Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

Os evasivos «hebreus» no Egito (I)

 

 

O início do livro do Êxodo (capítulos 1-5) descreve a situação de opressão dos filhos de Israel no Egito. Depois de mencionar a proliferação dos israelitas no Egito, o narrador evoca o medo dos donos do país que, sentindo-se ameaçados, procuram impedir o crescimento daqueles e impõem-lhes o trabalho obrigatório (a corveia). Mas, incompreensivelmente, a sua situação muda de repente: embora precisasse deles para os grandes trabalhos em curso, o Faraó ordena às parteiras que matem todos os bebés varões, e que apenas deixem viver as meninas. (Esta mudança brusca revela, provavelmente, um trabalho redatorial posterior – também detetável pelo uso da nova designação de «hebreus», em vez de «israelitas» –, para preparar a narrativa extraordinária do nascimento de Moisés.) Face à desobediência das parteiras, o Faraó ordena a todo (!) o seu povo que lance no Nilo os bebés varões dos hebreus.

É neste contexto dramático que se narra o nascimento de Moisés. Sua mãe, para o salvar, coloca-o numa cesta (ou arca!) e lança-o no Nilo, onde é recolhido pela filha do Faraó. Assim, Moisés escapa à morte e cresce com uma dupla identidade: hebraica e egípcia.

E, depois, a narrativa passa diretamente para a idade adulta de Moisés. Sabendo que os hebreus são seus irmãos, vem em ajuda de um que era maltratado por um capataz egípcio, acabando por matar este último. Mas o gesto torna-se conhecido, obrigando-o a fugir para a região de Madian. Moisés é acolhido entre os madianitas e casa com Séfora, a filha de um sacerdote madianita, que ele havia salvo das mãos de bandidos. Durante a sua estada em Madian, um dia, Moisés tem uma visão de Deus, que lhe aparece numa sarça ardente (que não se consome) e o chama para que salve Israel do Egito. Moisés objeta, mas Deus insiste e confere-lhe poderes mágicos, prometendo-lhe ainda a ajuda de um seu irmão que ficara no Egito (Aarão), que falará por ele ao Faraó. Então, Moisés regressa ao Egito, donde haverá de guiar o seu povo para a liberdade.

Sem querer entrar em todos os pormenores da narrativa de Êxodo 1-5, vamos apenas analisar, nesta reflexão, o uso do termo «hebreus» nestes textos.

 

 

Os 'apiru (ou habiru) e os hebreus

 

Desde as descobertas das Cartas de Amarna, no século XIX, sempre chamou a atenção dos investigadores bíblicos a presença do termo 'apiru nessa correspondência. Por um lado, estavam siderados com a proximidade linguística entre os termos 'apiru (cuja raiz 'pr poderia significar «os poeirentos» ou frequentadores de caminhos de terra) e aqueloutro, bíblico, 'ivri («hebreus», sinónimo de israelitas). Mas, por outro lado, estavam também conscientes da proximidade cronológica com os eventos narrados no livro do Êxodo (situados, então, na época de Ramsés II, ou seja, menos de um século após a correspondência amarniana). Para muitos estudiosos, a relação entre os 'apiru e os hebreus era, praticamente, uma evidência. A tal ponto que, nos anos 1960-1970, a teoria sociológica acerca das origens de Israel1 fazia deles uma componente-chave dos chamados protoisraelitas.

Porém, por esta mesma altura, eram publicados alguns documentos do antigo reino de Mari, onde surgia um termo semelhante: habiru(m). Este termo revela uma realidade sociológica não muito diferente da referida na Cartas de Amarna: ou seja, os habiru são pessoas (e não um grupo étnico) que deixaram a sua terra (a raíz hbr significa «ir-se embora») e oferecem, agora, os seus serviços, como mercenários, nos lugares onde se encontram. Ora, depois destas descobertas, a relação entre habiru/'apiru e hebreus deixou de ser tão evidente, como até então. Estes termos refletem uma realidade do Médio Oriente antigo, que durou durante todo o segundo milénio antes da nossa era: a dos «migrantes», deslocados ou refugiados, que ofereciam o seus serviços a troco de bens (mercenários). Nas Cartas de Amarna, por razões ideológicas, pois os 'apiru estavam associados a chefes locais que se revoltavam contra o domínio egípcio (nomeadamente, o reino de Amurru), eles eram tratados de «vilões», desordeiros e causadores de conflitos, e, por isso, indesejáveis dos governadores egípcios. Mas, com a emergência de novos Estados, no final do segundo milénio, esses elementos apátridas foram reabsorvidos nas novas sociedades emergentes (Amon, Moab, Israel, Judá, Edom)2.

