Terça-feira, 20 de Janeiro de 2015

Biomusicologia – Definição e Conceito

“A música, essa linguagem perfeita que poucos podem nomear, não ocupa um lugar de destaque, dirão alguns. Mas tal como numa oração, ela encerra o segredo de tudo”

(Alain Badiou – Almagestes, 1966)

 

Biomusicologia é um termo estabelecido por Nils L. Walin pela primeira vez em 1991, sendo uma disciplina que estuda os efeitos biológicos e evolutivos da música. Podemos dizer que é o estudo da base biológica para a criação e apreciação da música. Sendo a música um fenómeno existente na totalidade dos grupos humanos, os cientistas acreditam existir uma base biológica para a sua criação e apreciação.

Na década de 90, Nil Wallin, diretor do Institut for Biomusicology da Mid Sweden University em Östersund, conjuntamente com Steven Brown e Bjorg Merker, publicam o livro “The Origins of Music”, reunindo nesta obra uma coleção de 27 ensaios e artigos, fruto da colaboração de uma equipa multidisciplinar, na qual estão inseridos neurocientistas, biólogos, antropólogos, musicólogos, arqueólogos, etólogos e linguistas, num estudo que pretende compreender as origens da música em três planos, explicando que a Biomusicologia engloba três áreas principais de estudo:

 

Musicologia Evolutiva

Estudo das origens e da evolução da música, quer nos humanos quer nos animais.

•         Origens da música,

•         Canção animal,

•         Seleção natural pela evolução musical,

•         Evolução musical,

•         Evolução humana.

 

___________________________

 

 

Musicologia Comparativa

Estudo das funções, dos sistemas e do uso da música, bem como dos comportamentos musicais.

•         Funções e usos da música,

•         Vantagens e custos da produção musical,

•         Fatores universais do sistema musical

•         Comportamento musical.

 

 

___________________________

 

 

Neuromusicologia

Estudo da ontogenia da capacidade e habilidades musicais; estudo das áreas da inteligência e dos mecanismos cognitivos e neuronais no processo da aprendizagem musical.

•         Processamento musical cerebral,

•         Mecanismos neurais e cognitivos do processamento musical,

•         Habilidades musicais e ontogénese da música

 

 

Os aspetos práticos dos principais ramos contribuem para o que é denominado de Biomusicologia aplicada, cujo objetivo é conferir argumentos biológicos em áreas como:

  • Terapias médicas e psicológicas que usem música,
  • Uso generalizado de música nos meios audiovisuais,
  • Presença da música em locais públicos
  • O seu papel em influenciar o comportamento da população
  • Utilização de música para potenciar a aprendizagem

É importante referir que quando mencionamos a palavra “Música”, queremos com ela englobar todo o processo comunicativo de sons cuja origem, em termos de organização animal, remonta a um período anterior ao surgimento do homem.

Na visão desta pesquisadora, a música não é uma dádiva da inteligência humana, nem um fenómeno cultural com cerca de 52 000 anos (data dos mais antigos instrumentos musicais, encontrados na Eslovénia).

O facto da “música” das baleias corcundas ter refrão, rima e artifícios sonoros que facilitam a memorização dos trechos musicais, permite o entrelaçar intencional dessas ondas sonoras em determinados intervalos, produzindo ritmo e harmonia.

Ora, foi exatamente esta mesma ordem que surpreendeu os pesquisadores quando escutaram os sons emitidos pelas baleias no fundo dos oceanos.Nil Wallin , Steven Brown e Bjorg Merker são da opinião que as origens da música fornecem elementos para a compreensão da evolução humana.

A evolução da linguagem é altamente entrelaçada com a evolução da música. A música fornece um meio específico e direto na evolução das estruturas sociais humanas, na função de grupo e comportamento cultural.

