Quinta-feira, 20 de Setembro de 2012

Na peugada de Abraão (4)

 

Uma figura exódica e ecuménica

 

Em reflexões anteriores, vimos que a figura de Abraão era, provavelmente, um personagem autóctone da região do Negueve (inscrições egípcias), venerado em Hebron (onde se situa o seu túmulo) e objeto de várias histórias de caráter popular e etiológico (nomeadamente as que o relacionavam com os agaritas/ismaelitas e os isaaquitas).
No final do período neobabilónio (após o exílio), esse personagem encontrar-se-á no cerne de um «debate teológico» acerca da legitimidade sobre a posse da terra (cf. Ez 33,23-29; Is 51,1-8; 63,7-64,11), que conduzirá, pouco a pouco, à formação das narrativas do Pentateuco. E tudo indica que foi a «escola» sacerdotal, com o intuito de reconciliar diferentes tradições, que pôs em marcha esse processo.
O personagem de Abraão no «escrito sacerdotal» transforma-se numa figura «exódica» (oriundo da Mesopotâmia) e «ecuménica» («pai de inúmeros povos»).


A «origem» mesopotâmica

Quando o livro do profeta Ezequiel refere Abraão (cf. Ez 33,23-29), este aparece relacionado com os não-exilados, que o evocam para legitimar a sua propriedade sobre a terra, contra as reivindicações dos «retornados» da golah («deportação»). O profeta Ezequiel faz-se porta-voz dos interesses dos «retornados» e desqualifica os «habitantes do país» (a aristocracia de Yehud). O mesmo já não acontece no Deutero-Isaías (cf. Is 51,1-8), que é um claro convite à reconciliação entre «retornados» e «habitantes do país». O texto, aliás, parece fazer alusão a uma fase mais adiantada das «tradições» acerca de Abraão, criticando a visão demasiado «exclusivista» dos primeiros retornados e apontando para uma perspetiva mais universal, próxima daquela que encontramos no «escrito sacerdotal» .
Os escribas sacerdotais incorporaram no seu «mito das origens» a figura de Abraão, fazendo dela uma peça-chave da sua teologia. Em primeiro lugar, numa perspetiva de reconciliação entre os grupos dos «retornados» e os habitantes do país, os escribas sacerdotais fazem de Abraão uma figura «exódica», proveniente da Mesopotâmia (de modo a que os «retornados» se identifiquem com ela) , mas que recebeu a terra de Canaã como dom de Javé (justificação dos «habitantes do país»):

Tera tomou seu filho Abrão, seu neto Lot, filho de Haran, e sua nora Sarai, mulher de Abrão, seu filho, e partiu com eles de Ur, na Caldeia, e dirigiram-se para a terra de Canaã. Chegados a Haran, aí se fixaram. Tera viveu duzentos e cinco anos, e morreu em Haran.
Quando saiu de Haran, Abrão tinha setenta e cinco anos. Tomou Sarai, sua mulher, e Lot, filho do seu irmão, assim como todos os bens que possuíam e os escravos que tinham adquirido em Haran, e partiram todos para a terra de Canaã, e chegaram à terra de Canaã. A terra não era bastante grande para nela se estabelecerem os dois, porque os bens de ambos eram avultados. Separaram-se um do outro. Abrão fixou-se na terra de Canaã, e Lot nas cidades do vale, no qual ergueu as suas tendas até Sodoma (Gn 11,31-32; 12,4b-5; 13,6.11b-12).

Depois da instalação em Canaã, o autor evoca brevemente o nascimento dos dois filhos de Abraão: primeiro, Ismael (que lhe é dado por Agar; cf. Gn 16,3.15-16) e, depois, Isaac (o filho de Sara; cf. Gn 21,1b-5). Os dois textos, postos em paralelo, não fazem senão sublinhar a paternidade abraâmica quer de Ismael quer de Isaac – efetivamente, é Abraão quem dá o nome aos dois filhos (contrariamente à versão subjacente a 16,11, por exemplo). Mas, sobretudo, o nascimento dos dois filhos enquadra a passagem mais importante (e central) do documento sacerdotal: a Aliança com Abraão (cap. 17).