 

 

Os «hebreus» na Bíblia Hebraica

 

Podíamos pensar que os textos bíblicos guardam «vestígios» (ou «traços» de memória) dessa antiga realidade do Médio Oriente. Efetivamente, há estudiosos que pensam que ela está espelhada em algumas passagens do primeiro livro de Samuel (nomeadamente 1Sm 13,3 e 14,21), em que o termo «hebreus» parece referir-se a pessoas diferentes dos «israelitas».

No entanto, este uso é único! Nas outras vezes em que o termo aparece – e não são assim tantas (!) –, ele designa, simplesmente, os israelitas, mormente na boca de estrangeiros, adversários de Israel: a) em 1Samuel sãos os filisteus que assim designam os israelitas (cf. 4,6-9; 13,19; 14,11; 29,3); b) em Génesis e Êxodo, os egípcios (cf. Gn 39,14-17; 41,12; Ex 1,16.19; 2,6.7).

O narrador utiliza-o muito poucas vezes: apenas em Êxodo 1,15 e 2,11.13, para designar os «israelitas» (sentido étnico), e na passagem irónica de Génesis 43,32 (acerca das leis alimentares).

Além disso, é curioso que o termo «hebreu» sirva para caracterizar alguns personagens importantes da história israelita: Abraão (cf. Gn 14,13), José (originário do «país dos Hebreus»; cf. Gn 40,15), Moisés (cf. Ex 2,6), David (cf. 1Sm 29,3) e Jonas (cf. Jn 1,9).

Finalmente, o termo é usado para caracterizar o Deus de Israel, como o «Deus dos Hebreus» (cf. 3,18; 5,3; 7,16; 9,1.13; 10,3), ou ainda, em contexto legal, como sinónimo de «escravo israelita» (cf. Ex 21,2; Dt 15,12; Jr 34,9.14).

 

Perante este quadro, na verdade, é difícil defender uma continuidade entre os termos 'apiru e «hebreu». Se, como defende Na'aman, o termo «hebreu» permaneceu na linguagem coloquial para referir os israelitas que emigraram ou viviam em situação de opressão (mantendo aquele conteúdo social do termo 'apiru), porque é que é utilizado tão poucas vezes na Bíblia Hebraica? Mais ainda, porque é que aparece apenas em textos que os exegetas consideram «tardios»?

Com efeito, durante o período do Segundo Templo, o termo «hebreu» tornar-se-ia cada vez mais frequente, para designar o étnico «israelita», tanto na literatura apócrifa como em Fílon, em Josefo e no Novo Testamento. Por isso, talvez as ocorrências na Bíblia Hebraica estejam entre os primeiros testemunhos desta realidade (como sinónimo de «israelita»); e, por outro lado, esse uso parece ter uma finalidade precisa: dar um sentido/tonalidade de antiguidade, e heroísmo, a narrativas recentes (e, provavelmente, oriundas da diáspora), mas que se referem às origens de Israel3.

 

Porfírio Pinto

 

 

1 George Mendenhall, «The Hebrew Conquest of Palestine», in BA, 25/3 (1962), pp. 65-87; Norman K. Gottwald, The tribes of Yahweh: a sociology of the religion of liberated Israel, 1250-1050 BCE, Londres, 1979.

2 Veja-se o estudo de Nadav Na'aman, «Habiru and Hebrews: The Transfer of a Social Term to the Literary Sphere», in JNES, 45/4 (1986), pp. 271-288. Sobre o seu uso em Mari, ver texto mais recente de Jean-Marie Durand, Cours de la Chaire d'Assyriologie, Année 2004-2005: «Le problème des haBirum et l'étymologie du terme “hébreu”», in http://www.college-de-france.fr/default/EN/all/assyrio/resumes.htm.

3 Graham Harvey, The True Israel: Uses of the names Jew, Hebrew and Israel in Ancient Jewish and Early Christian Literature, Leiden-Nova Iorque, 2001 (particularmente o cap. 8).

 

 

Publicado por Re-ligare às 16:45
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1 comentário:
De apartamento riviera a 6 de Janeiro de 2012 às 02:16
Parabens pelo blog, está um sucesso.

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