Sexta-feira, 6 de Julho de 2012

Na peugada de Abraão (2)

Abraão, Hebron e os 'am ha-ares


O estudioso alemão Albrecht Alt foi o primeiro a chamar a atenção para o facto das tradições de Abraão terem o seu berço na região de Hebron, assim como as de Isaac se prendem a Bercheba e as de Jacob, a Betel. Em sua opinião, estas diferentes tradições patriarcais tiveram uma génese independente umas das outras e, só mais tarde, graças à acção dos redactores do Pentateuco (o javista e o eloísta), elas seriam unidas, dando origem a uma narrativa única dos antepassados de Israel, cimentada pelas genealogias. Isso teria acontecido depois da chegada do «javismo», em que Javé viria a substituir – como o «Deus dos pais») – os «deuses dos antepassados», de que subsistem alguns vestígios em Génesis: o deus-Linhagem de Isaac (o Pachad de Gn 31,53)1 ou o Poderoso de Jacob (o 'Abir de Gn 49,24).


A Hebron bíblica

O livro do Génesis situa, claramente, as «tradições» de Abraão na região de Hebron: o patriarca (antepassado) está instalado junto aos carvalhos de Mambré, cerca de Hebron (cf. Gn 13,18; 18,1), tem relações de vizinhança com as populações em torno ao Mar Morto (Gn 18-19) e a sepultura que adquiriu para sua mulher fica em Macpela, em face de Mambré (Gn 23; 25,9 passim). Estes topónimos – Mambré (que significa «engordar, tornar fértil, rico») e Macpela (ou seja, «duplo») – apenas estão presentes no livro do Génesis. Um outro topónimo, mais frequente, é Qiryat Arba (ou seja, «cidade dos quatro»)2, mencionada, para além de Génesis (Gn 23,2 e 35,27), no contexto da reconquista (cf. Nm 13,22; Js 14,13-15; 15,13s) ou no início do reinado de David (cf. 2Sm 2,1-4).
A cidade de Hebron tem uma longa história, testemunhada pela arqueologia do sítio, e que remonta já ao terceiro milénio antes de Cristo (nos primórdios da urbanização). Porém, apenas em duas ocasiões a cidade teve uma real importância no contexto da história levantina. A primeira vez foi na Idade de Bronze Médio, entre os séculos XVIII e XVI a.C., altura em que era uma importante cidade fortificada do sul do Levante, talvez pela sua localização na montanha de Judá. Essa importância foi decrescendo nos séculos seguintes e a cidade só voltaria a ganhar dinamismo um milénio depois, precisamente entre os séculos VIII e VI a.C., ou seja, no período que precedeu o exílio. A descoberta de grandes jarras para armazenamento de produtos agrícolas (nomeadamente, vinho, azeite e sementes), com o selo real – e as inscrições «lmlk» («para o rei») e «Hebron» –, fazem pensar que a cidade tenha sido um dos quatro centros administrativos (juntamente com Socoh, Ziph e «MMST», que ainda não foi identificada) de recolha de produtos, para tempo de crise – no período que antecedeu as campanhas de Senaqueribe em Judá. Na altura do exílio, Judá perdeu o controlo sobre Hebron que, durante o período persa, terá sido anexada à Idumeia.
A importância económica de Hebron no período imediatamente anterior ao exílio, leva-nos a pensar numa expressão bíblica, com um cariz técnico: 'am ha-ares («o povo da terra/país»). Antes de adquirir o sentido genérico de «rústico», «incivilizado», «ignorante» – que encontramos no Novo Testamento –, a expressão 'am ha-ares (no singular) teve um significado «técnico», para referir a aristocracia agrária, no período em torno ao exílio (antes, durante e imediatamente depois). Encontramos a expressão quer nos escritos deuteronomistas (particularmente em 2 Rs 11; 21-23-24; 23,30) e afins (cf. Jr 34,19), em que esta aristocracia surge como suporte da monarquia judaica, quer noutros escritos (cf. Gn 23,7.12-13; 42,6; Ex 5,5; Nm 14,9), em que se alude à mesma aristocracia agrária de outros povos (por exemplo na história de José, em Gn 37-50), ou ainda em textos legislativos sacerdotais (cf. Lv 4,27; 20,2.4).


