Segunda-feira, 6 de Agosto de 2012

Na peugada de Abraão (3)

 

Etiologias e histórias populares

 

 

 

Um dos autores mais influentes na exegese bíblica do século XX – particularmente no que toca às narrativas patriarcais – foi Hermann Gunkel[i], que inicia o seu comentário ao livro do Génesis (1903) com a famosa constatação: «O livro do Génesis é uma coleção de lendas [Sagen].» Segundo ele, os vários ciclos patriarcais são compostos de pequenas narrativas populares independentes (Einzelsagen) – umas de tipo etiológico e outras, etnológico – que, numa fase pré-literária (oral), circulavam entre famílias, no quadro tribal do antigo Israel. Só posteriormente, e graças aos recoletores/contadores de histórias, foram agrupadas em ciclos narrativos (Sagenkränze), como por exemplo o ciclo Abraão-Lot (Gn 13 e 18-19).

Setenta anos mais tarde, num momento em que começavam as primeiras abordagens à Bíblia enquanto «narrativa», o estudioso canadiano John van Seters (Abraão na História e na Tradição, 1975) chama a atenção para o caráter popular (folktales) de algumas narrativas do ciclo de Abraão (como por exemplo Gn 12,10-20 e par. ou Gn 16,1-13), sobre as quais o autor javista – que, para Seters, era um «historiador»-teólogo do início da época persa – elaborou uma «história da origens» de Israel, à maneira dos primeiros historiadores gregos (os logógrafos: esses «antiquários» que recolhiam tradições antigas como meio de preservá-las e entreter os seus leitores).

 

 

Tradições orais e escritas acerca de Abraão

 

A dar razão a Gunkel e a van Seters, as primeiras narrativas escritas (que haveria que situar, de acordo com van Seters, no período do exílio na Babilónia) apoiam-se em elementos provenientes da oralidade.

Isso é perfeitamente detetável, em primeiro lugar, nos episódios em que a matriarca (Sara ou Rebeca) é colocada em perigo, seja no Egito (Gn 12,10-20) ou em Gerar (20,1-17 e 26,1-11). Trata-se, sem dúvida, de um motivo popular (folktale); isso é tanto mais evidente que, nestes episódios, nota-se muito pouca atividade redatorial (voltaremos a eles numa outra reflexão).

Depois, os nascimentos de Ismael (16,1-13) e de Isaac (18,1a.10-14; 21,2.6-7) são, claramente, narrativas biográficas, onde o trabalho redatorial é mais evidente, sendo utilizadas por várias fontes (sacerdotal e não-sacerdotal). O seu interesse é explicar os contactos entre grupos: os habitantes das montanhas de Judá (abramitas) com os grupos árabes (ismaelitas) e os grupos do vale de Bercheba (isaaquitas). E o mesmo poderíamos dizer ainda dos nascimentos de Amon e Moab (cf. 19,30-38).

Depois temos algumas anedotas de tipo etiológico e etnográfico, inseridas numa narração mais global: a disputa dos pastores de Abraão e dos pastores de Lot (cf. 13,5-9), que explica a divisão de um território entre populações vizinhas e que é um motivo recorrente (cf. também 36,6-8); ou, do mesmo modo, a disputa a propósito da construção de poços (cf. 21,25s; 26,15-22); mas também a transformação da mulher de Lot numa estátua de sal (cf. 19,26), para explicar certas formações rochosas do Mar Morto; ou a menção de Soar (cf. 19,17-22.23.30), para explicar a existência de um único lugar habitável em torno ao Mar Morto.

Por fim, narrativas de caráter mitológico: a aparição de três personagens a Abraão, em Mambré (cf. 18,2s), pode fazer alusão aos três antepassados divinizados de Hebron, referidos noutras passagens bíblicas (os conhecidos filhos de Anac: Chechai, Aiman e Talmai; cf. Nm 13,22; Jos 15,14; Jz 1,10), a não ser que a narrativa exílica/pós-exílica já faça eco de temas da mitologia grega (acerca da visita dos deuses) como pensam alguns; ou ainda a alusão a um mito de destruição das cidades da Planície pelo deus solar (destruição pelo fogo; cf. 19,24).

 

Mambré e Sodoma

 

Seja como for, tradicionalmente, explicava-se o desenvolvimento do ciclo de Abraão a partir de uma antologia de textos lendários em torno de Abraão e Lot (a coleção Abraão-Lot: Gn 13; 18-19), usada posteriormente pelo autor javista. Efetivamente, o capítulo 13 parece antecipar os capítulos 18-19: 1) a instalação de Lot em Sodoma (v. 12; cf. 19,1) e de Abraão em Mambré/Hebron (v. 18; cf. Gn 18,1); 2) o pecado de Sodoma (v. 13; cf. 18,20-21; 19,4-11); 3) a destruição da(s) cidade(s) (v. 10; 19,23-26). Ou seja, existe uma relação íntima entre estes capítulos.

