Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

Racismo, violencia e ignorância

Ainda há não muito tempo aqui editei um texto sobre a extrêma direita. Na altura, e tendo como ponto de partida o caricato cartaz satirizado pelos Gato Fedorento, brinquei um pouco com o facto de Portugal ser um pais de diversidade.

Hoje, depois do tom jocoso, urge mostrar a indignação perante tão atroz acto de violência que foi a profanação de sepulturas ocorrida ontém em Lisboa no cemitério judaico.

No mais natural espírito de são convívio com a diferença, todos sentimos um grande repúdio em relação ao que aconteceu. Mas devemos tentar perceber a razão que pode estar por detrás deste injustificado acto.

Enfim, podemos falar na brutalidade imanente a muitos indivíduos, o que os leva a actos de vandalismo e a agressões um pouco sistemáticas e gratuítas. Podemos ainda imaginar questões ideologicas, cimentadas em certos pontos de vista mais ou menos defensáveis. Mas o centro do que actualmente ocorre um pouco pela Europa reside num factor muito mais preocupante.

Esbatidas as identidades tradicionais, construídas ao longo de séculos, identidades essas muitas vezes alicerçadas numa visão negativa do judeu ou do muçulmano, criou-se um vazio de pertença que não foi acompanhado por uma didática integradora.

Numa época em que a globalização parece levar todos a toda a parte, ninguém se lembrou de gritar bem alto que esse fenómeno não é em nada novo. Já há centenas de anos que em Lisboa viviam mais negros, judeus e muçulmanos que "brancos". Como imaginamos nós que fosse a população de Lisboa em meados do século XVI, o século das glórias marítimas?

Ora, a ignorância grassa pelos nossos manuais escolares, pelas nosas televisões, pelo nosso dia-a-dia. Multiplicamos o não saber como quem se anestesia de uma dor que não consegue identificar e que se pretende esquecer, ou nem sequer dar por ela. Ano a pós ano, vamos lançando nas ruas cidadãos que de cidadania nada imagiunam a não ser o direito de gritar uns com os outros quando o seu clube de futebol joga.

É cada vez mais urgente dar um maior lugar a uma visão séria sobre o passado. Só o olhar crítico sobre o que se passou nos pode ajudar a perceber o que hoje procuramos viver. Não é que a História nos deva servir de exemplo ... mas ela é dos únicos espelhos que temos...

    

Paulo Mendes Pinto

Director da Licenciatura em Ciência das Religiões

Publicado por Re-ligare às 22:01
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9 comentários:
De sopisca a 19 de Outubro de 2007 às 15:11
Olá Professor,
Li este texto, e não podia deixar de expressar alguma coisa sobre o assunto! E a minha pergunta é a seguinte "como"? Como fazer chegar o "entendimento? Reeducando a futuras gerações? Dizer que os manuais/Meios de Comunicação não estão de acordo com a realidade, pelo menos com a realidade "mundial"(se é que lhe posso chamar assim)? E mesmo que o façamos..como fazer com que essa informação chegue ás massas? Explicar que é necessário respeitar o próximo..não por obrigação, mas porque deveria fazer parte da nossa natureza?
De Re-ligare a 20 de Outubro de 2007 às 16:05
Esse é o grande problema - facilmente vemos o que está mal, mas é muito difícil imaginar soluções que alterem a situação. Contudo, muita coisa se pode fazer; não são soluções perfeitas, mas sempre ajudam... e já que fala em Manuais, basta dar uma vista de olhos aos Manuais Escolares para verificar que, por exemplo, eles quase nada falam da Inquisição; muito pouco, ou mesmo nada, do holocausto nazi ...
Temos muita dificuldade em falar sobre assuntos que são incómodos. Essa fuga a certos temas é uma desresponsabilização social tremenda.
O que em primeiro lugar há que fazer é perder medo de falar das coisas. Pôr as pessoas afalar daquilo que não querem...

