Quarta-feira, 28 de Novembro de 2012

Na peugada de Abraão 7


Reelaboração de textos e origem do midrache

 

A chamada «redação universalista» – e talvez, como já dissemos anteriormente, a edição de uma «proto-Tora» no final do séc. V a.C. – levou ao aparecimento de outras ações «redatoriais» no ciclo de Abraão, que assumia, cada vez mais, um papel identitário fundamental no Judaísmo nascente.
Alguns textos do ciclo de Abraão são sintomáticos do momento em que as «histórias» do patriarca de Hebron são unidas a outras narrativas patriarcais para formar o livro dos Génesis. Referimo-nos, nomeadamente, às genealogias, aos itinerários e às repetições/duplicados.
Por outro lado, alguns episódios menos favoráveis ao patriarca de Hebron são retomados, para «limar» algumas arestas da sua imagem, tornando-a mais consentânea com o seu novo estatuto de «pai na fé». Nestes novos episódios podemos pressentir a «origem» do género midráchico.


Itinerários, genealogias e repetições

Lendo a «história» de Abraão, apercebemo-nos que a maior parte dos episódios ocorrem no contexto espacial de Hebron/Mambré, onde o patriarca chega em Génesis 13,18. As poucas exceções são a viagem e estadia em Gerar (capítulo 20) e a viagem a Moriá, seguida da instalação em Bercheba (capítulo 22). Na verdade, os episódios acerca da morte de Sara e de Abraão (caps. 23 e 25 que, como vimos são de origem sacerdotal) decorrem ainda em Hebron, como se eles nunca tivessem deixado a região !
Contudo, para além destas «viagens» pela «diáspora», chama ainda a atenção o itinerário de início do ciclo (cf. Génesis 12,6-9 e 13,1.3-4). Os dois primeiros destinos – Siquém e Betel – correspondem aos mesmos lugares a que chegou Jacob, proveniente de Haran (cf. 33,18-20; 35,1-5), e precisamente com o mesmo comportamento: a construção de um altar a Javé e a invocação do seu nome. O texto alude, provavelmente, a uma ação cultual sem sacrifício (aquilo que acontece nas sinagogas), reservando este apenas para o templo de Jerusalém (sendo que o autor parece insistir já na centralidade do templo). Por outro lado, o terceiro destino – o Negueve – prepara a «descida» de Abraão ao Egito (cf. 12,10-20), mas também a releitura (ou, se quisermos, o midrache) deste mesmo episódio no capítulo 20 (cf. infra).
O autor destes itinerários parece comungar da ideologia «deuteronomista» (veja-se a alusão aos «cananeus», isto é, aos «habitantes do país» que praticam falsos cultos) , e «exclusivista»: «Darei esta terra à tua descendência», ou seja, aos «verdadeiros» filhos de Abraão – os retornados da dispersão babilónica. Mas o motivo principal parece ser, acima de tudo, a harmonização das diferentes narrativas patriarcais, para fazer delas um único «bloco», uma única «história».
A mesma preocupação está presente na «reescritura» da genealogia patriarcal (cf. 22,20-24) , fazendo de Jacob um «neto» de Abraão, e na repetição de certos motivos (os «duplicados»), como o do conflito entre pastores, já presente na história de Abraão-Lot (cf. 13,6-9) e que, agora, seria alargado à história de Jacob-Esaú (cf. 36,6-8); ou o da construção de poços, provavelmente originário das tradições concernentes a Isaac (cf. 26,15-33), e alargado à história de Abraão (cf. 21,22-34) .


