Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

A(s) memória(s) do êxodo

 

Encontrar vestígios da presença de Israel (ou dos Israelitas) no Egipto parece ser uma tarefa extremamente difícil, senão mesmo impossível1. Na verdade, a única referência egípcia ao Israel das origens parece ser a que se encontra na Estela de Vitória do faraó Merneptah, onde se pode ler: «Israel foi devastado e ficou ermo, não tem semente.» No entanto, este Israel não se encontra no Egipto, mas nas regiões montanhosas da Palestina central! Muitos pensaram que essas palavras poderiam coadunar-se, perfeitamente, com a tradição bíblica do êxodo, de maneira que a inscrição egípcia faria referência à instalação de Israel, tal como é relatada no livro de Josué; e, sendo assim, o êxodo propriamente dito teria tido lugar durante os reinados de Seti I ou Ramsés II (nem a propósito: Moisés face a face com o grande Ramsés II, um excelente guião holliwoodiano!).

Porém, nenhum destes faraós morreu afogado! Bom, neste caso, talvez os textos bíblicos revelem um certo carácter «mítico», mas com um fundo histórico: os Israelitas podiam ser 'apiru – um termo próximo de 'ibri, «hebreu», e que refere um grupo social bastante problemático, mas bem documentado na Correspondência de Amarna –, ou seja, uma espécie de bandidos/mercenários que criavam continuamente problemas às cidades-estado fiéis ao Egipto; ou, talvez, shasu das regiões desérticas, umas vezes combatidos pelos faraós em campanha e, outras, favorecidos nas suas longas viagens de transumância, com os seus rebanhos. Uns e outros, na verdade, constam das listas egípcias de prisioneiros... Mas, aqui, entramos no domínio das especulações.

Embora as narrativas do livro do Êxodo sejam, claramente, uma «construção» ficcionada das origens de Israel, não pensemos que o «êxodo» seja um mito ou uma pura ficção. A leitura atenta dos textos da Bíblia Hebraica revela-nos que existe uma «memória» histórica do êxodo, ou melhor, várias memórias de «êxodos», com acentuado carácter regional: a memória das tribos israelitas (Reino do Norte) é diferente da das tribos transjordânicas ou até daquela que foi desenvolvida em Jerusalém (Judá)2. Efectivamente, e do ponto de vista histórico, hoje, revela-se imprescindível renunciar a uma visão «monolítica» dos eventos do êxodo.

 

 

O êxodo em Israel

 

No Reino do Norte, era celebrada – no santuário real de Betel – a memória de um «êxodo» do Egipto, que havia precedido a instalação das tribos de Israel nas montanhas da Palestina central, isto é, em Efraim e Manassés. Essa memória é bem expressa na fórmula litúrgica: «Israel, aqui tens o teu deus [Javé], aquele que te fez subir do Egipto» (Ex 32,4.8; cf. 1 Rs 12,28). No lugar em que se encontra actualmente, a fórmula é usada de maneira polémica quer pelos Deuteronomistas (em 1Reis 12), quer por autores de influência deuteronomista (em Êxodo 32). Porém, ela corresponde perfeitamente à imagem que nos é deixada pelos profetas nortenhos: Amós e Oseias.

Estes profetas têm perfeitamente consciência de que Israel «vem» do Egipto (cf. Am 9,7 e Os 12,14), sendo, por isso, perfeitamente possível um novo regresso aquele país (cf. Os 8,13; 9,3). E essa «estada» de Israel no Egipto parece ser um evento distante no passado, isto é, das suas origens enquanto povo (da sua «juventude»: cf. Os 2,16s; 11,1). Além disso, é um evento que envolve todo o povo (= Reino do Norte), e não apenas algumas tribos, sendo a iniciativa atribuída a Javé – é Deus quem faz subir Israel –, a ponto de criar uma relação especial de Israel com o seu deus (reafirmada por Oseias, em 12,14; mas criticada por Amós, em 9,7): «Eu, Javé, vosso deus, desde a terra do Egipto» (Os 12,10; 13,4).

Mas o mais curioso da fórmula é o verbo usado: eole, isto é, «subir». É um verbo de moção, que não implica necessariamente uma condução «física» para fora do Egipto (isto é, «sair» do Egipto geográfico), mas está claramente conectado com um destino final, isto é, a posse de um território em região montanhosa (há um «subir»), na Palestina central. Depois, não existe nenhuma evidência, quer em Amós quer em Oseias, de que essa «estada» no Egipto tenha significado um tempo de «escravidão». Pelo que se pode concluir que a fórmula do êxodo supõe apenas uma «moção» (Javé fez subir), mas não uma «libertação».

 

 

O êxodo na Transjordânia

 

No livro dos Números, nos antigos oráculos colocados na boca de Balaão, encontramos uma outra memória do êxodo: a de uma verdadeira «libertação» do Egipto. Até à descoberta do sítio de Tell Deir 'Alla (provavelmente, o Penuel bíblico), nos anos1960, afigura de Balaão era olhada com suspeição, muito por influência da imagem negativa deixada no livro do Deuteronómio (cf. 23,5-6) ou pelo episódio burlesco da «mula de Balaão» (em Nm 22). As inscrições de Deir 'Alla vieram apoiar a hipótese de estarmos perante um profeta aramaico, do início do período monárquico, que testemunha o domínio israelita da Transjordânia (do modo semelhante ao da Estela de Mecha, rei de Moab).