A aplicação dos métodos de análise narrativa aos mesmos mostra, porém, que não estamos unicamente perante uma antologia de textos, mas antes diante de uma narrativa bem estruturada e com uma finalidade precisa: tratar do tema da hospitalidade. Os capítulos 18-19 estão estruturados em paralelo:

 

Cap. 18,1 (Título: Javé aparece em Mambré)                                      cap. 19 (Visita a Lot)

 

vv. 1b-2a: chegada dos visitantes                                                            v. 1a: chegada de dois anjos

vv. 2b-8: hospitalidade de Abraão                                                           vv. 1b-3: hospitalidade de Lot

vv. 9-15: promessa de um filho                                                                vv. 4-9: agressão dos habitantes

                                                                                                                        vv. 10-14: os convidados salvam Lot

                                                                                                                        e a sua família; mas não os genros...

vv. 16: partida dos visitantes                                                                    vv. 15-22: fuga de Sodoma

vv. 17-21: decisão de destruir Sodoma                                                   vv. 23-26: destruição de Sodoma

vv. 22-32: intercessão de Abraão                                                             vv. 27-29: intercessão de Abraão

v. 33: Abraão regressa a casa                                                                   v. 30: Lot vai para as montanhas

[nascimento de Isaac (cf. 21,1.6-7]                                                         vv. 31-38: origem de Moabitas e Amonitas

 

Nestes textos – a partir já do capítulo 13 (na «camada» mais antiga, que vimos anteriormente) – chama a atenção a ausência das «promessas patriarcais» (a promessa de terra e a promessa de descendência). Abraão, como dissemos, parece ser um personagem autóctone e, deste modo, não faria sentido falar de promessa da terra (porque ele já estava instalado nessa terra). Quanto à promessa de descendência, várias tradições (genealogias segmentárias) faziam dele pai de Ismael (cf. Gn 16), para relacioná-lo com as tribos árabes, e de Isaac (cf. Gn 18 e 21,1.6-7), relacionando-o com as populações do vale de Bercheba.

O que sobressai nestes textos, contudo, é uma certa tensão entre grupos aparentados: o conflito térreo entre pastores de Abraão e pastores de Lot (Gn 13) e a violência dos habitantes de Sodoma para com os visitantes de Lot (Gn 19). Se estes textos foram escritos por altura do exílio, eles podem muito bem refletir a tensão entre Judá e os seus vizinhos transjordânicos (Amon, Moab e Edom), colaboradores das tropas babilónias invasoras (cf. 2Rs 24,2; Abd 10-14). Durante o período babilónico e persa, aliás, Edom ocuparia largos territórios do Negueve judaico, chegando mesmo até Hebron (no que veio a constituir a Idumeia).

  Os capítulos 18-19 desenvolvem uma narrativa que põe em contraste a hospitalidade de Abraão, recompensado com o anúncio do nascimento de um filho, e a falta de hospitalidade dos habitantes de Sodoma, castigados através da destruição da sua cidade e o seu próprio extermínio. Ao contrário do que defendeu um certa tradição cristã (sobretudo a partir de Pedro Damião), o «pecado de Sodoma» não é de caráter sexual, mas de agressão ao forasteiro e refugiado – ou seja, uma falta contra a hospitalidade (uma interpretação que ainda está presente nos textos evangélicos; cf. Mt 10,15; 11,23-24; Lc 10,12)[ii].

 

Porfírio Pinto



[i] Hermann Gunkel (1862-1932) foi um professor protestante do Antigo Testamento e um dos personagens mais representativos da chamada «Escola da História das Religiões», interessada pelo estudo comparado dos textos religiosos da Antiguidade (para estes autores, as ideias bíblicas são produto do seu meio cultural, ou seja, a religiosidade do Médio Oriente antigo).

[ii] Bibliografia sucinta: Para a génese do ciclo de Abraão, ver curso de Thomas RÖMER no College de France: La Construction d'un ancêtre – La formation du cycle de Abraham, Curso no Colégio de França, 2009-2010 (online: http://www.college-de-france.fr/site/thomas-romer/audio_video.jsp). Génesis 18-19: cf. a análise narrativa de Robert Ignatius LETELLIER, Day in Mamre, Night in Sodom: Abraham and Lot in Genesis 18 and 19, Leiden, Brill, 1995; e, sobre a questão da hospitalidade/«pecado de Sodoma», ver Michel CARDEN, Sodomy: A History of a Christian Biblical Myth, Londres/Oakville, Equinox, 2004.

Publicado por Re-ligare às 15:35
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