Quinta-feira, 13 de Agosto de 2015

A PRESENÇA AUSENTE (três): O MEU PASTOR É VIRTUAL

Para quem não segue uma religião, como seu cultor ou crente, mas todas, sem exceção, com a curiosidade afetiva, científica e profunda, cultural e académica, incapaz de ignorar-lhe os pormenores, e a capacidade que possuem, indiscriminadamente, de moldar alguns comportamentos humanos (até à euforia e à excentricidade), a minha experiência mais recente merece ser contada. Deixe-me que lhe diga que, poucos dias antes dessa experiência que vou narrar, me vi confrontado com um anúncio televisivo muito comercial e dinâmico em que uma marca automóvel era comparada à uma divindade.


A marca anunciava que ao sétimo dia de composição criativa-criacionista tinha desembocado na perfeição (se for a ver bem, nenhuma divindade se atreveria a tanto, em especial se analisasse a criação humana, da sua responsabilidade e atrevimento, pobre criação tão distante do que devia ser perfeito mas se mostra incapaz de sê-lo).
Os criativos europeus criaram esta campanha para uma marca alemã. Convém recordar que na Alemanha a Igreja e o Estado são separados, mas há cooperação em várias áreas, principalmente no sector social e não é espantoso, mas ainda destacável que o presidente da Alemanha, o senhor Joachim Gauck, é um pastor luterano, político que teve um papel ativíssimo no processo da reunificação alemã. Se olharmos para outras religiões, uma campanha como esta podia figurar como uma afronta a princípios, crenças, dogmas...


Passando nas televisões – e outros veículos de propagação audiovisual – a referida campanha publicitária pare ter deixado indiferentes os crentes. Não sei também se motivou a compra do carro em questão. A verdade é que motivou a ressalva intelectual de alguns não crentes, e mais não digo.

 

Estava eu a digerir isto quando os acasos da vida me levaram a um acontecimento social sempre pesado e afetivamente incómodo: um funeral.

 

Cheguei à Igreja onde se prestaria a última homenagem a quem partia e a primeira impressão foi impressionante. Construída numa terra de fortes tradições não religiosas, a igreja (católica) era uma peça de cenário sugestivo. No alto de uma elevação, com uma arquitetura fantástica, de grandes portas e janelas rasgadas permitindo ver, de longe, o interior. A igreja no seu esplendor teatral. À noite, o efeito era ainda maior: as luzes projetadas no interior, sobre fiéis e celebrantes, permitiam um espetáculo, mesmo à distância, para quem passasse. Não é um exemplo inédito, mas sendo uma construção recente, apreciei com demora. Todavia, o que se seguiu foi mais intenso.

 

Na capela mortuária, um pastor recebia os presentes. (Na igreja católica, que recebia um funeral protestante). O pastor então convidou os presentes a verem, nos seus telemóveis, os cânticos que ia propor na cerimónia. Podiam, os que que quisessem, descarregar a aplicação que permitia o acesso ao livro de cânticos. Confesso que fiquei um pouco admirado. Como já disse aqui, a linha invisível entre a modernidade e a pós-modernidade quebrou-se com a presença no mundo profano das tecnologias digitais, dos anos 90 até agora com uma rapidez invulgar de implantação e aceitação. Isso permitiu – e promoveu uma mudança de conceito nas relações religiosas com estas tecnologias. A assimilação dos meios tecnológicos aliou o digital e o espiritual. Hoje, o Pastor de cada um está na Internet, as missas e os cultos também.


Da confissão à ideia da vela virtual, a internet acende os crentes, perdoe-se a ousadia da comparação. As redes sociais enchem-se de citações, de salmos, de passagens bíblicas, corânicas, de citações de rabis ou do Talmude, ou de outros livros sagrados.


Distante do Homem e perto do PDF, do Twitter, do Facebook, do Twoo, de todas as formas electrónicas possíveis, há um deus na rede, um pastor virtual, uma salvação, em forma de redes interligadas num conjunto de protocolos padrão, que podem levá-lo do seu computador ao céu da sua vontade.

Alexandre Honrado

Publicado por Re-ligare às 16:49
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