Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011

O único Javé

 

 

«Javé, o nosso deus, [é] o único Javé» (Dt 6,4). Esta passagem do livro do Deuteronómio, como todos sabem, tornou-se um dos textos fundamentais do Judaísmo, pois faz parte do Chema que cada judeu recita diariamente. Em muitos comentários, ela também é invocada como um dos textos fundamentais referentes ao monoteísmo judaico-cristão. Efectivamente, em muitas das nossas traduções, podemos ler «O Senhor [= Yhwh], nosso Deus, é o único Senhor» ou, até, «O Senhor, nosso Deus, é o único Deus».

Intrigados pelas descobertas arqueológicas recentes, os exegetas são agora cada vez mais cautelosos, evitando colocar no texto o que lá não está. O texto diz, simplesmente, que Javé é o «único Javé». E porquê? Porque, até finais do século VII, altura em que este trecho terá sido escrito – pelos escribas de Josias, rei de Judá –, havia uma multiplicidade de cultos javistas[1]. Isso é comprovado tanto pela arqueologia como por uma leitura atenta de alguns textos bíblicos.

 

 

O polijavismo pré-exílico

A mais antiga atestação extrabíblica do tetragrama Yhwh aparece na chamada «Estela da Vitória» de Mecha, rei de Moab (da segunda metade do século IX). Nesta, Javé é apresentado, claramente, como o deus (nacional) do Reino do Norte. Mas várias inscrições do século seguinte, no entanto, atestam não só a existência de um politeísmo em Israel (associação de Javé com Achera), como parecem sugerir uma diversidade de cultos javistas: as inscrições de Kuntillet ‘Ajrud, um santuário situado num entreposto comercial no Negueve, falam de um «Javé de Teman» (em Edom) e de um «Javé de Samaria» (a capital do Reino do Norte); por outro lado, as inscrições de Khirbet Beit Lei mencionam o «Deus [Javé] de Jerusalém», isto é, do templo de Jerusalém, uma expressão semelhante à encontrada na fortificação de Arad, cujo templo é considerado «casa de Javé».

Ora, estes testemunhos foram associados a algumas expressões bíblicas que parecem apontar na mesma direcção. Na Bíblia hebraica, Javé também é dito «de Teman» (Hb 3,3), «do monte Paran» (Dt 32,2; Hb 3,3) e «do Sinai» (Dt 32,2; Jz 5,5; Sl 68,9), como ainda é dito «de Sião» (Yhwh beTziun; Sl 99,2) ou «de Hebron» (Yhwh beHbrun; 2 Sm 15,7); e os textos deuteronomistas polemizam claramente contra o antigo culto javista dos santuários de Betel e Dan (cf. 1 Rs 12,26-32; Jz 17-18). Com toda a probabilidade, o culto de Javé nestes santuários tinha características próprias, que o tornavam singular e, por isso, objecto de crítica, primeiro, dos profetas e, depois, das correntes deuteronomistas. O culto do bezerro de Betel, por exemplo, é objecto da crítica do profeta Oseias (Os 8,5; 10,5), provavelmente devido ao excessivo acento marcial desse culto (cf. Ex 32), fazendo memória de um Javé «guerreiro», que combatia diante dos exércitos de Israel (cf. Jz 5; mas também Ex 15). Essa crítica é retomada pelos deuteronomistas (cf. 1 Rs 12) para reforçar o seu programa de centralização do culto em Jerusalém. Quanto ao culto «herético» de Hebron, ele é simplesmente ignorado[2]. Graças à salvação «milagrosa» de Jerusalém, durante o cerco de Senaquerib, e que foi atribuída a Javé, o culto de «Yhwh Sebaoth» não parou de ganhar importância e atinge a sua máxima expressão na reforma cultual de Josias, que é também um esforço de centralização do culto em Jerusalém.

 

 

Polijavismo, Politeísmo e Monolatria

Alguns textos do Deuteronómio, porque de épocas diferentes, permitem-nos acompanhar a evolução da religião israelita (entenda-se de Israel e de Judá).

