Sábado, 11 de Outubro de 2014

A inutilidade de sermos história

            

Aprendemos a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a arte de vivermos juntos, como irmãos

              

Martin Luther King

              

              

Dificilmente, à distância, um futuro historiador olhará para estes quase 15 anos do arranque do século XXI e para as fontes de interpretação que dele restarem, com um olhar melhor que o da comiseração. Sentirá remorsos, porque a falta de objetividade desse sentimento limitá-lo-á na sua tarefa. Sentirá como recompensa o prazer de ser um sobrevivente. Ao contrário dos que aventavam os jornalistas económicos, a sua profissão manteve-se, para explicar-lhes como estavam errados. Ficará talvez conformado, esse historiador, por não ter sido ainda este o tempo do fim da História que colegas seus haviam preconizado. Até porque um historiador não deve produzir futurologia, a sua missão de entender o passado é que permite exatamente o futuro e o estonteante, efémero, pulverizado momento presente. Ficará, o mesmo historiador, um pouco abismado com a arte de dominar o descartável dos povos do passado, afinal seus pais e avós: no início do século XXI somos deglutição. Ficará espantado ao perceber que Paquistão, Afeganistão, a Serra Leoa que estavam nas capas dos jornais desapareceram para dar lugar à República centro Africana, esta à Somália, e à Nigéria, ao Mali, ao Egito, engolidas pela Ucrânia, a Rússia, o Iraque, a Síria, a Palestina, Israel, o ébola..., num desfile de horrores sem consequência, apenas a voracidade dos espectadores, quase todos ocidentais, sentados na poltrona da paciência, vendo o medo e a estupefacção alheios como produto de entretenimento e coisa intocável. Espetadores que um dia não entenderam a Primavera Árabe, no dia seguinte não perceberam as sublevações no Brasil e uma semana a seguir não quiseram esperar para ver como acabava a situação das raparigas raptadas pelo grupo extremista Boko Haram, apenas por falta de interesse e paciência. A realidade alheia é sempre menor. Como encarar um século que começa com o 11 de setembro como grande chancela, e banaliza progressivamente o terrorismo? Temos saudades das suspeitas sobre Saddam Hussein, e do seu alegado programa de construção de ogivas de mísseis, quando vemos agora o sangue em direto e os corpos dilacerados, dia após dia, nos territórios mais variados. Sentimos uma certa romântica nostalgia por Bin Laden, aventureiro das arábias. Aqui na Europa, onde quase ninguém sabe ainda onde fica a Bósnia, já ninguém se lembra de Atocha e interpreta-se Auschwitz como estância de ficção. As guerras de hoje fazem pouco sentido para a maior parte de nós. E todavia houve momentos da História em que se justificaram: as guerras libertadoras, as guerras em nome de causas, as guerras pela autodeterminação e pelo erradicar do jugo, as guerras em nome do que se acreditava – e as que se travavam dentro do Homem, pela sua dignidade. As guerras de causa voaram nos estilhaços dos interesses económicos. E quando vemos um pobre desvairado a agitar a sua arma, acreditando que tem nas mãos o destino do Mundo, sabemos que o seu epitáfio será escrito com poeira pobre, dessa que se faz com pólvora, lama e sangue desperdiçado. Mesmo que combata numa guerra pesada, ele não tem o menor peso. E ao banalizar a violência esgotou-lhe o pouco sentido que ela podia ter. Se o terror se estabelecer, se for uma generalização já ninguém se aterroriza, limita-se a viver sob o novo padrão do medo e a ser o próprio medo. É frustrante. É uma narrativa que se dilui na sua própria estrutura, sem sentido nem vitória. Tranquilo com a abolição do califado por Ataturk, o Mundo acorda anos depois com a vontade do restauro do mesmo califado, por vontade de um franco-atirador de quem (ainda) não se fixa o nome. Talvez o futuro seja apenas um pátio escuro ou a explosão solar. E o que acreditados em matéria de direitos humanos, de democracia, de laicidade, da herança das Luzes, finde num massacre. Talvez o historiador do futuro entenda que quem abriu as portas à tragédia, tenham sido aqueles que afastaram o Homem como centro, como os ultraliberais, os adoradores dos mercados, os salvadores dos bancos – que patrocinam as guerras, que os enriquecem. O historiador do futuro achará inútil as mortes. As do World Trade Center ou de Kobani, na Síria, ou as crianças-soldado em todos os cenários de Guerra. Provavelmente, achará inútil a própria história e tudo aquilo que, juntos, fomos incapazes de aprender.”

               

Alexandre Honrado

 

Publicado por Re-ligare às 22:55
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