Terça-feira, 7 de Maio de 2013

Na peugada de Abraão 9: Epílogo: O casamento de Isaac

 

Terminamos este nosso giro na peugada de Abraão com o capítulo 24 do livro dos Génesis. Estamos perante um dos episódios mais longos da Escritura (contidos num só capítulo) e um dos mais curiosos do ponto de vista narrativo (*).

Foi classificado como pertencente ao género «novela» – revelando grande qualidade literária – e acaba por ser o primeiro episódio do pequeno «ciclo de Isaac», pois, no final, Abraão está completamente ausente, «como se já tivesse morrido» (E. Blum). Ora, esse miniciclo de Isaac (Génesis 24-26) faz a ponte entre duas histórias patriarcais: a de Abraão (Génesis 12-25) e a de Jacob/José (Génesis 25-50). Como notaram vários exegetas, os episódios deste miniciclo  funcionam um pouco como uma «missagra», retomando alguns episódios da vida de Abraão (comparar Gn 20 e 21,22-34 com Gn 26) e antecipando outros das vida de Jacob/José (comparar Gn 24,10-32 e Gn 29,1-14; ou ainda, mais em geral, o tema da providência divina da «história de José»).

A narrativa de Génesis 24, portanto, deve ser lida neste enquadramento, antecipando o casamento de Jacob, mas não como mera repetição de um topos literário, como veremos seguidamente.

 

 

Um casamento diferente dos outros

 

A história do casamento de Isaac difere muito de outros passos da Bíblia Hebraica, relativos aos costumes e rituais do casamento. Porém, assemelha-se com um topos literário usado no casamento de alguns heróis e heroínas bíblicos, mais concretamente com o do patriarca Jacob (ver Génesis 29), com o do líder e profeta Moisés (ver Êxodo 2), ou ainda, com um grande grau de ironia, no da estrangeira Rute (ver livro de Rute).

Mas, ainda assim, com uma grande diferença: nos demais episódios que repetem este topos, é o herói quem se desloca e encontra a sua noiva; no caso de Isaac, porém (note-se que ele é o único patriarca que não sai das fronteiras da Palestina!), a noiva é procurada por um emissário de Abraão, entre o seu «parentesco». Ou seja, existe neste episódio uma mistura (propositada) entre o topos do herói em busca de noiva e a fórmula do mensageiro/emissário, que tem o seu Sitz im Leben na corte (cf., por exemplo, 2Reis 18,19-35).

Por isso, o autor desta narrativa não se limita a usar um género literário corrente, mas adapta-o e desenvolve-o; pelo que este texto pertence claramente ao género midráchico, que vimos também aplicado nos capítulos 20 e 26 de Génesis, que desenvolvem o motivo presente em 12,10-20. Ao fazê-lo, o seu autor apresenta Abraão com traços reais (o que não é de todo novidade, basta lembrar o que dissemos anteriormente em relação ao escrito sacerdotal), que envia o seu «emissário» em busca de uma noiva para seu filho.

 

 

O problema dos casamentos mistos

 

Mas Génesis 24 coloca ainda outro problema: a questão do casamento com estrangeiros (ver versículo 3), um tema que perpassa o miniciclo de Isaac: senão veja-se a preocupação de Abraão, agora, e de Isaac, depois, para arranjar uma esposa a seus filhos; e a insensatez de Esaú, ao casar com as «filhas do país» (cf. Gn 26, 34; 27, 46). Analisado de perto, este capítulo aparenta ser uma «novela de diáspora», relacionada com a questão da proibição do casamento com estrangeiros, e antecipando, deste modo, a trama do livro de Tobite.

Dentro do ciclo de Abraão, esta novela revela a vontade do patriarca em respeitar as prescrições que impedem o casamento com estrangeiros (tal como as encontramos em Deuteronómio 7,3-4 e nos livros de Esdras e Neemias). Para os autores deste texto, era importante exortar os membros da diáspora mesopotâmica (v. 10) a procurarem mulher/marido dentro da sua «família» religiosa (o Judaísmo). Em rigor, a família de Naor seria certamente «pagã», mas não é isso que transparece na narrativa, ao ponto de Labão (o idólatra do ciclo de Jacob) se dirigir ao emissário de Abraão com as palavras «bendito de Javé» (v. 31), ou de reconhecer naquela missão a proteção e vontade divina (v. 50).

Os laços familiares, aliás, são preparados pela lista genealógica de 22,20-24 (a descendência de Naor, irmão de Abraão), de modo a harmonizar o texto com o escrito sacerdotal, em que Jacob partia a Padan-Aram para procurar descendência dentro da família abraâmica. Isso não impede que no final permaneça ainda alguma incoerência narrativa: os textos tardios, que fazem de Labão o filho de Betuel e neto de Naor, contrastam com os primitivos, em que Labão era tido por filho de Naor (cf. Gn 29, 5; 31, 53).

 

 

Novela da diáspora mesopotâmica

 

Na sua forma atual, a narrativa revela claramente um ambiente artificial (e, portanto, tardio), embora seja idealizado num imaginado período patriarcal.

Em primeiro lugar, chama a atenção a completa ausência de intervenções divinas (tão características das narrativas patriarcais). Em seu lugar, e como acontece na história de José, surge a «providência» divina, que conduz as ações dos homens e permite que sejam (ou não) exitosas. Isso é por demais evidente na «oração» do servo de Abraão, pedindo um sinal a Javé, que lhe permitirá avaliar do êxito da sua missão (cf. vv. 12-14).

Javé, o «Deus de Abraão», é também evocado como «Deus [Eloim] do céu e da terra» (v. 3), um título de sabor universalista, bem ao jeito do ambiente que se vivia no período persa. A apresentação, lado a lado, destes dois nomes («Javé» e «Eloim») de Deus, revela que o uso apenas de «Javé» (enquanto Deus «nacional» de Israel) começa a ser problemático (e isso levará, progressivamente, ao abandono da pronunciação do Nome divino, sendo substituído por Adonai, «Senhor», como já é testemunhado pela Septuaginta).

A descrição de Rebeca – uma «jovem muito bela e virgem» (v. 16) – corresponde ao ideal de esposa do Judaísmo do Segundo Templo (cf. Sir 15, 2; ou as heroínas dos livros de Judite e Ester).

Enfim, a entrega dos presentes à noiva (v. 53) não é um costume da Palestina, mas das regiões da Mesopotâmia, e provavelmente um indício do meio produtor desta «novela».

 

Em suma, antes da redação final da Tora (testemunhada, como vimos anteriormente, pelo capítulo 15 de Génesis), os textos patriarcais – particularmente os últimos capítulos dos ciclos de Abraão (o casamento de Isaac) e de Jacob (a «história de José») – foram já objeto de um debate alargado no Judaísmo, que lhes permitiu uma maior abertura às comunidades da Diáspora judaica (cada vez mais importantes, face à comunidade-mãe de Yehud/Judeia). E é este, talvez, o aspeto mais relevante deste texto.

 

Porfírio Pinto

 

 

(*) Do ponto de vista da sua estrutura, e no seguimento do estudo de John van Seters, Prologue to History: The Yahwist as Historian in Genesis (1992), hoje já ninguém duvida de que estamos perante uma narrativa unificada (sem grande trabalho redatorial) e, provavelmente, tardia, isto é, do momento em que se juntaram numa mesma obra as tradições de Abraão e de Jacob.

Publicado por Re-ligare às 17:51
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