Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2013

Sobre a ideia de crença

Há uma motivação, que conta milénios, e um lugar, o tempo presente onde se manifesta essa motivação. São orientações para um objetivo do comportamento que se revelam de acordo com as imposições do presente. Convergem para que o fenómeno religioso, no que tem de menos transcendente e muito mais de afetivo, não só se manifeste no indivíduo, agora adaptado aos ritmos da contemporaneidade, como cative a análise científica, capaz hoje de aplicar (também) metodologias operatórias ao que há de sentimental na evolução antropológica humana. A utilização do termo crença ocorre-nos como cómoda, mas sempre filosoficamente imprecisa. Ela é o que o indivíduo estabelece como seu imperativo – e cientificamente obriga-nos a procurar uma forma hermenêutica – no sentido primeiro do termo, isto é, de tradução-, que o torne inteligível. Para o homem ocidental, a sua cultura é a tradução evolutiva de uma crença, muito mais no que tem de narratologia, de filológica, de essencial no encontro afetivo do que naquilo que possa ter de provável. Se atentarmos no que ficou escrito, ao longo dos últimos milénios, o esforço analítico é o de descortinar a concordância de sentido dos muitos registos da crença. Para nós, a ocidente, a cultura é esse reflexo do pensamento semita, veiculado pela Bíblia, com o pensamento Greco-Romano tardio(onde o cristianismo exerceu o seu proselitismo), que chegou a ser dominante numa parte muito considerável do mundo. Esta tarefa de conciliação intelectual, protagonizou-a Agostinho, na esteira das especulações abertas de Orígenes, Clemente e Fílon de Alexandria. E assim, a crença é um sedimento, sob o ponto de vista cultural, sedimento de muitos sentidos, literal, histórico, tropológico ou moral, alegórico, anagógico ou espiritual. O que hoje vemos é herança maior do que foi estabelecido na Idade Média e no Renascimento (já vemos essas ideias no De Trinitate e no De Doctrina Christiana) e chega-nos como uma tendência longa de memórias, cuja estrutura, mais próxima de nós, será alvo de uma quase revolução no Heidegger – a hermenêutica deixa de situar-se ao nível ontológico e passa a ao nível ontológico. No Ocidente, a ideia de Deus, abalada pela Revolução Francesa, onde o Homem passa a ser dono do seu destino e o Cidadão não é produto de uma transcendência mas do que resulta de si e dos seus atos, é o zénite da ideia de crença. Todavia, a dicotomia entre consciência e verdade são, com o evoluir da modernidade, os traços mais violentos de uma nova forma do ser humano acreditar – ou desacreditar – de si. Assim, o ser entende que é dependente, sempre de outro ser, que existe ou já existiu, mas que é um seu semelhante. Mais, que sendo imperioso que seja, isto é, que deixe de ser dependente de outro, tão dependente como ele, não pode ser, nem deve ser dependente. E finalmente, ao tornar-se independente é auto-existente – e nisso a sua crença inabalável estremece a ponto de ruir. Rimbaud vem dizer-nos “Je est um autre”, que a psicanálise, ou a filosofia, de Nietstzche a Heidegger vem confirmar conceptualmente, parecendo aos olhos dos homens que a nova teofania é a existência do Homem perante si e no confronto ideal com o outro – abandonando aos poucos a ideia do Deus Homem para procurar um Homem Deus no indivíduo, crente da crença em si e autossuficiente perante as suas dúvidas. Focault, Derrida, como Althusser, Barthes ou Lacan contribuem par ao desmascarar das ilusões do humanismo clássico – lançando desafios a uma nova crença. A modernidade impõe o Sujeito. Três tópicos podiam então ser confrontados: o criacionismo, com a resposta assente em mistérios transcendentes; o marxismo, com a resposta assente em realidades evidentes; o evolucionismo, com a resposta latente no encaixe rigoroso que de um ponto de origem chegaria a nós, levando-nos onde a nossa capacidade genética for capaz de nos guindar. Depois de Marx, de Darwin, de Freud, de Nietzsche ou de Heidegger é impossível voltar à ideia do Homem como mestre e possuidor da totalidade das suas ideias e das suas ações, não pelo que sofre de subjetivismo ou de transcendente, não do que na crença se limita, mas porque a sua tradução como sujeito lhe impõe a emancipação que nunca encontrará no coletivo. A crença é em última análise um conceito? Assim sendo, é uma palavra e o seu funcionamento depende da regra de jogo que a submete, sendo possível retomar nela pragmaticamente o perspetivismo. Desde a Antiguidade (não antes), as pessoas tomaram como necessário justificar as suas crenças. Esse um sintoma de dúvida, e a dúvida é o reverso da crença. Talvez a crença mais fundamental, das postas em causa, seja a de que Deus existe, interrogação impensável entre politeístas. Curiosamente, esse questionar da crença – por crentes e descrentes – começa pela interpretação de  factos como a experiência direta de Deus – normalmente apenas acessível aos crentes.

                   

Alexandre Honrado

Publicado por Re-ligare às 13:10
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