A aliança (ecuménica) abraâmica

A análise do discurso de aliança de Javé, em Génesis 17, revela alguns elementos curiosos:
1) Javé (sob o nome de El Shaddai) dá/estabelece uma aliança com Abraão, que envolve várias promessas (fecundidade/multiplicação, terra de Canaã, bênção divina) e um sinal concreto (a circuncisão);
2) na hierarquização das promessas, em primeiro lugar vem a promessa da fecundidade/multiplicação, que implica até a mudança de nome do «patriarca»: Abraão = «pai de inúmeras nações»; a fecundidade/multiplicação tem a ver, antes de mais, com «nações e reis», e não com filhos, ou seja, o autor alude à grande «família abraâmica», o que faz deste personagem, realmente, uma figura «ecuménica»;
3) nessa hierarquização, vem depois a referência à raça, com quem é estabelecida uma «aliança eterna» (v. 7). Podia pensar-se naqueles que nascem de Abraão e que são marcados pelo signo da circuncisão (cf. v. 13b). Porém, mais longe (vv. 19 e 21), percebe-se que não: embora Ismael esteja envolvido na aliança abraâmica, a «aliança eterna», no entanto, é estabelecida apenas com Isaac (ou seja, com o povo de Israel; cf. infra);
4) só depois vem a promessa do dom da terra, que é feito não só a Abraão, mas também à sua descendência; ou seja, o autor procura conciliar os dois «partidos» em disputa: os não-exilados, que dizem que a terra foi dada a Abraão, e os «retornados» da golah, para quem a terra será dada apenas à sua descendência (cf. Is 51,1-4). Na «teologia» sacerdotal, todavia, a terra não é dada em posse, mas em «usufruto» (perpétuo): a terra é de Javé e os membros do seu povo são como emigrantes ou hóspedes no país (guerim; cf. Lv 25,23);
5) a culminar o discurso vem a promessa de um filho, nascido de Sara (promessa que antecipa o capítulo 18). O autor sacerdotal pressupõe já a narrativa do nascimento de Isaac, antecipando-a, bem como o riso explicativo do nome (aqui, é Abraão que sorri e não Sara, como em Gn 18,12). Do mesmo modo, ele pressupõe a narrativa do nascimento de Ismael, na família abraâmica (como é evocado no capítulo 16). Contudo, apenas Isaac pode ser considerado o «herdeiro da promessa» (cf. v. 19). Ismael é abençoado e tornado fecundo, mas não é com ele que Javé estabelece uma «aliança eterna».
Segundo a teologia sacerdotal, Deus escolheu dentre a descendência de Abraão uma etnia específica (= Isaac), isto é, os «filhos de Jacob/Israel», para ser o seu povo e para «habitar» no meio deles (cf. Ex 6,2-8; 29,43-46), fazendo de Israel uma «nação sacerdotal».


O túmulo do patriarca

Os textos sacerdotais acerca de Abraão culminam com a morte de Sara e Abraão; e, sobretudo, com a compra de um terreno funerário em Macpela (cf. cap. 23), um elemento-chave nas restantes narrativas patriarcais (cf. sepultura de Isaac e de Jacob).
Este elemento, contudo, deve ser lido numa perspetiva da ideologia real (já presente, alusivamente, em Génesis 17,6.15: «terás reis por descendentes»…). Note-se que o terreno comprado por Abraão não é um terreno qualquer, mas um terreno funerário, que se torna símbolo «ancestral» (cf. Gn 23,19; 25,8-10; 35,29; 49,29-32; ver ainda 1Rs 21,3-4). Assim:
1) O gesto de Abraão é bem significativo: não exige um «direito» (divino) sobre um território/país, mas é apenas a compra de um pedaço de terra, numa «extremidade», para sepultar a sua morta. Deste modo, também os «retornados» da golah não podem exigir um direito à terra que encontram ocupada por «outros» (os hititas; cf. Ez 16,3) ;
2) Podíamos pensar que este texto revela uma atitude «exclusivista» ou de separação, por parte de Abraão, pois os hititas querem que ele viva no meio deles e enterre a sua morta nos seus túmulos (cf. v. 6), enquanto que Abraão insiste na aquisição de um terreno, numa «extremidade» do campo de Efron (cf. vv. 8-9), e não o aceita gratuitamente (cf. v. 13). Porém, o acento do texto está na «posse» de um pedaço de terra que pode ser transmitida em herança (cf. vv. 18-19);
3) Este facto permite ao autor escrever, mais adiante: «Abraão... foi reunir-se aos seus» (25,8; cf. também 35,29; 49,33), uma fórmula paralela à usada com os reis da dinastia davídica: «...foi juntar-se a seus pais» (1Rs 11,43; 14,31; etc.). Este aspeto reflete, portanto, a ideologia real de que falávamos. Abraão é colocado a par de David, o fundador da dinastia que reinara em Judá .

 

Porfírio Pinto

 

Publicado por Re-ligare às 15:17
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