Terça-feira, 4 de Setembro de 2007

Um caldo genético - uma busca de um lugar para um "outro"

Há situações na nossa mentalidade política que nos devem fazer pensar um pouco mais além do simples momento presente. Todos sabemos que é no presente que se gera a impaciência, a necessidade de respostas, mas devemos olhar um pouco para trás e para a frente, equacionando um pouco mais densamente o que queremos.
Relembrando um facto de antes do Verão, um único cartaz colocou o chamado “dedo na ferida”. Com uma única acção, na semana da “eleição” de Salazar, vieram ao de cima um significativo grupo de fantasmas ligados ao racismo. E vieram ao de cima porque, periféricos como sempre nos vimos, temos julgado que os problemas dos outros países europeus em nada nos afectam.
Nada de mais errado. Naturalmente, numa época de globalização, os problemas dos vizinhos também serão os nossos. Mas mais, numa época de globalização, há que procurar os aspectos específicos de cada cultura, de cada forma de se ser periférico.
E é ai que, nós portugueses, normalmente perdemos o bom senso e resolvemos ser ainda mais iguais que os outros. Na forma de ver o “outro”, como os antropólogos gostam de dizer, Portugal fez um caminho próprio. Muitas vezes esquecida, escamoteada, há uma herança colectiva de que normalmente nos esquecemos, dando primazia aos aspectos negativos.
Ao contrário da ideia generalizada, Portugal foi um dos últimos reinos europeus a instalar a Inquisição (ela nasce em 1236 e chega a Portugal exactamente 300 anos depois) – esse tribunal religioso é extinto em Portugal em 1821, mas o papado apenas tem semelhante acto em 1859.
Mas sobre o tema do convívio com o tal “diferente”, o não cristão católico, ou mesmo o “etnicamente” diverso, muito mais se poderia acrescentar: durante toda a Idade Média, judeus e muçulmanos viveram em Portugal em significativa liberdade (muito mais livres e seguros que na restante Europa); o que fizeram, durante meio milénio, os portugueses que foram mundo fora procurando riqueza? Casaram, acasalaram, vivereram com as mulheres que encontraram, numa política geralmente instigada pelo próprio poder central, fossem elas negras, indianas, índias, chinesas, japonesa ou timorenses; mais perto de nós, como se teriam construído as centenas de quilómetros de auto-estradas dos anos noventa sem a mão de obra ucraniana, cabo verdiana, etc, etc, etc? No limite da comparação histórica, foi em Portugal que no século XIX teve lugar uma guerra civil porque parte dos cidadãos queriam manter a escravatura? Ou, ainda estupidamente mais perto dos nossos dias, foi em Portugal que ainda na segunda metade do século XX os “negros” não tinham os mesmos direitos civis que os “brancos”?
A viabilidade deste espaço administrativo que hoje é Portugal só teve sucesso durante quase um milénio porque, e essa é uma das linhas fortes, houve uma quase constante mistura entre religiões e culturas, no fundo, entre gentes. Normalmente, tudo começa a correr mal quando acontece o oposto: quando se expulsam judeus, quando se instala a Inquisição, entre outros aspectos.
Pode parecer estranho, mas era viável fazer uma História radicalmente oposta àquela que normalmente ditamos. Sim, Portugal tem, na sua História, algumas das melhores posturas em relação ao diálogo inter-cultural e à tolerância para com o tal “outro”.
Naturalmente, nem tudo foram rosas. Mas também, nem tudo foram espinhos. Mas cartazes como o que recentemente apareceu na rotundo do Marques de Pombal, em Lisboa, apenas merece o riso sobranceiro de uma sociedade que é, geneticamente, um misto de latina e celta, depois árabe, berbere e judia, mais tarde franca, e por fim, negra, índia e até mesmo sino japonesa... e isto tudo até ao século XVIII.
Ingratidão da História aos xenófobos lusos: se quisermos mandar fora todos os não-brancos (sim, todos os que não sejam mesmo brancos tipo lavados-com-lexívia), teremos que mandar vir um estrangeiro para apagar as luzes do aeroporto no fim...
  
Paulo Mendes Pinto
Director da licenciatura em Ciência das Religiões na Un. Lusófona
Publicado por Re-ligare às 14:38
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