Atualmente, uma equipa multidisciplinar tem pela primeira vez desenvolvido uma pesquisa conjunta, com o objetivo de analisar temáticas relacionadas com a biomusicologia evolutiva; num estudo que poderá contribuir enormemente para a nossa compreensão do percurso da música humana, nomeadamente nos seguintes pontos:

O “fabrico” da música é a quintessência da atividade cultural humana, e todas as culturas a produziram”.[1] Este trabalho inovador conduz-nos à necessidade de reavaliação do étimo da palavra “Música”, aqui entendida como um processo comunicativo no qual as funções originais da música, o seu uso e o seu real papel, em termos de difusão nas diversas culturas da Humanidade, devem ser reavaliadas. Isto porque “mais tarde novas organizações de estruturas sonoras se desenvolveram, com novos significados na construção da organologia e semânticas musicais da Humanidade”.[2]

Algumas delas produziam sequências musicais que demonstravam intencionalidade, fazendo isso lembrar a base da estrutura de uma sinfonia.

No entender de vários biomusicólogos, a História da Música pode retroceder até pelo menos 60 milhões de anos, quando as primeiras baleias apareceram nos oceanos. “Não é exagero dizer que esses mamíferos também criaram o que chamamos de música” (Patricia M. Gray).

Segundo um estudo da pesquisadora Patricia M. Gray, da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, publicado na revista Science, humanos e animais são organismos programados para a música.

Esta ciência, de cariz pioneiro, aborda de uma forma única os estudos já existentes nas áreas referidas, procurando dar-lhes uma sequência inovadora.

  • a evolução do aparelho vocal hominídeo,
  • a localização de funções cerebrais,
  • a estrutura sinalética e acústica,
  • a simbólica gestual e a manipulação emocional através do som,
  • a autoexpressão,
  • a criatividade,
  • a afinidade humana com a espiritualidade,
  • a conexão humana à própria música em si mesma.

Assim, no âmbito da pós-graduação e da especialização em Biomusicologia®, cuja vertente é voltada para a aplicação terapêutica, pretende‐se efetuar um trabalho de cariz eminentemente prático e que chegue a um elevado número de pessoas, cumprindo com um importante objetivo desta formação:

tornar a formação em Biomusicologia® pragmática e socialmente atuante.

Biomusicologia Terapêutica® controla os batimentos cardíacos, torna a respiração mais lenta e profunda, previne as enfermidades cardíacas, relaxa a musculatura, combate o nervosismo, combate enxaquecas, aumenta a resistência às excitações sensoriais, previne as neuroses, previne as enfermidades psicossomáticas, combate o stress, permite o domínio das forças afetivas e ajuda no bom funcionamento fisiológico.

  • Tanto pode causar um estado profundo de relaxamento semelhante ao da vigília, ou estado alpha, quanto pode elevar o espírito e trazer um estado de contentamento duradouro ao ato de celebrar e encontrar a verdadeira unidade.
  • Assim sendo, pode produzir no cérebro a mesma sensação de bem-estar produzida pelas endorfinas (grupo de proteínas segregado pelo hipotálamo, de grande poder analgésico, que estão presentes em estado natural no cérebro) responsável pela redução da dor que sentimos.
  • Esse estado leva à quietude mental, aliviando o stress, as preocupações, a insónia, a inquietação e a agitação mental. Faz tomar contacto com as emoções mais profundas retomando o sentido do verdadeiro Eu e dos valores mais importantes para a autorrealização.

Sendo a música um fenómeno existente na totalidade dos grupos humanos, os cientistas acreditam existir uma base biológica para a sua criação e apreciação.

Para além de terem descoberto que não somos os únicos seres abençoados com esse dom.

A Biomusicologia tem revelado que somos todos seres musicais!

 

Danuia Pereira Leite

 

Bibliografia:

WALLIN, Nils L, BROWN, L. Steven, MERKER, Björn, (Eds., 1999): The Origins of Music, Cambridge, Mass. MIT Press;

PERETZ, Isabelle, The nature of music from a biological perspective, 2006100, pp. 1–32;

WISNIK, José Miguel, O som e o Sentido, s.d.

PERT, Candace, “Molecules of Emotions”, Pocket Books, 1997;

CAESER, Wesley, MusicAll – Contraponto, 1990;

____________

[1] Wallin, Nils L./Björn Merker/Steven Brown (Eds., 1999): “The Origins of Music”, Cambridge, Mass.: MIT Press. ISBN 0-262-23206-5.

[2] Wallin, Nils L./Björn Merker/Steven Brown Op. Cit

Publicado por Re-ligare às 00:38
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