Na origem do midrache

E observando o «fenómeno» dos duplicados, é interessante notar em alguns episódios o esforço de «releitura» de narrativas anteriores, para corrigir a perspetiva nelas contida. Encontramos isso no motivo da matriarca colocada em perigo (cf. 12,10-20; 20,1-17; 26,1-13) ou no episódio da expulsão de Agar (caps. 16 e 21), que já comentámos.
Vimos anteriormente que o motivo da descida de Abraão ao Egito, em que Sara é colocada em perigo, diante do desejo do faraó (12,10-20), era polemizar com as tradições do êxodo, apresentando uma visão positiva do faraó e do Egito (um texto, provavelmente, favorável à diáspora egípcia). O texto de Génesis 26,1-14 repete o motivo (mas, desta vez, com Isaac e Rebeca), para harmonizar os diferentes ciclos patriarcais , mas veicula a ideologia «deuteronomista» pró-golah, extremamente adversa ao Egito: «Não desças ao Egito, mas permanece no país que te indicarei» (26,2). Este texto, sem dúvida, conhece Génesis 12,10-20, e corrige-o (seria uma espécie de comentário midráchico àquele): a) evoca a fome da época de Abraão, que o levou a descer ao Egito, mas agora é Deus que intervêm para impedir que o patriarca desça àquele país (cf. Jeremias 43,2); b) a linguagem denuncia o redator: as palavras de Javé fazem um resumo da promessa a Abraão (cf. Génesis 12,1-3.6-9; 15; e 22); c) ao contrário de Génesis 12,10-20, não há necessidade de intermediário humano: o rei viu Isaac acariciar Rebeca (cf. v. 8); e Deus também não intervém; d) no final, não há falta («pecado» = linguagem deuteronomista; cf. v. 10), pois ninguém «toca» em Rebeca, como também não há castigo ou expulsão; além disso, a riqueza de Isaac é fruto do seu suor, e não um dom do rei. Resumindo, o episódio de 26,1-14, situado após o nascimento de Esaú e Jacob, tem por finalidade preparar a antiga narrativa de 27,1-42 (o roubo da bênção por Jacob): mostrar que o que está em jogo é, antes de mais, a transmissão da bênção do antepassado (patriarca), e é Jacob quem a recebe de Isaac.
Quanto a Génesis 20,1-17, trata-se, claramente, de um comentário midráchico a Génesis 12,10-20, que também conhece, certamente, Génesis 26,1-14. Tal como em Génesis 26, Abraão parte para a região do Negueve (que será o contexto dos episódios de Gn 20-22), permanecendo algum tempo em Guerar (literalmente, «o país de refúgio», pois o Egito já deixou de o ser).
O texto explica, em seguida, algumas questões levantadas por Génesis 12: a) o porquê e o modo como Javé «castigou» o rei (cf. 12,17): porque o que ele fez foi um «rapto» (cf. 20,2) e um adultério (v. 3), e Deus bem o avisou através de um sonho (v. 3); b) a situação de Sara: em 12,19 diz-se que Sara foi tomada por mulher; agora, sublinha-se que o rei não chegou a tocá-la (cf. 20,4) e, por isso, o rei clama a sua inocência (v. 4), fazendo mesmo alusão a um salmo (v. 5; cf. Salmo 24,4); c) Abraão é apresentado como profeta (cf. 20,7) e, como tal, pode interceder pelo rei (v. 8) – aliás, a «mentira de Abraão» (vv. 9-10; alusão a 12,18-19) não é verdadeiramente uma mentira, pois Sara é agora apresentada como meia-irmã de Abraão (vv. 12-13); d) o castigo secreto de 12,17 é agora explicitado: o rei e toda a sua casa ficaram estéreis (cf. 20,17-18); e) enfim, as riquezas de Abraão não provêm do dote (cf. 12,16), mas de uma recompensa (cf. 20,14), e Abraão não é expulso (v. 15).
Em resumo, estamos perante um texto tardio, de caráter midráchico, com uma teologia próxima do romance de José (Gn 37-50) e do livro de Jonas (onde se invoca a inocência dos pagãos e o temor de Javé).

                   

Porfírio Pinto

 

______________________

 

É um forte indício de que esses textos (Gn 20-22) são, claramente, pós-sacerdotais e relacionados com a «diáspora» judaica.
A este mesmo autor se deve também o acrescento em 13,7: «Os cananeus e os perizeus habitavam, então, aquela terra.» A lista dos povos que habitavam «Canaã» antes da instalação dos Israelitas é típica dos escritos deuteronomistas e é composta, mais frequentemente, por seis nomes: cananeu, hitita, amorreu, heveu, jebuaseu e periseu (cf. 3,8.17; 23,23; 33,22; 34,11; Dt 20,17; Js 9,1-2; 11,3; 12,8; Jz 3,5; 1Rs 9,20; 2Cr 8,7-10; Ne 9,8).
Nesta reelaboração genealógica constata-se a predileção da Bíblia pelo número doze, no quadro da família abraâmica: as doze tribos aramaicas (22,20-24), os doze filhos de Ismael (25,12-16), os doze filhos de Jacob/Israel (35,23) e os doze filhos de Esaú (36,10-14).
Esse caráter repetitivo envolve ainda outros episódios mais difíceis de datar, como o motivo da mulher encontrada junto a um poço, presente nas histórias de Abraão (cap. 24), de Jacob (cap. 29) e de Moisés (cap. 2 de Êxodo).
É, talvez, neste sentido que há que compreender também a alusão ao seu enriquecimento (vv. 12-14), que provoca a inveja dos Filisteus, tal como o de Jacob para os filhos de Labão (cf. 30,25-43).

Publicado por Re-ligare às 14:05
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