Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2013

Da Irracionalidade Bela do Natal

Hoje, numa Era onde a informação nos chega aos olhos à velocidade de um simples e quase democrático «clique», onde com toda a facilidade acedemos a fontes que verdadeiramente nos emancipam porque nos fornecem todos os elementos necessários para que tomemos consciência, parece cada vez mais claro que a visão positiva em torno da relação entre informação e tomada de consciência foi rio que já secou há muito no lodo de uma complexidade que não se reduz a uma relação directa entre saber e acção.

De facto, já todos nós podemos aceder a excelentes textos, a grandes investigações sobre as verdadeiras origens dos ritmos, dos ritmos e dos símbolos em torno do Natal. Muitos de nós sabemos que a data exacta do nascimento de Jesus é totalmente desconhecida. Sabemos que muito depois do suposto nascimento de Jesus, o Bispo de Roma terá instituído oficialmente essa festa; estaríamos por volta do ano 137. Sabemos, ainda, que só em 350 o Papa Júlio I escolheu a data de 25 de Dezembro como o dia da observância do nascimento de Jesus. Todos os anos somos verdadeiramente bombardeados por notícias, por artigos, por séries televisivas onde esta indefinição em torno da origem da data se cruza com as heranças politeístas inseridas no processo de cristianização.

E, contudo, não é o fácil acesso a essas fontes de informação que nos fazem abandonar a celebração do Natal.

Também todos os anos somos objecto de um sem número de reflexões que nos alertam para os níveis de consumismo da quadra. Mais que bem-intencionadas retóricas em tempos de crise, são mesmo bem fundados alertas para o desvirtuamento que um Natal-comércio cria num Natal-do-espírito. Para além dos avisos contra a compra desenfreada de prendinhas, são os alertas para um materialismo que desvirtua a dimensão espiritual do evento.

E, mais uma vez, não são estes alertas que nos levam a mudar significativamente as nossas práticas.

Mesmo com crise, com a laicização da sociedade, com o afastamento das populações da prática religiosa católica, nada parece fazer perigar o Natal enquanto tradição profundamente enraizada na Cultura Ocidental.

Muito se poderia procurar como justificação para esta inusitada manutenção de tradição quando todos os quadros racionais nos levariam a ver um declínio efectivo. Da muito antiga tradição e das práticas, aos arquétipos dos ciclos da vida e da natureza onde o renascimento aparece ligado a uma alteração radical no ciclo solar a qua chamamos equinócio, muito se poderia colocar em cima de uma mesa de debate que seria, obviamente, inconclusiva.

Carpe Diem, diz-se, imitando o poeta latino Horácio. E isso mesmo se pode dizer numa quadra que parece contagiar. Deixamo-nos ir e… gozemos o dia!

Afinal, não é humana a mensagem de um Deus que se faz homem e nasce como qualquer um de nós? Acreditemos, ou não, que nesse nascimento se concretizaram profecias antigas, ou vejamos a história como mais um conto, a humanidade aí contida é profunda e clama por nós, pelo nosso lado Humano: pelo lado da festa, do “banquete em que todos somos iguais”, como afirma Homero na Ilíada; ou pela dádiva desinteressada.

Talvez por isso mesmo seja tão difícil ser racional nesta quadra e agir mecanicamente como a razão nos deveria indicar. É que, e parafraseando Nietzsche - que escreveu O Anticisto (1878) - o Natal desperta em nós um Humano, demasiado humano. Natal é isso mesmo: é uma tremenda carga de humano numa roupagem de divino. Um divino tão frágil quanto o humano. Por isso mesmo, acessível; de casa; dos laços estreitos.

 

Paulo Mendes Pinto

(director da área de Ciência das Religiões da Un. Lusófona)

 

 

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Publicado por Re-ligare às 19:11
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1 comentário:
De Domingas Matos da Cruz a 28 de Dezembro de 2013 às 01:07
Negocios aparte . .Celebrar o Natal \"Irracionalmente\" podera talvez ser uma manifestacao da necessidade Humana de experimentar o Divino. . .?



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