Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2013

Na peugada de Abraão 8

Reescritura da Bíblia, na Bíblia!


Neste nosso percurso na «peugada de Abraão», deparamo-nos agora com dois textos algo «insólitos»: os capítulos 14 e 15 de Génesis. E insólitos porquê? Porque nunca se deixaram «classificar» convincentemente pelos exegetas e porque apresentam, realmente, algo de extraordinário.
Do ponto de vista da crítica das «fontes», o capítulo 14 estava longe dos estilos «javista» ou «eloísta», sendo considerado como uma «tradição independente» – com «coisas antigas» e outras «fantasiosas» (essa «guerra mundial» em que se vê envolvido Abraão) –, e que fora introduzido tardiamente no seu atual contexto (von Rad). Quanto ao capítulo 15, sobressaía sobretudo o seu caráter construto, unindo duas tradições precedentes: uma eloísta (vv. 1-6) e outra «javista» (vv. 7-18), embora esta atribuição não fosse totalmente clara, já que havia vestígios de releituras deuteronomistas (cf. vv. 13-16.19-22) e sacerdotais (vv. 7.9).
A descoberta dos manuscritos de Qumran veio, talvez, trazer alguma luz à compreensão destes textos. A par de «manuscritos bíblicos» (isto é, dizendo respeito aos livros que vieram a constituir o cânon bíblico hebraico), há uma série de outros manuscritos que os especialistas chamam de «reescritura bíblica» («rewritten bible», em inglês). São novas criações literárias, imbricadas nos textos bíblicos anteriores, e que constituem uma espécie de desenvolvimento dos mesmos. Ora, este tipo de reescritura pode ter começado já no «período bíblico», pelo que os capítulos que tratamos podem ser considerados como dos primeiros exemplos de «reescritura bíblica» . O seu caráter tardio oferece, hoje, cada vez menos dúvidas.


Génesis 14: Abraão e Melquisedec

Originalmente, Génesis 14 parece ser um texto independente, que fazia eco de uma tradição que tinha Abraão como um «chefe guerreiro» (vv. 1-11), um pouco à maneira de Josué, e ainda como «salvador» (vv. 12-17.21-24), à maneira dos «juízes» de Israel. Este texto viria a fazer parte da Tora porque, a um determinado momento, incorporou o episódio em que Abraão se dirigia junto de Melquisedec , o rei-sacerdote de Salém (= Jerusalém), para pagar o dízimo (vv. 18-20). Deste modo, o texto passou a legitimar o poder do sumo sacerdote (provavelmente, uma alusão ao poder deste no período asmoneu), e um convite a submeter-se ao sacerdócio de Jerusalém, pagando-lhe o dízimo. É curioso que, neste episódio, os dois personagens (Abraão e Melquisedec) agem como se não pertencessem ao mesmo povo! Será esta também uma mensagem dirigida aos membros da diáspora, como pensam alguns?
A primeira parte do capítulo (vv. 1-11) parece ser um relatório de guerra, semelhante ao relatos de campanha militar assírios. Na origem, pode tratar-se de uma tradução em hebraico de um antigo relatório militar (um texto «escolar», portanto, proveniente dos meios escribais), associado, num segundo momento, a uma tradição (parabíblica) que apresentava Abraão como «juiz» (vv. 12-17.21-24). A tensão entre os versículos 10 (morte do rei de Sodoma) e 17 (onde aparece ainda vivo!) seria testemunha da independência dos dois trechos. O episódio do encontro entre Abraão e Melquisedec, imbricado no relato anterior, fez com que o texto ganhasse um interesse «bíblico», sendo incorporado nas narrativas patriarcais, provavelmente ao mesmo tempo que o capítulo 15.
Nesse momento, o texto passou a fazer «eco» de outros livros bíblicos. A inclusão dos versículos 5-6, que fazem eco de Deuteronómio 2,9-12.20, apresenta Abraão como um precursor dos «salvadores» (juízes) de Israel. Depois, a sua submissão do «pai» Abraão ao sacerdote Melquisedec, faz eco do conflito do dízimo em Neemias 10-12 (e Malaquias 3), reforçando a importância desta instituição judaica.


