Quinta-feira, 30 de Agosto de 2007

A Ciência das Religiões no espaço Português

A Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias criou recentemente e pela primeira vez em Portugal, o curso de Ciência das Religiões que, de importância capital para a compreensão dos fenómenos religiosos e das inter-religiosidades, alarga a sua acção epistemológica ao campo da diplomacia. Assim, pela sua natureza, pode prestar um serviço de extraordinária importância não só no esclarecimento, na compreensão e na integração social de todos os agentes culturais do oriente e do ocidente, que compõem a nossa sociedade hodierna, como contribuir para o concerto das nações no mais profundo respeito na igualdade dos direitos religiosos e da cidadania.

Numa primeira abordagem pode parecer pretensioso da nossa parte apresentarmo-nos como "especialistas", de um conjunto de saberes que por si mesmos são transcendentes, e que levam o homem à transcendência de uma fenomenologia do espírito, pela análise criteriosa de uma semiologia religiosa e das relações entre os indivíduos como entes espirituais e intervenientes sociais ao mesmo tempo. No sentido em que Ortega y Gasset se referiu sobre os homens da ciência actual serem o protótipo do "homem-massa", é verdade que nós não escapamos desta "barbárie do especialismo" (sic). Mas o que nos torna especiais e imprescindíveis para o mundo contemporâneo?

A Ciência das Religiões não é uma sociologia nem uma antropologia, e de forma nenhuma uma etnologia. Não é uma exegese mística que faz uns, intelectualmente mais aptos do que outros, nem uma teologia ― no sentido em que esta se ocupa do estudo de Deus. A Ciência das Religiões debruça-se sobre os fenómenos religiosos num contexto intercultural, partindo do estudo comparado dos textos, das línguas e das etimologias, das filosofiasque animam as religiões, das linhas de pensamento que delas partiram e de como elas influenciaram as sociedades, os grupos e as tendências do pensamento. Mas nem sempre foi assim. A necessidade de estudar outras culturas e outras religiões, que não a cristã, surgiu de uma urgência de conquista espiritual e política. Essa foi a característica da Missionação portuguesa em África, na Índia e no Brasil nos séculos XVI-XVIII; e foi continuadamente pelo tempo das colonizações europeias. O estudo das religiões passou então de uma urgência do conhecimento para reforçar a crítica e assegurar o catecismo e a conversão, para uma necessidade de globalizar a geometria dos colonialismos. O estudo das religiões no século XIX e até finais da década de sessenta do século XX, teve esta tendência.

Neste postulado dos estudos religiosos devemos referir que o grande orientalista Max Müler (1823-1901), alemão e protestante do período romântico ao serviço da Inglaterra e da universidade de Oxford, ao escrever ao Duke de Argyll em 1868 (então secretário de estado da Índia), dizia: "The ancient religion of India is doomed, and if Christianity does not step in, whose fault it be?" (in Devi Chand 1988).

Mas devemos compreender que, o que nos impressiona hoje nesta afirmação foi perfeitamente natural num tempo específico, numa história cujos contornos eram diferentes e que apesar de pensarmos de forma diferente, herdámos ainda assim alguns comportamentos que nos comprometem politica, social e espiritualmente. O diálogo intercultural só muito recentemente começou, acelerado de forma vertiginosa por acontecimentos dramáticos que marcarão para sempre na nossa memória o começo deste milénio.

Vimos os estudos comparados das religiões surgirem associados aos primeiros passos da linguística (como no caso dos estudos indológicos e indo-europeus) nas universidades, nos institutos de estudos africanos e asiáticos e nas sociedades de geografia em todo o mundo. E vimos os mesmos estudos a autonomizarem-se a pouco e pouco e a associarem-se à antropologia, à sociologia e à linguística, mas não sem antes a religião ter passado por um processo de secularização. È, porém, a partir do momento em que a Ciência das Religiões se laicizou, que pôde iniciar o longo percurso no diálogo das culturas e das religiões tão urgente na contemporaneidade.

Este processo de autonomia epistemológica da Ciência das Religiões em relação a qualquer teologia, ao antigo colonialismo europeu e americano e até à própria antropologia, contou em Portugal com grandes génios ligados às línguas clássicas e à etnologia do século XIX.

José Leite de Vasconcelos (linguista, filólogo e etnólogo), Aniceto dos Reis Gonçalves Viana, Gonçalves Cardoso, Augusto Epifânio da Silva Dias, Guilherme Vasconcelos Abreu (linguista, orientalista e indólogo), Monsenhor Sebastião Rodolfo Dalgado (linguista e etimologista), Mariano José Saldanha, F. M. Esteves Pereira, António da Silva Rego e Margarida Corrêa de Lacerda. Todos eles, de forma determinada e altamente pedagógica, contribuíram para a cultura portuguesa, e para a construção desta ciência do homem que hoje se afirma tão urgentemente na construção da liberdade e da justiça.

Ela pretende estudar (epistemologicamente) os fenómenos religiosos partindo do fundo linguístico das línguas sagradas nas quais as religiões se formaram; comparar as geometrias dos discursos ao nível das relações e das tensões sociais; a formação das ideias e das geometrias cosmológicas e cosmográficas; o fundo ético e universal que atravessa transversalmente todas as religiões; os comportamentos específicos de todas as religiões na sua interacção interna e com a sociedade onde vivem, etc.

Mas, cabe esclarecer, que a Ciência das Religiões enquanto desígnio genérico, é o como episteme (conhecimento) no mundo e no homem, enquanto que no particular ― em cada país, em cada nação, em cada cultura ― toma como exemplos de estudo e de análise, os que interagem no seu próprio território.

Isto para dizer que, a Ciência das Religiões em Portugal tem a extraordinária característica de incluir toda a história da Expansão e dos Descobrimentos, da forma tão única como os portugueses interagiram com os outros povos, vivencialmente ao nível do pensar, do agir e do fazer religião; encerrando igualmente as experiências dramáticas e cauterizantes da perseguição que a Inquisição moveu aos Judeus e Cristão Novos. Portugal aceitou hoje igualmente os mesmos povos que outrora encontrou na China, na Índia, em África e no Brasil, mas já parte integrantes da cidadania, em Liberdade e em Justiça. Dizemos, portanto, que a Ciência das Religiões em Portugal tem a originalidade de emergir com uma tradição muito própria em relação às particularidades que se manifestam noutros países, e que pela experiência histórica ― por ter liderado a revolução científica com as Descobertas (que foram muitas), e ter desenvolvido um colonialismo muito próprio ― apresenta uma nova feição e uma postura singular no colectivo da Ciência das Religiões no mundo. Finalmente, a Ciência das Religiões que começa a dar os "primeiros passos", só aparentemente é jovem, pois os seus alicerces científicos, pedagógicos e históricos são fundos e têm a resistência do tempo que os portugueses ajudaram a construir, vivendo com os outros povos pelo mundo, que o foi da Expansão e o da Emigração.

O contributo da Ciência das Religiões para a compreensão do fenómeno religioso é tão importante como para a paz social. Promovê-lo é, ao mesmo tempo, ajudar a construir uma diplomacia de paz entre os povos.

 

José Carlos Calazans

Professor da licenciatura em Ciência das Religiões

Publicado por Re-ligare às 15:35
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