Quarta-feira, 1 de Janeiro de 2014

Desejar a Paz?

Será legítimo duvidar da utilidade da oração para a construção da Paz quando se sabe que a religião também alimenta o conflito e a violência. E o desejo? Pode o desejo de Paz ser transversal?

Este Natal ouvimos apelos ao diálogo como contributo para a Paz. Entre a fé e a razão, entre igrejas e religiões, entre culturas no pressuposto da liberdade religiosa. Francisco dirige-se aos “não crentes” que buscam “a verdade, a bondade e a beleza” (1). Comprometidos na defesa da dignidade humana, são aliados “na construção de uma convivência pacífica entre os povos e na guarda da Criação”.

Esta palavra especial para os “não crentes” está alicerçada nos textos evangélicos (2). Já em Maio, o Papa abordou o alcance do conceito católico de salvação e, levado por um texto de Marcos, enalteceu a universalidade do “bem”. O “ponto de encontro”, como sugeriu. A prática do “bem” como lugar onde crentes em Deus e ateus podem encontrar-se. Porque realizar boas obras não é um exclusivo dos cristãos. “É ateu? Faça o bem e lá nos encontramos!”, disse o Papa, que, no dia de Natal, quando falou à cidade e ao mundo - a uma cidade e a um mundo marcados pela diversidade -, voltou a revelar que não alinha em teologias cortantes.

O pano de fundo da mensagem foi a Paz. Tirando os olhos do papel, numa ideia Urbi et Orbi que lhe veio no improviso da consciência, convidou os “não crentes” a juntarem-se “com o desejo” às orações dos crentes pela Paz. “Com a oração ou com o desejo, mas todos pela Paz”, construindo vias de diálogo. Como interpretar este apelo à sintonia entre o desejo e a oração?

Em fluxos de satisfação e insatisfação, como onda que desaparece no areal, o desejo alimenta o ritmo pendular da vida na procura de felicidade, controlável, ou violento e obsessivo quando domina a razão. “Quanto mais se semeia em desejos, menos se colhe em felicidade”, diz o provérbio.

Nos primórdios da metafísica e do pensamento filosófico, o desejo revela uma vontade superior, ampliando-a até à irracionalidade. “Um desejo é sempre uma falta, carência ou necessidade” (3), lembra José Luís Nunes Martins, “um vazio com vontade de ser preenchido”. Por isso é perigoso e manipulável, como a oração.

Como se intui nas narrativas mitológicas - bíblicas (4) e não bíblicas -, entre a ética e a moral, o desejo ganha sentido quando é dominado e ordenado, procurando o equilíbrio entre o “quero”, o “posso” e o “devo” (Cortela), porque se tudo parece estar ao alcance, nem tudo convém (5).

O desejo não é estritamente religioso, mas pode revestir-se de fé e de convicção, de procuras que sustentam uma ética global religiosa (Hans Kung) ou sem Deus, capaz de assumir a felicidade no limite irrevogável da nossa maior inevitabilidade: somos “de” e “em” relação, e ninguém alguma vez foi ou será feliz sozinho porque “ninguém é uma ilha” (John Donne).

Movidos pelo desejo temos a capacidade de agir para concretizar, assumindo o risco da deceção. Como expressão maior da vivência religiosa, a oração também pode ser, como o desejo, uma vontade ampliada para lá do compreensível. E um “bem” como a Paz, não sendo propriedade religiosa, quando desejado em liberdade, é sempre a manifestação de uma opção ética, que, como se sabe, está ancorada numa busca com matriz religiosa e filosófica.

Se o desejo existe sem a oração, a oração coexiste com o desejo. Quando Jorge Bergoglio associa o desejo à oração, está a juntar duas expressivas pulsões da existência humana. A soma pode ampliar a compreensão do ser e do devir.

Na mesma mensagem Urbi et Orbi, o Papa apelou ao “coração”: "não tenham medo que o coração se comova”. Já em Homero, a inteligência (nous) era inseparável de um coração (thymós) movido pela vontade, capaz de carregar emoções e de encher a alma (psykhé) com sopro de vida.

Na sociedade das emoções exacerbadas e da solidariedade mediática, está o mundo a precisar de corações que se comovam?

Entramos assim noutra reflexão. “Sem compaixão” - reduto religioso -, “os mecanismos de solidariedade institucional, importantes na construção da paz e da justiça, arrefecem o sentido da corresponsabilidade?” (6).

1. Evangelii Gaudium, 257

2. Marcos 9, 40; Lucas 9, 50

3. Filosofias, José Luís Nunes Martins, Paulus, p.61

4. Génesis 4, 7

5. I Coríntios 6,12

6. Somos Pobres mas Somos Muitos, Verso de Kapa, p.85

Sugestões de leitura: Sobre o Céu e a Terra (Clube do Autor), Jorge Bergoglio e Abraham Skorka; Os rostos de Jesus (Temas e Debates), José Tolentino de Mendonça e Duarte Belo.


Opinião de Joaquim Franco

Jornalista
Publicado por Re-ligare às 12:18
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