PMP
De sopisca a 21 de Outubro de 2007 às 14:55
Agora é que o Professor tocou no "ponto fraco" do individuo , enquanto ser complexo...Quando se atravessa por experiências traumáticas...a maneira mais fácil de lidar com ela é de facto: esquecê-la, fingir que nada aconteceu, apagar essa mesma memória...é o caminho mais fácil ..mas que, a meu ver acaba por corroer o coração, a saúde mental..e esquecemo-nos que viver implica isso mesmo: errar, corrigir, partilhar esses mesmos erros..

Sofia S.
De Re-ligare a 22 de Outubro de 2007 às 10:04
Mas isso é, de facto, o essencial da natureza humana que, acho eu, não encontramos noutros animais: poder dar valor, optar, por uma postura perante uma situação. Pode parecer simples em enunciado, mas torna-se complexo quando o centro do problema radica em questões de identidade.
Ainda na sexta feira passada, num jantar tertúlia no Martinho da Arcada eu lembrei: há 300 anos, a cerca de 50 metros deste local, foram queimadas centenas de pessoas. Esse jantar era integrado no colóquio sobre «Religiões, Diversidade e Não-Discriminação» mas, naturalmente, ninguém se tinha lembrado desse facto.
Nós não nos lembramos do que é incómodo.
Não há uma placa de memorial naquela praça sobre as centenas ou milhares de mortos da Inquisição ...
De sopisca a 22 de Outubro de 2007 às 18:01
Sem duvida...o impacto que uma "Placa Memorial" com esse tema, seria conflituosa..mas duvido que sejamos adultos ou até mesmo o Responsáveis o suficiente para o fazer. Ainda se fala muito por código, há inúmeros tabus, segredos bem escondidos...E o "povo" simplesmente assenta na "poeira" outrora em alvoroço..e esquecido "dorme", aprende o que é "correcto" e vive o dia a dia numa inércia..na minha humilde opinião..
Sofia S.
De Re-ligare a 23 de Outubro de 2007 às 00:13
Com essa palavrita, "correcto", centra o problema da melhor forma: o problema é a ideia do "politicamente correcto"; porque falar nisso? dirão uns; porquê levantar problemas ? não se tá bem? porquê piorar?
Com a falta de coragem de enfrentar os problemas, continuamos a tentar tapar o sol com a tal poeira de que fala... isto resulta mal... como se viu no recente acto de vandalismo no cemitério judaico de Lisboa.

PMP
De Maria José Duarte a 22 de Outubro de 2007 às 16:35
Mas não será um bom espelho?
O estudo transdisciplinar dos fenómenos históricos, permite-nos ser elos de ligação entre uma visão restrita e uma globalizante. Situando-nos no "aqui e agora", dá-nos consistência e flexibilidade para analizar qualquer fenómeno.
A História é a nossa fonte. Que sede nos pode saciar? Sempre a da eterna procura do saber.
Maria José Duarte
Aluna do 1ºano Licenciatura Ciência das Religiões
De Re-ligare a 23 de Outubro de 2007 às 00:18
Sim, mas há o desejo de saber e o medo do Saber. Donde, apenas com uma profunda alteração da vontade de saber se pode chegar a uma sociedade de Saber. Num mundo desses, onde o Saber seja o que se almeja, procurando constantemente mais e mais saber, poderemos imaginar que não se tenha medo da História.
Mas a História é sempre esse tal espelho... e neste caso, nem nós somos a Branca de Neve, nem o espelho nos vai dizer incondicionalmente que somos os melhores...
No caso dos judeus portugueses, o que a nossa historiografia ainda hoje nos apresenta é alarmante.

PMP
De José Pereira Malveiro a 24 de Outubro de 2007 às 11:45
A questão já é antiga.
Erupta sistematicamente, e vemo-nos confrontados com os nossos medos.
A conveniência em esquecer o que nos incomoda e nos envergonha, ou demonizar o passado inquisicional, em nada educa as gerações seguintes.
O “são convívio”, não deveria ser em pleno século XXI, posto em causa ou uma reinvidicação das minorias.
As vozes que se levantam, a condenar a intolerância, são por vezes os primeiros beneficiários destas notícias, caso da TV e média em geral.

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