Os oráculos recolhidos no livro dos Números (capítulos 23-24) assemelham-se aos encontrados em Deir 'Alla, e atribuídos ao profeta-vidente Balaão. Nestes oráculos transparece o conceito de um panteão, do qual fazem parte El (com os atributos de «Shadday» e «Elyon») e Javé. Balaão, concretamente, seria profeta de El, de quem provêm as suas visões. E a fórmula do êxodo é, aqui, muito diferente da da Cisjordânia: «[O deus] El tirou-o [libertou-o, isto é, a Israel] do Egipto, sendo para ele como a força do búfalo» (Nm 23,22; 24,8). O deus que liberta do Egipto é El – que surge claramente como o chefe do panteão regional, levantino –, e não Javé (o deus protector de Israel; cf. 23,21 e 24,6). É provável que essa libertação, inicialmente, diga respeito ao conjunto dos povos do Levante e que, no texto bíblico, seja restringida apenas a um grupo (Israel), pois, no contexto do livro dos Números, apenas Israel «vem» do Egipto.

E agora, o verbo agora usado, mutzia (= tirar de, livrar), tanto pode referir um movimento geográfico, como designar apenas uma mudança de estado (cf. por ex. o uso deste verbo em Lv 25,28): antes, havia uma situação de opressão ou escravidão (o domínio egípcio); e, agora, uma situação de liberdade (ou seja, a retirada do explorador estrangeiro). El e Javé são mencionados em paralelo, e ambos prestando apoio a Israel (cf. Nm 23,21-22 e 24,6.8); porém, apenas El, como chefe do panteão, tem poder para conduzir os destinos dos grupos e fixar as fronteiras entre as nações (uma ideia que encontramos também no antigo poema de Dt 32,8).

 

 

Judá e a derrota do faraó

 

Anteriormente, ao abordarmos o «Cântico de Vitória» de Moisés e dos Israelitas (cf. Ex 15,1b-18)3, vimos que este antigo poema (provavelmente, também do início do período monárquico) faz referência ao mito semita do «combate original» entre o deus guerreiro (Baal, Marduk, Javé) e as forças do caos, representadas pelo mar (Yam, Tiamat, mar de Suf). Mas, mesmo assim, tudo leva a crer que o seu uso, na liturgia de Jerusalém, celebrava ainda uma vitória importante sobre o faraó egípcio, e que essa vitória era atribuída a Javé, o deus de Judá (e de Israel).

Na verdade, há muito que os exegetas notaram que os profetas do Sul (e, particularmente, Isaías 1-39) não conhecem a tradição do «êxodo», enquanto «saída» do Egipto. (As referências de Jeremias e Ezequiel, a este respeito, são claramente dependentes dos textos de Oseias.) Porém, tanto Isaías (cf. 12,1-6) como Habaquq (cf. cap. 3) fazem eco de eventos semelhantes aos narrados em Ex 15, que envolvem não tanto o Egipto enquanto nação (e, como tal, um aliado frequente de Judá), mas a figura ameaçadora do faraó e dos seus carros... ou seja, numa clara alusão a uma eventual campanha do monarca egípcio na Palestina (talvez a campanha de Merneptah, no final do século XIII a.C, ou a de Chichac, no século X). Contudo, o faraó não conseguiu os seus intentos e os locais atribuíram essa «derrota» ao poder de Javé, que venceu os Egípcios.

 

Resumindo: Provavelmente, na narrativa do êxodo-saída do Egipto temos a elaboração de uma memória colectiva – levada a cabo pelo Judaísmo nascente do século VI/V a.C. –, que partilha elementos regionais variados: a memória histórica de uma «saída» do Egipto (como entidade política e não tanto geográfica), seguida da «instalação» nas regiões montanhosas na Palestina central (memória do Israel cisjordânico); a memória de uma «libertação» do domínio egípcio opressor (memória do Israel transjordânico); e a memória de uma «vitória» milagrosa sobre o faraó e o seu exército em campanha na Palestina (memória jerusalemita).

 

Porfírio Pinto

 



1 Os egiptólogos, porém, parecem não se dar por vencidos. Veja-se o recente artigo de Manfred Bietak, «Israelitas encontrados en Egipto», trad. espanhola em www.institutoestudiosantiguoegipto.com/bietak_e.htm#en1 (consultado em 28/11/2011).

2 Esta perpectiva regional do êxodo é desenvolvida no recente estudo de Stephen C. Russell, Images of Egypt in Early Biblical Literature: Cisjordan-Israelite, Transjordan-Israelite, and Judahite Portrayals, Berlim-N. Iorque, Walter de Gruyter, 2009. Do ponto de vista histórico-cultural, veja-se a contextualização de Nadav Na’aman, «The Israelite-Judahite Struggle for the Patrimony of Ancient Israel», in Bíblica, 91 (2010), pp. 1-23.

3 Ver o artigo «O mar de Suf e o combate mítico», publicado neste blog.

Publicado por Re-ligare às 12:18
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