Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

Da historicidade de Abraão

Na peugada de Abraão (1)

 

Da historicidade de Abraão

 

 

Abraão não só é uma das figuras maiores da Bíblia, como também do Alcorão, ao ponto das três religiões monoteístas – Judaísmo, Cristianismo e Islão – poderem ser caracterizadas como «religiões abraâmicas»: não porque Abraão seja o seu fundador, mas porque todas elas o consideram «pai», ou patriarca. «Pai ilustre de uma infinidade de povos», diz Ben Sira 44,19; «pai na fé», argumentará Paulo (cf. Romanos 4 e Gálatas 3), e também o Alcorão, para quem o Islão segue o «credo de Abraão» (cf. surata 2,135).

A tradição bíblica hesita entre apelidá-lo de «amigo [de Deus]» (cf. Is 41,8; 2Cr 20,7; Dn 4,35) ou «o fiel» (Sir 44,20; 1 Mac 2,52); e a tradição corânica chama-o «o Puro» (Hanif; surata 3,67) e «o Amigo» (Khalil; surata 4,125), tendo-o por arquétipo do muçulmano perfeito – e como reformador da Caaba.

Abraão possui, sem dúvida, um carácter «ecuménico». Curiosamente, essa dimensão «ecuménica» também está presente no próprio texto bíblico, nomeadamente em textos provenientes dos meios sacerdotais: com efeito, para o grupo de sacerdotes «retornados» da Babilónia, o personagem venerado em Hebron (onde se encontra o «túmulo do patriarca»), encruzilhada entre vários povos, estava vocacionado para concentrar nele as esperanças comuns de um entendimento profícuo, entre grupos distintos que se opunham entre si.

 

 

A «questão» do Abraão histórico

 

Até ao final do século XIX, não havia ninguém que, seriamente, pusesse em causa a existência de Abraão. Mas essa situação mudou drasticamente no século XX, muito por causa do exegeta alemão Julius Wellhausen, o «pai» da hipótese documentária, que foi quem lançou o debate acerca da «historicidade» de Abraão. Segundo ele, as primeiras narrativas acerca do(s) patriarca(s) são elaboradas apenas durante a monarquia israelita, e haveria que considerar Abraão «uma figura legendária». Esse carácter legendário é ainda aquele que transparece nos comentários exegéticos de Hermann Gunkel e Gerard von Rad, que consideravam as narrativas do «ciclo de Abraão», precisamente, como «lendas» (Sagen).

Ora, reagindo contra o cepticismo da «crítica literária», os fundadores da chamada «Arqueologia Bíblica» (sobretudo americanos e franceses) defendiam a «plausibilidade» dos relatos bíblicos, postulando uma longa «tradição oral» e, claro está, a «historicidade» de Abraão, que era considerado um contemporâneo de Hamurabi, o grande rei da Babilónia. William F. Albright via nele um abastado pastor amorreu, seminómada, que deixou a sua pátria de Ur – conhecida pelas escavações, nos anos 1920-1930, do cemitério real de Ur – para se estabelecer em Canaã. Cyrus H. Gordon, por seu turno, vendo a dificuldade de conciliar «Ur dos Caldeus» (designação que não pode ser anterior ao séc. VII a.C.) com as tradições patriarcais, defende a corrupção do topónimo original, pensando que Abraão seria um comerciante hurrita, proveniente de Ura, na Alta Mesopotâmia. De todos os modos, a descoberta e publicação da documentação de Nuzi (um dos reinos do «império» hurrita) testemunhavam acerca da «plausibilidade», no segundo milénio, dos costumes invocados nas histórias patriarcais.

Em meados dos anos 1970, esse optimismo dos biblistas-arqueólogos foi posto em causa por dois estudos de grande impacto: o livro de Thomas L. Thompson, A Historicidade das Narrativas Patriarcais (1974), e o de John van Seters, Abraão na História e na Tradição (1975). Tornou-se, claro, então, que os dados arqueológicos foram sobreavaliados, tendo-se criado um cenário para a chamada «época patriarcal», no segundo milénio, que não se coaduna com as tradições expressas pelos textos bíblicos, que podem perfeitamente entender-se no quadro da história do primeiro milénio.

Mas poderá ter existido, realmente, um personagem de nome Abrão («o pai [é] exaltado»), no segundo milénio, cuja «memória» pudesse estar na base das tradições bíblicas? Nas reflexões mais recentes, apenas duas pistas retiveram a atenção dos estudiosos: a primeira surge numa estela de Seti I, encontrada em Bet-Chan, em que se menciona uma tribo chamada «Raham»; e a segunda, na lista da campanha do faraó Chichac, no templo de Karnac, em que se menciona um topónimo de nome «forte Abram», na região do Negueve. A primeira pista é explorada por Mario Liverani, para quem Abraão poderia ser o antepassado da mencionada tribo («Abu-Raham» = «o antepassado/pai de Raham»)1; porém, dita estela refere-se à região da Galileia, e esta pista ficaria bastante afastada do centro Hebron/Negueve, onde se enraízam as tradições do patriarca (e onde tinha lugar o seu culto). A outra pista parece mais fiável: «forte Abram» pode realmente evocar um antepassado tribal, oriundo da região do Negueve. Como a cidade de Bercheba não aparece na lista de Chichac, Yohanan Aharoni sugere que «forte Abram» poderia identificar-se com aquela cidade (também referida nos textos bíblicos)2. Mas, como é evidente, trata-se de pura especulação.