O texto acima citado – a passagem de Dt 6,4 –, provavelmente pré-exílica (ou, quanto muito exílica), mostra-nos que o javismo pré-exílico está longe de ser monoteísta. Ao invés, dita passagem expressa perfeitamente a ideologia deuteronomista da realização do programa de «centralização cultual» iniciado por Josias. Os mais antigos textos poéticos de Israel e de Judá, efectivamente, parecem apontar para uma teologia na continuidade daquela que encontramos em Ugarit e por toda a região levantina: uma assembleia divina, presidida por El (e pela sua consorte Athirat) e tendo por co-regente o deus «guerreiro» Baal. Nos textos bíblicos, Javé assume simultaneamente o papel de El e de Baal: é ele quem preside a essa assembleia (cf. Dt 32,8-9 LXX; Sl 82,1; 89,6-8) e aquele que age activamente em Israel e Judá (cf. Ex 15 e Jz 5).

Mas este contexto politeísta está ainda presente na passagem do final do exílio que sintetiza o Código Deuteronomista: o Decálogo (cf. Dt 5,6-21). O primeiro mandamento –«Não terás nenhum outro deus além de mim» – não é ainda uma afirmação monoteísta (sobre a não-existência de outros deuses), mas antes monolátrica e exclusivista: Israel prestará culto a Javé e apenas a ele (não se nega a existência de outros deuses, antes se sublinha a particular relação entre Javé e Israel). Na verdade, o autor sagrado continua a mover-se num horizonte em que cada povo ou nação possui o seu deus, sendo Javé o deus (único) de «Israel» (cf. também Mq 4,5).

Finalmente, durante o período persa, num contexto de luta contra a «idolatria», essa «monolatria» exclusivista parece assumir contornos de uma «monolatria intolerante»[3], fazendo-se também eco das afirmações «monoteístas» de um Deutero-Isaías: «…Javé é Deus e não há outro além dele» (Dt 4,35; cf. 4,39; 32,29). Aqui, porém, estamos já na fase final do Javismo e no limiar do Judaísmo monoteísta. Num ambiente universalista como o do império persa, deixa de fazer sentido falar de um «deus (nacional) de Israel» – Javé –, sendo este progressivamente substituído por Yhwh-Elohim, «o Deus de toda a terra», e, depois, por ha-Elohim simplesmente – ou seja, «o Deus» ou a Divindade (vejam-se os livros de Jonas e Qohelet) – ou por Elyon – «o Altíssimo» (no livro de Ben Sira).

 

 

Monoteísmo ou henoteísmo?

Concluindo: hoje em dia, entendemos o termo «monoteísta» referido a alguém que acredita na existência de um só Deus. Porém, quando este termo foi cunhado, no séc. XVII, não era tido como antónimo de «politeísta», mas de «ateu»: referia-se àquele que acreditava em Deus (ou num Deus), por oposição ao que não acreditava[4]. Este talvez seja o horizonte em que devemos compreender alguns textos bíblicos, mas recorrendo a um outro termo forjado mais recentemente: henoteísmo, que poderia ser definido do seguinte modo: a crença num deus que assumiu uma proeminência especial num determinado grupo étnico-social, sem que com isso se negue a existência de outros deuses (ou dos deuses dos outros).

             

Porfirio Pinto

Investigador em Ciência das Religiões

 



[1] É neste sentido que é utilizado o termo «polijavismo», como uma expressão local do culto a Javé, o deus nacional de Israel e de Judá (veja-se a obra monumental de R. Albertz, History of Israelite Religion, vol. 1, Londres, 1994, pp. 206-210 [o texto original é de 1992]).

[2] Alguns autores vêem vestígios desse culto na tradição dos três «senhores de Hebron», filhos de Anac (cf. Nm 13,22; Jos 15,14; Jz 1,20), e nos misteriosos visitantes de Abraão em Génesis 18.

[3] É o título da obra de J. Pakkala, Intolerant Monolatry in the Deuteronomistic History, Göttingen, 1999.

[4] N. MacDonald, Deuteronomy and the Meaning of “Monotheism”, Tübingen, 2003, pp. 1-21, citado em Michael Heiser, «Monotheism, Polytheism, Monolatry, or Henotheism? Toward an Assessment of Divine Plurality in the Hebrew Bible» (2008), in http://digitalcommons.liberty.edu/lts_fac_pubs/277/.

Publicado por Re-ligare às 12:50
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