Sábado, 18 de Agosto de 2007

Na Silly Season, por uma paz em tons Pop

É, sem dúvida, um dos pontos fortes da nossa cultura televisiva. Quem não conhece, quem não parodiou, as célebres frases de candidatas a Miss Mundo ou outra miss qualquer, dizendo as banalidades de sempre: “quero um mundo com mais paz e mais amor!”, dito do rasgado sorriso branqueado que foi transformado em estereótipo de pobreza intelectual.

Mas, gozo à parte, era bom que se desejasse mais vezes um mundo em paz. De facto, acho que poucas vezes temos tido tão fraca consciência da necessidade de Paz. Numa ilusão a que nos habituámos, imaginamos que vivemos em paz há algumas décadas, pelo menos desde o final da II Guerra Mundial.

Contudo, muitas vezes nos esquecemos de criticar esta ideia feita pelo senso comum. Antes pelo contrário, vivemos há anos, os mesmos dessa ilusão, numa profunda necessidade de paz que atravessou toda uma chamada Guerra Fria, nada pacífica, pelo menos pelo nome, e agora uma era de terrorismo global. No auge dessa paz prolongada a que designou chamar de Guerra Fria, John Lennon compunha a mítica Imagine, em 1971.

Se da tensão Nato / Pacto de Varsóvia falarmos, nunca poderemos esquecer verdadeiros hinos à Paz que foram compostos ao longo dos anos oitenta, por uma indústria Pop que muito deve ter montado nas nossas cabeças.

De Sting com o seu Russians e a imortalizada frase, em tempo de governo Reagan, “I hope the Russians love their children too”, à Nikita de Elton John, tão mais simplista, muitas foram as horas de pacifismo Pop que a minha geração recebeu nos distantes anos oitenta.

Mas algumas posturas ficaram cimentadas. Bono já foi várias vezes apontado como eventual Prémio Nobel da Paz; acredito que, mais tarde ou mais cedo, superando todos os preconceitos, o receba.

Agora, centrado no mesmo piano em que Lennon compôs Imagine, George Michael lançou a iniciativa Piano Magic Peace Project. O velho Steinway que o cantor britânico de ascendência grega comprou por mais de 12 milhões de euros é agora o centro de um conjunto de actividades pacifistas em que, simplesmente, qual ícon ou totem, o instrumento musical é colocado em locais simbólicos pelo que de anti-pacífico nos trazem à memória: o local em Dallas onde Kennedy foi assassinado, ou o ground zero das Torres Gémeas, entre tantos outros locais de fatídicos episódios da nossa História recente.

A instalação é simples. Apenas o piano, no local; as gentes a olhar, a passar. Tão falhos de verdadeiras iniciativas, via ONU, por exemplo, que nos conduzam a uma paz de facto, talvez nos “baste” este Pop imagine… quem sabe. Pelo menos, é um tijolo nesse muro que tarda em ser construído.

Paulo Mendes Pinto

Publicado por Re-ligare às 11:12
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2 comentários:
De Luís Alves de Fraga a 20 de Agosto de 2007 às 07:02
Caro Amigo,
Será possível, sem ser pura demagogia, desejar a paz para o mundo quando se não tem paz interior?
O desejo de paz para o mundo é essencialmente demagógico, porque se perdeu o hábito de fazer um profundo exame de consciência, de ir à procura dos erros pessoais com propósito de emenda, de querer ultrapassar as vaidades mundanas. Não acredito em desejos de paz para o mundo... As misses são mais verdadeiras! São, em regra, burritas e para nada mais servem do que para se exporem como gado em feira (e nós gostamos!).
Este imenso desejo de chegar mais longe do que o companheiro do lado que nos assalta a cada instante impede-nos de vermos os atropelos que cometemos, mas aguça-nos o olhar para o que todos os outros fazem contra a paz. Temos de começar a ser os mais ferozes críticos de nós mesmos para desejarmos, com fervor verdadeiro, paz para o mundo.
Um abraço
De Re-ligare a 20 de Agosto de 2007 às 10:44
Sim, sinceramente acho que os desejos de paz são pura demagofia. Ou, melhor, não demagogia, mas a imagem da incapacidade de fazer alguma coisa.
É interesante o que diz sobre a paz interior. Quando escrevi este pequeno texto, foi a pensar numa série; 3, mais propriamente, em que o próximo será sobre a paz interior.
Só com esa, a mais difícil, mas a mais básica, se pode avançar para qualquer horizonte mais global. Estar em paz, era a frase muito usada noutros tempos e em alguns contextos religioso. Ou, como diose Jesus, "que a paz esteja convosco". Sem fazer proselitismo (todos sabem que o não faço, por razões sobejamente conhecidas), a paz em causa é esta a que s erefere Jesus: interior.
Abraço,
Paulo Mendes Pinto

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