 

 

Um personagem autóctone

 

Mais importante que os vestígios extrabíblicos, importa ter em linha de conta a «intertextualidade» bíblica. Fora do Pentateuco, as primeiras alusões ao patriarca Abraão são do período em torno ao exílio – mais concretamente, em Ezequiel e no chamado Deutero-Isaías –, com o problema da posse da terra como pano de fundo, e tudo leva a crer que se trataria de um personagem autóctone[3]. Aparentemente, seria uma figura conhecida dos vários interlocutores (quer dos exilados, que se consideravam o «verdadeiro Israel; quer dos que permaneceram em Yehud, e que agora se reclamavam herdeiros de Abraão), pois não se revelam nenhuns dados biográficos do patriarca.

Diz Ezequiel: «A palavra de Javé foi-me dirigida nestes termos: “Filho de homem, os que habitam no meio destas ruínas, na terra de Israel, dizem: Abraão, estando só, recebeu a posse desta terra; nós, agora, que somos muitos, recebemo-la em património. Por isso diz-lhes: Assim fala o Senhor Javé: Vós, que comeis sangue, contemplais os ídolos e derramais o sangue, ainda quereis possuir a terra? […] Reduzirei esta terra a um deserto desolado, e acabará o seu poder arrogante. As montanhas de Israel serão arrasadas e ninguém passará por elas. Então, saberão que eu sou Javé...» (Ez 33,23-25.28-29).

Este texto dá a entender que os não-exilados recorrem à figura de Abraão para legitimar a sua propriedade sobre a terra, que continuaram a cultivar durante o exílio. O profeta, por seu turno, faz-se porta-voz dos interesses dos «retornados», que consideram ter também direito a essa terra, porque «observantes» da lei divina (e, portanto, o «verdadeiro Israel»). Para o profeta, claramente, não basta reclamar-se descendente de Abraão! É fundamental a obediência à lei divina.

Um pouco diferente é o texto do Deutero-Isaías: «Escutai-me, vós que procurais a justiça; vós, que buscais Javé. Observai o rochedo em que fostes talhados, a pedreira donde fostes retirados. Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara que vos deu à luz. Quando o chamei, ele estava só, mas [Eu] benzi-o e multipliquei-o. Sim, Javé tem piedade de Sião, compadece-se de todas as suas ruínas; transformará o seu deserto num Éden e a sua estepe num jardim de Javé, onde haverá gozo e alegria, cânticos de louvor e o som de melodias. Escuta com atenção, povo meu; prestai-me ouvidos, minha nação. É de mim que vem a lei e o meu direito será uma luz para as nações...» (Is 51,1-4).

Este trecho já não parece tão negativo para os habitantes locais e dirige-se, sobretudo, aos «retornados» («vós, que procurais a justiça e buscais Javé»). Convida-os a terem em consideração o «patriarca» que não apenas não se encontra só – mas é mencionado juntamente com Sara –, como ainda é apontado como «pai» de todos os israelitas («Sara que vos deu à luz»: tanto aos «retornados» como aos habitantes do país), e objecto da «bênção» e «promessa» divinas. Se os «retornados» forem condescendentes (e isto parece ser um apelo à reconciliação entre os dois grupos que se afrontam), então, a terra – «Sião», «estas ruínas» – deixará de ser um «deserto», para se tornar num paraíso; e a lei não será um exclusivo de alguns, mas «uma luz para as nações». Este texto de Isaías parece fazer alusão a uma fase mais adiantada da «tradição» de Abraão, em que se critica a visão exclusivista dos «retornados» e se aponta para uma perspectiva mais universal (e «ecuménica»).

De todos os modos, a primeira evocação de Abraão – nestes textos – está relacionada com o «dom» da terra (e respectiva promessa), um dos temas fundamentais do ciclo abraâmico, em Génesis 12-25. (Continua)

 

Porfírio Pinto



1 Cf. Mario LIVERANI, Más allá de la Biblia. Historia Antigua de Israel, Barcelona, 2005 (original italiano de 2003).

2 Cf. Ronald HENDEL, Remembering Abraham: Culture, memory, and history in the Hebrew Bible,Oxford, 2005.

[3] Cf. Thomas Römer, «Les récits sur Abraham», in M. Quesnel e Ph. Gruson (eds.), La Bible et as culture. Ancient Testament, Paris, 2000, pp. 90-100.

Publicado por Re-ligare às 11:40
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