Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

Moisés seria gago?

Moisés seria gago?[1]

 

 

 

Um dos episódios mais impressionantes do Êxodo é a revelação de Deus a Moisés, no Horeb/Sinai, que constitui, ao mesmo tempo, a sua vocação/missão «profética» (ver Êxodo 3,1-4,17). Muito brevemente: estando Moisés hospedado em casa de Jetro, foi um dia com o rebanho de seu sogro à «montanha de Deus», o Horeb/Sinai. O Anjo de Javé (= Javé) apareceu-lhe numa sarça-ardente, chamando-o e revelando-se-lhe como o «Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob». Em seguida, envia-o em missão junto do seu povo oprimido no Egito. E, nesse momento, começam as objeções de Moisés: primeiro, sente-se pequeno diante do faraó (cf. 3,11-12); depois, questiona o nome de Javé (cf. 3,13-22); a seguir, tem medo da reação dos seus concidadãos (cf. 4,1-9); e, por último, desculpa-se com problemas relativos à fala (cf. 4,10-17).

Os exegetas reconhecem, neste episódio, o típico género das narrativas de vocação/missão profética: a) encontro com Deus; b) palavra introdutória; c) envio; d) objeção; e) expressão de confiança; f) sinal. Ou seja, a vocação/missão de Moisés, narrada aqui, seria semelhante à de Isaías (Is 6), de Jeremias (Jr 1) ou de Ezequiel (Ez 3). Contudo, nos demais profetas, há apenas uma objeção, a que Deus responde com uma expressão tranquilizadora, corrigindo o eventual defeito do profeta. Ora, com Moisés isso não acontece: Moisés não só apresenta várias objeções como, na última, parece mesmo rejeitar a promessa e confiança de Deus, provocando a sua ira (cf. 4,14). E – coisa espantosa! – Javé capitula diante de Moisés, concedendo-lhe a ajuda de Aarão, «seu irmão», como seu porta-voz (cf. 4,14-16).

 

 

Um problema de fala?

 

Inicialmente, na última objeção, Moisés diz a Javé que não é dotado para falar, pois tem «a boca e a língua pesadas». Deus tenta tranquilizá-lo – como faz com os profetas – e assegurá-lo da sua presença (e da sua capacidade/poder para fazê-lo ultrapassar esse handicap), mas Moisés replica de modo surpreendente: deseja que Javé envie um outro, não seu lugar – substituindo-o –, mas que a mensagem que ele (Moisés) recebe de Javé seja comunicada oralmente por um outro. E Javé aquiesce! Aarão será colaborador de Moisés na transmissão da mensagem que este recebe de Javé.

Como interpretar este problema de fala de Moisés? Ele é incoerente com o resto das narrativas do livro do Êxodo. De facto, na narrativa das pragas, diz-se que Moisés – ou, às vezes, Moisés e Aarão – falava(m) com o faraó (ou seja, age como se não tivesse qualquer problema!); e, por outro lado, nessas mesmas narrativas, a função de Aarão não parece ser a de falar por Moisés, mas a de realizar os sinais que Deus anunciara precedentemente[2].

Na Antiguidade, Fílon e Josefo justificaram a objeção de Moisés em Êxodo 4,10 com a sua «humildade», diante da majestade divina, e não como um problema real de Moisés. Calvino, pelo contrário, pensa que existia um problema de fala com Moisés (tratar-se-ia, possivelmente, de gaguez), mas Deus manifestava nele a sua glória, fazendo com que, nos momentos oportunos, ele falasse sem problemas. No entanto, uma e outra resposta são, claramente, insuficientes. Neste episódio, estamos perante um problema na transmissão/comunicação da revelação divina.

 

 

Moisés, Aarão e a Tora

 

A personagem de Aarão surge, nesta passagem do Êxodo, pela primeira vez, sem que nada o fizesse prever. Em Êxodo 2,1-10, ficámos a saber apenas que Moisés tinha uma irmã, mas não consta que tivesse irmãos; para termos mais detalhes, há que esperar pela genealogia de Êxodo 6,14-27, onde se revela o nome dos pais de Moisés e a sua relação de fraternidade com Aarão (que, em 6,13, não era ainda muito evidente, pelo que um redator acrescentou a genealogia[3]).

Aarão é, portanto, apresentado como levita, irmão de Moisés e seu porta-voz. Quanto a Moisés, ele é o profeta de Javé (mesmo que tenha problemas de fala), o líder e o legislador. Deus não substitui Moisés, continua a comunicar-se com ele. Só que, tal como Deus põe a sua palavra na boca do ser humano, cabe também a Moisés (que é como um deus para Aarão; cf. Ex 7,1, onde Moisés é apresentado como um deus para o faraó) pôr a palavra, recebida de Javé, na boca de Aarão. Ou seja, estamos perante a questão da transmissão da palavra de Deus.

Mas porque é que o handicap de Moisés é necessário para o processo da revelação divina? A diminuição da faculdade de falar de Moisés serve para realçar uma outra faculdade da comunicação: a escrita. No livro do Êxodo (como no Deuteronómio), escrever é uma faculdade explícita de Moisés. Em Êxodo 17,14, Deus pede-lhe que escreva as suas palavras (a propósito da vitória sobre os Amalecitas) como um «memorial»; em Êxodo 24,4, Moisés escreve as palavras da lei; em Êxodo 34,27s, ele escreve as palavras [do livro] da Aliança.

Sendo assim, em Êxodo 4,10-17 há uma intenção clara em lançar a «confusão» acerca das funções dos protagonistas e esbater as fronteiras entre fala (palavra) e escrita (texto): o profeta carismático (Moisés) é um «escriba» que não sabe falar, e o antepassado da classe sacerdotal (Aarão) – supostamente responsável pela Tora – o seu porta-voz! Então, à semelhança do que acontece nos textos de Deuteronómio 31-34, esta passagem pode fazer alusão ao processo de «canonização» da Tora: Javé transmite a Moisés (profeta) o que este devia dizer, e esses oráculos tornam-se numa espécie de texto (do Moisés escriba) que a «mão de outro» (a classe sacerdotal; cf. Deuteronómio 31,9.24-27) leva ao povo.

E é aqui que se funda a tradição que atribui a autoria do Pentateuco a Moisés. E se Moisés é um profeta extraordinário (cf. Dt 34,10), o Moisés escriba está acima e engloba o Moisés profeta.

 

Porfírio Pinto

Investigador em Ciência das Religiões

 



[1] Esta reflexão é baseada no livro de Brian Britt, Rewriting Moses. The Narrative Eclipse of the Text, JSOT 402, Londres-Nova Iorque, T&T Clark, 2004, pp. 117-130 («Moses' Heavy Mouth»).

[2] Na narrativa das pragas, estamos perante uma disputa entre os sacerdotes egípcios e o sacerdote de Javé, Aarão. É Aarão quem realiza a ação que, anteriormente, fora anunciada por Deus a Moisés (cf., por ex., Ex 7,14-25).

[3] Existe algum consenso para atribuir esta genealogia à chamada «Escola de Santidade» (responsável também pelo «Código de Santidade», em Lv 17-26, e, provavelmente, a edição do livro dos Números).

Publicado por Re-ligare às 16:23
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1 comentário:
De Paulo Jorge Ramos a 3 de Dezembro de 2014 às 13:31
Saudações
Escrevi um artigo, que queria partilhar, sobre Moisés:

http://quem-escreveu-torto.blogspot.pt/2009/05/moises-o-terrivel.html

Obrigado

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