Os 'am ha-ares e a figura de Abraão

Por causa da polémica que o profeta Ezequiel enceta contra estes 'am ha-ares, somos levados a crer que Abraão era uma figura identificativa para este grupo.
Efectivamente, o profeta Ezequiel é muito crítico em relação a esta aristocracia rural, que ele acusa de injustiça de todo o género (cf. Ez 22,29) e que, face aos «retornados» da golah (isto é, da «dispersão» babilónica), reclama o direito de posse da terra, invocando a seu favor a figura tutelar de Abraão: «Abraão estava só e recebeu o país em herança» (Ez 33,24). Como dissemos anteriormente, é a primeira vez que este personagem surge nos profetas e, precisamente, num contexto pós-exílico! Seria uma figura autóctone (pois «recebeu o país em herança»), bem conhecida de todos, mesmo dos exilados retornados (pois Ezequiel não se dá ao trabalho de o apresentar). Mas que histórias (de Abraão) seriam essas, conhecidas de todos?
Na exegese bíblica existe um certo consenso para afirmar que o pequeno ciclo «Abraão-Lot» (Génesis 13; 18-19) estaria na origem do grande ciclo do patriarca. O «substrato» mais antigo do capítulo 13 do livro do Génesis é particularmente elucidativo do nosso propósito3:

Abrão era muito rico em rebanhos, prata e ouro. Lot (...) possuía, igualmente, gado menor, gado maior e tendas. E houve um conflito entre os pastores dos rebanhos de Abrão e os pastores dos rebanhos de Lot. (...)
Abrão disse a Lot: «Peço-te que entre nós e entre os nossos pastores não haja discórdia, pois somos irmãos. Olha toda essa região diante de ti. Separemo-nos. Se fores para a esquerda, irei para a direita; se fores para a direita, irei para a esquerda.»
Lot ergueu os olhos e viu toda a circunscrição do Jordão, que era inteiramente irrigável – antes de Javé ter destruído Sodoma [e Gomorra] –, o distrito era como o jardim de Javé, como a terra do Egipto, estendendo-se até Soar. Lot escolheu para si toda a circunscrição do Jordão e dirigiu-se para o oriente e ergueu as suas tendas até Sodoma. Ora, os habitantes de Sodoma eram muito perversos e pecadores contra Javé. Com as suas tendas, Abrão foi residir junto aos carvalhos de Mambré, próximo de Hebron (Gn 13, 2.5.7-11a.12-13.18).

A riqueza de Abraão descrita neste trecho («rebanhos, prata e ouro») não é, propriamente, a riqueza de populações seminómadas, mas pode sê-lo de ricos proprietários rurais, vivendo numa época de grande prosperidade – como seria o caso durante os reinados de Ezequias e Manassés (cf. 2 Rs 20,13).
Em segundo lugar, é Abraão quem recebe a terra, tal como era expresso no texto de Ezequiel: «Abraão estava só [supõe-se a separação de Lot] e recebeu o país em herança.» Abraão é, claramente, uma figura autóctone. E, aqui, não há outro conflito senão o conflito em torno à posse da terra (o problema da descendência é posterior)?
Por último, a figura de Abraão que transparece neste texto é a de uma pessoa pacífica e negociadora, uma caracterização que se coaduna perfeitamente bem com a situação política da altura do exílio, propícia a alimentar conflitos pelo comportamento dos povos vizinhos de Judá: primeiro, participando na ofensiva babilónica contra o rei de Judá (veja-se o papel de Amonitas e Moabitas em 2Rs 24,2); depois, a participação dos Edomitas na destruição de Jerusalém, facto que está na origem da polémica anti-edomita que encontramos em alguns escritos proféticos e na gesta de Jacob (cf. Sl 83,9).
Porfírio Pinto
Publicado por Re-ligare às 11:43
Link do post | Comentar | Favorito
1 comentário:
De JERRI ALMEIDA a 29 de Julho de 2012 às 14:36
Prezados, atualmente estou pesquisando sobre a história da Fé no Ocidente. Poderiam me sugerir algumas indicações bibliográficas? Abraços.

Comentar post

.Mais sobre Ciência das Religiões

.Pesquisar

.Posts recentes

. Ψυχή, Psychē e Fado

. A PRESENÇA AUSENTE (três)...

. A CULTURA QUE NOS REDEFIN...

. Música e Emoções - Romant...

. Biomusicologia – Definiçã...

. Natal, naTAO

. Encontro com Manuel Frias...

.Arquivos

.tags

. todas as tags

.Links

.Links

blogs SAPO

.subscrever feeds