Terça-feira, 9 de Outubro de 2012

Na peugada de Abraão (5)

Episódios antiexódicos


Apesar do optimismo e «universalismo» dos meios sacerdotais, que fazem de Abraão uma figura «exódica» e «ecuménica», as perspectivas «exclusivistas» e xenófobas de alguns elementos provenientes da golah babilónica persistiam. Na linha do que Ezequiel já afirmara (cf. Ezequiel 33,23-25.28-29), este grupo não aceitava de modo algum a figura tutelar de Abraão – ou até mesmo a de Jacob (senão veja-se Isaías 63,16) –, opondo-lhe a atitude de obediência à «lei» divina, característica do «verdadeiro Israel», e talvez também a figura do «profeta» Moisés (que já havia sido incorporado ao «escrito sacerdotal»), daquele que viria a ser o herói identificativo da diáspora e por quem o «verdadeiro Israel» recebeu a lei divina (ver Deuteronómio).
Os meios afectos a Abraão reagiram com ironia a esses grupos, criticando as «tradições» do êxodo. Dois episódios – a descida de Abraão ao Egipto (Génesis 12,10-20) e a expulsão de Agar, a escrava egípcia de Sara (Génesis 16,1-14, grosso modo) – são disso um testemunho evidente.


Abraão no Egipto

O episódio narrado em Génesis 12,10-20 é curioso: Abraão, mal chega a Canaã, é de imediato «obrigado» a descer ao Egito – por causa da situação de miséria, provocada pela fome –, para aí «viver/residir algum tempo». Esta situação é idêntica à que encontramos na «história de José» (cf. Génesis 41,56s), que obriga os filhos de Israel a «descer ao Egito», para aí viverem também por um tempo (caps. 46-47). Depois, na continuação da narrativa, Sara, a mulher («de belo aspecto») de Abraão, é desejada pelo faraó, que a toma no seu harém, o que lhe provoca «tremendos castigos» da parte de Javé e leva o faraó a «expulsar» o patriarca.
O(s) autor(es) desta narrativa lança(m) mão a vários topos bem conhecidos: o Egipto como lugar de refúgio, por motivos políticos ou socioeconómicos; a mulher vítima do desejo dos poderosos; a crise que daí advém, pois é rompido o equilíbrio da maat (da ordem do universo).
No quadro do Médio Oriente levantino, o Egipto é tido como uma terra fértil (cf. Deuteronómio 11,10) e «abençoada» (um «jardim de Javé», de acordo com Génesis 13,10), procurada precisamente em épocas de fome e de miséria. É este último motivo que é usado para «fazer» descer Abraão ao Egipto como ger, isto é, como «emigrante», «refugiado» ou «estrangeiro residente». É assim que é considerado Israel nas tradições do êxodo: «estrangeiro residente» (cf. Êxodo 22,20; 23,9; Levítico 19,34; Deuteronómio 10,19; 23,8).
Este motivo introduz, depois, o tema seguinte: a «história popular» da mulher de belo aspecto (neste caso, além do mais, «disfarçada», porque se diz «irmã» do personagem principal), que é desejada por um personagem poderoso (ver também a história de David e Betsabé em 2Samuel 11). Porque se trata de uma mulher casada, a acção do faraó rompe com o equilíbrio das relações sociais e provoca uma «crise», e o «castigo» da parte de Javé.
O que chama mais a atenção, nesta narrativa, é a quantidade de vocabulário com paralelismo nas narrativas do êxodo: «descer ao Egito», em oposição à terminologia própria do êxodo, como «subida do Egito»; a alusão às pragas/castigos (o v. 17 usa a mesma raiz hebraica que encontramos em Êxodo 11,1); a concepção da saída do Egito como uma «expulsão» por parte do faraó (cf. Êxodo 12,33-36).
Esta contínua alusão às narrativas do êxodo é feita de maneira tremendamente irónica. O faraó acolhe amistosamente Abraão e os seus, e, se toma Sara no seu harém, foi porque fora enganado (porque Abraão apresentara Sara como sua irmã); além disso, ele recompensara muito bem Abraão, o «irmão» de Sara. Quando a situação é reconhecida, o faraó reage de imediato à manifestação do deus de Israel, e não «endurece o coração» como o faraó do livro do Êxodo. E, por último, é generoso, pois não retira os bens que havia concedido a Abraão e que este leva consigo (cf. vv. 19-20), o que contrasta, gritantemente, com a «espoliação» dos egípcios pelos israelitas (cf. Êxodo 11,2 e 12,35).


Agar, a escrava egípcia

Relacionada com esta narrativa, está aqueloutra de Génesis 16 – a história de Agar –, com a qual partilha o género literário (o facto de ser um conto popular). A identificação de Agar como «escrava egípcia» (cf. v. 1) alude, provavelmente, à riqueza de Abraão em 12,16; e a esterilidade de Sara (cf. vv. 1-2) pode também ter a ver com o «castigo» infligido ao faraó em 12,17.
Mas é, sobretudo, a caracterização dos personagens que importa realçar. Sara, a israelita, maltrata Agar, a escrava egípcia: esta relação é, certamente, uma alusão irónica aos egípcios que maltratam os israelitas nas narrativas do êxodo. Depois, Agar é obrigada a fugir para o deserto, tal como os israelitas em Êxodo. No deserto, Javé (ou o Anjo de Javé) aparece a Agar: o que quer dizer que Agar, a Egípcia, é a primeira pessoa a encontrar-se com Javé, ainda antes de Moisés! Em seguida, o nome de Ismael é explicado pela atenção dispensada a Agar, por parte de Javé: «Javé escutou a tua miséria» (v. 11; cf. Êxodo 2,24, em que Javé escuta o grito/miséria do provo), embora etimologicamente o nome signifique simplesmente «[o deus] El escutou» (e não Javé). Finalmente, Agar, tendo visto Deus1, permanece em vida, à semelhança de Moisés (v. 13; cf. Ex 33,20).
Também neste episódio, como constatamos, as alusões às narrativas do êxodo são numerosas. Agar aparece como uma espécie de Moisés feminino, que encontra o «Anjo de Javé» no deserto (o lugar do encontro de Israel com o seu Deus, na tradição profética, retomada também nas narrativas do êxodo), recebendo deste mensageiro uma mensagem de libertação (cf. 16,11). Do ponto de vista teológico, a narrativa funciona como uma crítica ao «exclusivismo» de alguns grupos de judeus, provenientes da golah babilónica, crítica essa que podemos aproximar daquela que encontramos em Amós (cf. 9,7): a suposta observação da lei, por parte desses grupos, não lhes dá segurança alguma (de ter Deus do seu lado) ou direito algum (sobre a terra).

 

Porfírio Pinto

 

1 O texto masorético é confuso, provavelmente porque tentou corrigir uma passagem que julgava «herética». O grego dos LXX diz: «Agar invocou o nome de Javé que lhe falou, dizendo: “[Tu és] El que me viu.” Porque dizia: “Eu vi em face Aquele que me apareceu.”» Muitos comentadores observam que esta passagem faz alusão ao texto de Êxodo: «...ninguém pode ver-me em face e continuar a viver» (Ex 33,20).

Publicado por Re-ligare às 15:48
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