Génesis 15: um resumo da Tora

No capítulo 15 também se percebem dois temas distintos, apresentados em paralelo: o tema do herdeiro (vv. 1-6) e o tema da posse do país (vv. 7-21); afinal, os dois temas fundamentais do ciclo abraâmico, como que apresentados aqui em síntese.
O primeiro tema é apresentado num enquadramento claramente profético: como acontece com os grandes profetas de Israel, Abraão recebe a «palavra do Senhor» (15,4), no contexto de uma «visão» (15,1). E este «oráculo profético» a Abraão faz eco de dois outros textos bíblicos: em primeiro lugar, do oráculo de salvação de Isaías 7,3-9, e que suscita evidentemente a confiança/fé de Abraão (15,6); depois, em relação à questão do «herdeiro» (15,2-3), estabelece um paralelo com a figura de David, e o trecho de 2Samuel 7,12, pois é Deus quem proverá a descendência a um e a outro.
O segundo tema é apresentado no quadro de uma aliança, que não é um mero duplicado daquela que encontramos em Génesis 17. Aliás, o modo de realização desta aliança alude a um texto profético: Jeremias 34,18. E mais: o contexto da mesma (15,7) remete para a epopeia da libertação do Egito e a consequente posse da terra (cf. Lv 25,38), ou seja, a narrativa fundamental da Tora. Neste sentido, os versículos 13-16 podem, realmente, ser vistos como um «sumário» da Tora (T. Römer), mas no trecho completo não faltam alusões a outros textos da mesma Tora:
– primeiro, às migrações patriarcais (v. 7), à teofania no Sinai (vv. 17-18) e à instalação na terra prometida (v. 16);
– depois, aos textos cúltico-legais sacerdotais (v. 9), e à(s) aliança(s) (v. 18);
– por último, a lista dos povos (vv. 19-21) de clara influência deuteronomista, mas bastante mais tardia, já que menciona 10 povos, em vez dos tradicionais 7 (cf. Dt 7,1: hititas, guirgaseus, amorreus, cananeus, periseus, heveus e jebuseus).
Ou seja, estamos perante um texto que antecipa o conjunto das narrativas da Tora (ou mesmo do Hexateuco) e pressupõe, até, os livros proféticos e os códigos legislativos. Abraão surge, aqui, não só como o «pai na fé» (v. 6), mas como o antepassado em que todas as correntes do Judaísmo se podem rever. Além disso, ele é agora uma figura «reconciliada» com a figura «concorrente» de Moisés:
– o seu «êxodo» a partir de Ur (cf. 15,7) precede/anuncia o «êxodo» de Moisés e dos Israelitas a partir do Egito (cf. Ex 20,2);
– o «fumo» e o «fogo» reveladores da presença divina (cf. 15,17) precedem a teofania do Sinai;
– ao «profeta» Abraão é revelado antecipadamente o que vai acontecer aos seus descendentes (cf. 15,13-16), tal como ao «profeta» Moisés, no Horeb (cf. 3,17-22);
– os «quatrocentos anos» de cativeiro (15,13) fazem eco dos «quatrocentos e trinta» de Êxodo 12,40, assim como a «quarta geração» (15,16) é reflexo da punição divina em Êxodo 20,5 e Deuteronómio 5,9.

 

Textos tardios

Alguns pormenores destes dois capítulos apontam também para o seu caráter tardio. Vejamos apenas dois. Em primeiro lugar, um estudo linguístico mostrará uma grande proximidade destes textos com os equivalentes no manuscrito qumrânico Genesis Apocryphon; proximidade essa que é também, seguramente, temporal (trata-se de um hebreu «mais evoluído»).
Em segundo lugar, pelo uso da guematria . Como notaram vários exegetas, o nome do servidor de Abraão em Génesis 15,2 – «Eliézer, de Damasco» – tem um carácter guemátrico. O valor numérico do nome Eliézer é 318, exatamente o número de servos nascidos em casa de Abraão, segundo Génesis 14,14.
Em síntese, não é necessário pressupor uma longa tradição escrita de ditos textos. São, muito provavelmente, oriundos dos meios que editaram os escritos proféticos e reelaboram algumas tradições relativas a Abraão, naquele género literário que hoje conhecemos como «reescritura bíblica».

Porfírio Pinto

 

 

____________________

1. Em relação ao livro dos Génesis, o exemplo de reescritura bíblica encontrado em Qumran é o chamado Genesis Apocryphon.
2. O nome Melquisedec (Melki + tzedek) significa «o meu rei é justo/reto» e, na Bíblia Hebraica, aparece unicamente neste texto e no Salmo 110. Neste texto, refere-se a um rei-sacerdote «mítico» de Salém, isto é, da cidade jebuseia de Jerusalém; no Salmo 110, por seu turno, evoca uma ordem sacerdotal diferente da aarónica tradicional (estará a aludir à ordem de Sadoc?). No entanto, este personagem é importante no período qumrânico, recebendo um caráter messiânico particular (cf. 11QMelchizedek).
3. A guematria é uma forma de exegese hebraica, em que se adiciona o valor numérico de uma palavra ou de uma frase, com o intuito de as interpretar.

 

Publicado por Re-ligare às 16:42
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