Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

From Genesis to Revelation

From Genesis to Revelation

Só uma revelação para lá da história e do tempo nos pode salvar das nossas ficções

 

 

“Nunca escrevi algo que não fosse ficção.” (Michel Foucault, 1977)

 

“Então o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo, entrou também. Ele viu e acreditou.”  (São João, 20, 9)

 

 

Por Henrique Pinto

 

From Genesis

 

A contínua procura de sentido tem levado a humanidade a perguntar-se de onde vem, o que faz aqui e para onde vai. Porquê o ser e não o nada. Nos afazeres de tempos idos e nos de agora, estas são as questões que teimosa e sistematicamente permanecem sem resposta, hoje num lugar que não é o de um não-redimido e putrefacto Narciso, mas o que é simultaneamente vazio de Deus e do Homem. Na verdade, e ainda que o Antropos da ciência e tecnologia não desista de insistir que o lugar que por tantos séculos coube a Deus lhe pertence, este não é demora do vazio árido e estéril que nasce de uma extenuante e insatisfeita entronização do ser humano, levada à exaustão (Gilles Lipovetsky), mas o espaço (dito em grego clássico, khora - χώρα) onde tudo ganha vida sem razão e o mundo acontece como simples dádiva.

Simultaneamente imanente e transcendente, secular e sagrado, político e religioso, este é o lugar do sol poente e nascente, onde a vida se afirma e resiste, num incessante questionamento sobre si. Nele se travaram, desde tempos imemoráveis, incontáveis batalhas, e ainda hoje a luta pela sua posse, disputada com mais ou menos violência, entre as mais variadas visões do mundo, é o que constitui a nossa intertextualidade e o que a narra pela linguagem em cada dia que passa, sem nunca a exaurir. E é precisamente este excesso (Michel Foucault; Henrique Pinto), para lá de Deus e do Homem, que faz com que o vazio de que somos feitos e preside à construção do mundo, não possa ser alguma vez ocupado por uma particular visão dele mesmo.

Dito em francês, lieu vide, este é o lugar da origem sem Origem, do mistério sem Mistério, da essência sem Essência, da verdade sem Verdade, da história sem Telos, do lugar sem Alfa e Ómega, sem Princípio e Fim.   

 

 

To Revelation

 

Ainda que sem Genesis ou uma Verdade Última e Absoluta, procurá-la com a força de que se é capaz, e com a sapiência de quem o exorta a que se faça, mas sem nunca a encontrarmos, sem nunca ousarmos ocupar um lugar que não nos pertence, é continuar a interminável fabricação de dias a que se atribui sentido. A diária criação do mundo, sem que essa se possa fazer com referência a um absoluto, não é uma lacuna, muito menos uma condenação. É revelador da condição humana, de que não somos auto-suficientes, mas seres interdependentes, convocados por uma erupção intrínseca, por um eros espiritual (Lynne Huffer), a viver não em estado de guerra, mas em permanente transformação e cooperação com todos os outros, tão ou mais dependentes e frágeis do que nós.

A construção do mundo através de uma critica e transformadora cooperação não resolve certamente a dor, o sofrimento a morte, mas enquanto forma pela qual se experimenta e vive a liberdade, este é o estilo (de vida) que melhor se adequa à condição de quem é sem abrigo, aquele pelo qual se pode ainda ser genuinamente livre, ainda que sem Verdade ou um derradeiro Ventre de Mãe. Talvez este nos aproxime até mais da fonte, como diria Eugénio de Andrade, numa referência ao murmurar do silêncio. Mas nenhuma aproximação, nenhuma radical abertura na direcção do Impossível (Jacques Derrida; John D. Caputo), nenhuma fonte seriam alguma vez mais que meras construções.

Só mesmo a revelação de uma Impossibilidade para lá delas, para lá da história e do tempo, nos poderia salvar, libertar das nossas ficções, ainda que descentradas, esvaziadas de si e geradoras da mais genuína fraternidade - fazendo assim justiça à alteridade da história.

 

 

 

Publicado por Re-ligare às 17:43
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