem «cananeia» dos Israelitas – ou, pelo menos, maioritariamente, eles não proviriam do exterior –, e a historicidade de Moisés (e das suas relações com os Madianitas/Quineus) é cada vez mais contestada. Por isso, neste contexto, alguns estudiosos da religião israelita defendem um desenvolvimento do javismo no próprio seio da religião cananeia, baseando-se na origem e sentido do tetragrama.

 

 

A origem do nome Javé

Como ficou dito acima, a interpretação do nome Javé em Ex 3,14 é, claramente, teológica e tardia (pós-sacerdotal), baseada na raiz verbal hebraica hyh (do verbo «ser», ou «fazer ser»). Os defensores da origem local do culto – como um desenvolvimento da própria religião cananeia – defendem que o nome Yhwh poderia ter origem numa sentença abreviada: seja de carácter litúrgico, seja associada a um antepassado deificado.

A associação do nome divino a uma fórmula de tipo litúrgico foi avançada por Frank M. Cross (1973): segundo ele, Yhwh poderia provir da fórmula litúrgica «[Ilu] du yahwi saba’ot» – na origem, um título do deus ugarítico El –, o que quer dizer «[El] aquele que criou os exércitos (celestes)» (isto é, a assembleia dos deuses). Cross inspira-se no seu mestre, William F. Albright, que, segundo David N. Freedman, sugere uma outra sentença, baseando-se em Gn 33,20: «El-yahweh-yisra’el» («El que criou Israel»). Quanto à associação com um antepassado deificado, esta tese foi defendida por Johannes C. de Moor (1990), para quem o nome divino poderia provir da sentença: «yahweh-el» («El esteja presente [como auxílio]»).

Estas explicações são tentadoras, pois explicariam em grande medida porque é que Javé parece ser um deus do «tipo El» (chefe do panteão), assumindo muitas das características do El ugarítico. No entanto, muitos estudiosos vêem, antes, em Javé um deus do «tipo Baal» (um deus guerreiro, um deus da tempestade), o que explicaria o confronto entre Javé de Israel e Baal de Tiro, subjacente às narrativas de Elias no livro dos Reis (a impossibilidade de coexistência de dois deuses semelhantes).

Assim sendo, se alguns textos apontam para uma origem meridional do seu culto, haveria que procurar também aí o sentido do seu nome e as suas características. Segundo K. van der Toorn (cf. nota bibliográfica), a raiz árabe hwy pode ter três sentidos: a) Desejar, apaixonadamente; b) Cair/tombar; e c) Soprar (vento). O primeiro sentido, aplicado a Javé, «o Apaixonado», fora já explorado por um exegeta nos anos 1950 (D. Goiten). Mas são os segundo e terceiro sentidos que melhor explicam a compreensão de Javé como um deus «tipo Baal»: Javé é «[Aquele] que provoca a queda» do raio e do trovão, ou faz «soprar» os ventos tumultuosos. Essas características aparecem claramente nos textos de teofania e em alguns salmos, mas também na caracterização de Javé como «Deus da montanha» (1 Rs 20,23), que faz perfeitamente lembrar Baal de Ugarite sobre o Safon (cf. Sl 48,3; 74,2)[iv]. Uma pista a aprofundar mais tarde.

            

Porfítrio Pinto

Investigador em Ciência das Religiões



[i] Esta explicação, em hebraico, não tinha nada de filosófico, como aconteceria com a tradução dos LXX marcada pela filosofia grega. Em hebraico, o nome significa, simplesmente: «Eu sou Aquele que sou», isto é, «Basta que saibas que Eu sou» (sem outra especificação ou caracterização).

[ii] O texto de Génesis 4,26 parece ironizar com essa ideia sacerdotal de que o nome Javé não era conhecido antes de Moisés.

[iii] Num documentário recente, The Exodus Decoded (2006), produzido por James Cameron, o jornalista Simcha Jacobovici insinua que a antiga «montanha de Deus» poderia ser o Gebel Hashem el-Tarif, não muito longe do Golfo de Aqaba.

[iv] Sugestões bibliográficas: J. Blenkinsopp, «The Midianite-Kenite Hypothesis Revisited», in JSOT, 33.2 (2008), pp. 131-153 (acessível em http://en.wikipedia.org/wiki/Kenite); A. Lemaire, Naissance du monothéisme. Point de vue d’un historien, Paris, 2003; K. van der Toorn, «Yahweh», in K. van der Toorn-B. Becking-P. van der Horst (eds.), Dictionary of Deities and Demons in the Bible,Leiden, 1999, pp. 910-919.

Publicado por Re-ligare às 12:47
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